Turismo

Revista Mercado Edição 38 - janeiro 2011

San Blas, a aventura de ser livre

POR Heitor e Silvia Reali (Scritta)

Localizado no litoral atlântico do Panamá, o arquipélago convida a uma viagem de descoberta e aventura

As ilhas de San Blas, litoral atlântico do Panamá, canalizam a um raro e quase desconhecido destino. O arquipélago prova que o Panamá é mais do que o Canal e outras ondas caribenhas. Mas não se trata aqui de comparar regiões, belezas são incomparáveis. As novidades nas ilhas não estão mapeadas. Nada é determinado. Afinal, viagens que incorporam o espírito da liberdade são sagradas demais para serem desperdiçadas com obrigações. Ali se inventa aventura a cada instante. As decisões de onde nadar, velejar, praticar mergulho autônomo ou snorkelling são do visitante. Cada um escolhe em qual ilha aportar para lavar a alma.

O arquipélago de San Blas

São 360 ilhas, das quais somente 56 habitadas – algumas não maiores que uma quadra de tênis -, e outras cujo cenário é digno de cartunista: um montinho de areia rodeado por uma palmeira. As ilhas são envolvidas pelo mar cristalino que, de tão claro, nos confunde quanto à sua real profundidade. E basta uma escala em algumas dessas ilhazinhas desertas, frequentadas sobretudo por pelicanos e golfinhos, para interagir com o mundo que os cerca. Todas despertam a impressão de reviver por algumas horas um pouco da aventura “robinsoniana”.

As ilhas são envolvidas pelo mar cristalino que, de tão claro, nos confunde quanto à sua real profundidade

Apesar de os homens governarem as aldeias, a sociedade é matriarcal e são as mulheres que mandam no pedaço. O arquipélago de San Blas é pátria dos kuna, etnia que venera as mulheres e cultua as cores. Ali todas as festas são para elas: quando nascem, quando atingem a puberdade, quando têm o primeiro filho e por aí vai… Mas não é uma nova versão das amazonas ou de fábula recém-descoberta dos irmãos Grimm. Esse arquipélago existe mesmo.
O acesso se faz por via aérea, e antes mesmo de o pequeno avião atingir seu teto máximo, já começa a descer. São trinta minutos de voo saindo da Cidade do Panamá, mas a distância para as aldeias não pode ser medida em horas, e sim em séculos. Elas têm uma quietude histórica que faz com que pareçam cristalizadas no tempo. Em uma viagem a este território, é impossível dissociar a sensação de beleza da história de seu povo.

San Blas é a pátria dos Kuna, etnia que venera as mulheres e cultua as cores

Vista aérea de San Blas

É mais fácil uma Sexta-feira Santa cair num domingo do que influenciar a cultura kuna. De sanha brava, lutaram por quase 500 anos para sobreviver e não permitir a aculturação. Essa luta só terminou em 1925, quando o governo do Panamá reconheceu o arquipélago de San Blas como território dos kuna, o Kuna Yala.

O arquipélago de San Blas é território dos Kuna

Paraíso étnico

A simples visão da pista de aterrissagem em El Porvenir, uma ilha que remete a uma passadeira estendida no mar, assegura a sensação de que se verá um belo espetáculo feito de paisagens únicas. Navegar entre as ilhas onde o sol brilha 350 dias, para não dizer o ano todo, faz brotar o sentimento de que não se desejaria estar em nenhum outro lugar do mundo.

Durante o trajeto, os viajantes vão se familiarizando com essas ilhas que ainda pertencem à natureza. O povoado de Nalunega é um emaranhado de casas que chegam até as bordas do mar. Uma das pousadas ali tem o mesmo look das casas: telhado de sapé, paredes de bambu que deixam passar sons e nuances de luz, e o chão de areia onde uma onda mais afoita pode lavar o quarto. São as evidências das palavras dos kuna, “se a maneira como vivemos desperta a curiosidade de nos conhecerem, é justo que provem nosso modo de viver. Não temos grandes hotéis, pois não permitimos que estrangeiros comprem nossas terras. Esta é uma das formas de não sermos envolvidos por outras culturas”.

Nalunega, San Blas

Mas não foram essas ilhas paradisíacas que colocaram San Blas no mapa da arte mundial. Foram suas mulheres, ao conceber seu vestuário que espelha a devoção e respeito que cultivam pela Mãe-Terra, e que resultou num dos mais belos trajes tradicionais. Compõe-se de um pareô com desenhos geométricos e de uma blusa estampada onde, abaixo do seio, é costurado um sobretecido – o mola. Este é feito de diversas camadas de panos coloridos e recortados, e para conseguir mais textura, aplicam sutaches, sinhaninhas e entremeios. Seus desenhos labirínticos, cujas cores, formas e motivos são retirados da natureza, reproduzem peixes, aves, folhas, e criam mandalas que buscam reproduzir a harmonia com o mundo. Afinal, não é este o princípio da mandala?

Índias Kuna e a arte de suas vestes que espelham devoção e respeito pela Mãe-Terra

As kuna complementam a roupa com um lenço escarlate, anéis, brincos e as wini – pulseiras e caneleiras feitas de miçangas e vidrilhos. O ol-osu, uma argola de ouro símbolo do sol, é colocado entre as narinas para afastar os espíritos malignos. A beleza do nariz é realçada ainda mais por um traço negro delineado em todo seu perfil e, como último detalhe, um amplo lenço, geralmente em tons laranja ou fúcsia, para proteger do forte sol caribenho. As meninas “coroam” literalmente o traje com um periquito verde na cabeça.

Nas aldeias sempre se veem mulheres tecendo o mola em frente às suas casas, e ali mesmo os viajantes podem adquirir uma peça de qualidade por cerca de R$ 50. Essa atividade é a que oferece a melhor remuneração familiar, pois a pesca e a agricultura são apenas de subsistência.

Pescadores Kuna - atividade apenas para subsistência

As mulheres sabem da importância da preservação de suas tradições. E vão além ao criar um tecido diferenciado, que ajuda a projetar os kuna no cenário da arte mundial e mantém sua etnia viva economicamente.

Cidade do Panamá

Cidade do Panamá

Para quem escolhe San Blas como destino turístico, não custa nada dar uma paradinha no Panamá, aliás, quem fizer isso só tem a ganhar. Considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o centro histórico da Cidade do Panamá há mais de um século é endereço de galerias de arte e lojas que expõem o renomado artesanato regional. A dica é iniciar o passeio na Calle Primera, entrar em cada lojinha, comparar preços e variedades.

Plaza de la Cadetral

A que oferece amplo mostruário de produtos nos mais diferentes materiais fica no n° 844. Nela estão expostas peças esculpidas em taguá, conhecido como marfim vegetal, máscaras utilizadas em rituais e cestas da cultura indígena Emberá. Estas, de tão perfeitas, mais parecem cerâmica.

Nas ruas vizinhas, vale incluir uma visita às tiendas El Farol, La Ronda e Arte Quetzal. Na sequência, perto da Plaza de Francia, nas Bóvedas, sob um longo caramanchão com primaveras floridas, as índias da etnia Kuna expõem suas mola – tecido feito com tirinhas de pano colorido. No final desse prazeroso roteiro, além de encontrar os melhores produtos, o viajante terá aprendido muito sobre a rica arte popular panamenha.

Canal do Panamá

Os panamenhos consideram o Canal do Panamá a “Oitava Maravilha do Mundo”. Como obra de engenharia ele realmente impressiona. Ali os franceses entraram em cena primeiro. O sucesso comercial e financeiro da estrada de ferro construída no istmo do Panamá em 1853, unindo os dois oceanos, levou Ferdinand de Lesseps, construtor do Canal de Suez, a obter da Colômbia (nessa época o Panamá era território deste país), a autorização para construção de um canal marítimo com o mesmo objetivo.

O Canal do Panamá

A inauguração, em agosto de 1914

O projeto francês previa sua construção nos moldes do Canal de Suez, inaugurado em 1869, ou seja, uma grande escavação que uniria os oceanos no mesmo nível. Em 1882, a Cia. Francesa iniciou a obra que dez anos mais tarde renderia à França notáveis recordes de fracasso.
Os americanos compraram dos franceses os direitos para a construção do Canal em 1901 e iniciaram a obra dois anos mais tarde. Primeiro corrigiram a rota e, depois, prevendo a impossibilidade de transpor a Cordilheira Continental, optaram por alagar grandes áreas e utilizar um sistema de eclusas.

A travessia do cargueiro Anton, em agosto de 1914, após 10 anos de construção, inaugurou a passagem marítima entre Atlântico e Pacífico, não sem antes tirar a vida de mais de 6 mil trabalhadores. As características físicas dessa via interoceânica impressionam pelos números.
Desde 15 de agosto de 1914, mais de 760 mil embarcações cruzaram o Canal. O trajeto para percorrer seus 80 km e três eclusas demora em média nove horas. Estradas vicinais permitem observar todo o canal, os lagos artificiais e as gigantescas comportas das eclusas. Pela história e pela geologia, um dos pontos mais interessantes é o Corte Culebra, atual Corte Gaillard, na Cordilheira Continental. Essa parte tem 12 quilômetros de extensão em rocha sólida. A permanência dos americanos como administradores do Canal terminou em 31 de dezembro de 1999.

“O trajeto para percorrer seus 80 km e três eclusas demora em média nove horas

Agenda de viagem

Como chegar: A viagem para o arquipélago passa invariavelmente pela Cidade do Panamá. A Copa Airlines (tel. 11/3549-2672 ou 0800-771-2672 – www.copaair.com) mantém 35 voos semanais a partir do Brasil: três diários partindo de São Paulo (Guarulhos), um diário do Rio de Janeiro (Galeão), além de quatro frequências semanais de Belo Horizonte e três de Manaus. Os voos do Brasil ao Panamá duram em média sete horas. Da capital panamenha, a rota para San Blas é operada por companhias aéreas regionais e dura em média 30 minutos.

Da capital panamenha para San Blas, os voos duram em média apenas 30 minutos

Os voos são mais confortáveis e menos burocráticos. Os passageiros não passam pela alfândega nem pela imigração. Além disso, os passageiros podem fazer compras no duty free mais barato do mundo, situado no próprio Hub das Américas, no Aeroporto Internacional de Tocumen. As tarifas custam a partir de US$ 893. As rotas são operadas com modernos Boeing 737-700, com capacidade para 124 passageiros – 12 na classe executiva e 112 na econômica – e um sistema de entretenimento com 12 canais de áudio e vídeo.

Aeroporto Internacional de Tocumen

Quem leva: A Flot Operadora Turística oferece pacotes para a Cidade do Panamá a partir de US$ 1.375 por pessoa em apartamento duplo. A tarifa inclui passagens aéreas de ida e volta, cinco noites de hospedagem em hotel de categoria turística (Country Inn Dorado ou similar), café da manhã, traslados, city tour e visita ao Canal do Panamá, além de cartão de assistência (seguro viagem). O preço é válido de 1º de janeiro a 31 de março de 2011.
Onde ficar: Em San Blas, Hotel San Blas (507-629-0613/ 280-6528), na ilha Nalunega, um dos mais tradicionais do arquipélago, Kwadule Eco Resort (507-269-6313), na ilha Kwadule, com cabanas confortáveis construídas sobre palafitas.

Ilha Kwadule

Dicas: Na gastronomia, o prato típico dos kuna é o tulemasi: peixe cozido no leite de coco, acompanhado de arroz vermelho e mandioca. No artesanato local, as mola são produtos de excelente qualidade e bom preço. Importante: as kuna não gostam de ser fotografadas, mas por US$ 1, abrem exceção. As moedas oficiais do Panamá são o dólar americano e o balboa. O setor de Cartí é o mais atrativo para visitantes por abrigar diversas pequenas ilhas e corais. Visitar o museu local também é interessante para conhecer um pouco mais sobre a cultura Kuna e comprar o artesanato local.

San Blas: turismo o ano inteiro

Melhor época: as ilhas podem ser visitadas o ano todo, especialmente nos períodos de janeiro a julho e outubro a dezembro.