Sustentabilidade

Revista Mercado Edição 35

“Desde 21/8, estamos consumindo as reservas ecológicas da Terra”

POR Antonio Cianciullo*

Até o dia 21 de agosto passado, a humanidade já havia desperdiçado todo o capital que o planeta colocou à sua disposição no ano de 2010. Utilizamos toda a água que se recarrega espontaneamente nas camadas subterrâneas, as ervas que os campos produzem, os peixes do mar e dos lagos, as colheitas das terras férteis, os frutos dos bosques.
E, ao mesmo tempo, exaurimos o espaço útil para amontoar nossos detritos, começando pelo gás carbônico, que está desencadeando o caos climático. A partir do dia 22 de agosto, deveríamos ter declarado a falência ecológica da espécie humana.
Mas, visto que parar é impossível e as alternativas continuam na gaveta, resolveremos o problema repassando a conta para nossos netos: deslocaremos o problema para o futuro. Pegaremos a água que corre nos depósitos fósseis, aqueles que não se alimentam com as chuvas. Forçaremos o ciclo do pastoreio, sacrificando os campos no deserto. Esvaziaremos mares e rios das várias formas de vida, retirando mais do que a restituição geracional oferece. Continuaremos perdendo uma superfície florestal igual a 65 campos de futebol por minuto. E deixaremos que os gases poluentes invadam a atmosfera, prendendo o calor sobre a nossa cabeça e multiplicando as enchentes e os incêndios.
O alarme veio da Global Footprint Network, que há muitos anos calcula a pegada ecológica que corresponde aos vários estilos de vida. Se todos vivêssemos como os cidadãos dos Estados Unidos, precisaríamos de outros quatro planetas para satisfazer nossas exigências. Se vivêssemos como os ingleses, seriam necessários outros dois países e meio. Os italianos consomem um pouco menos, mas também precisaríamos de um suplemento igual a mais de um planeta e meio. Para chegar a uma média per capita (embora seja uma média temporária, dada a taxa de crescimento), devem-se tomar os chineses como ponto de referência. Os indianos, ao contrário, usam aquilo de que precisam e deixam os recursos de mais de meio planeta à disposição de outras espécies.

Tirando as somas globais, descobre-se que hoje já se consomem os recursos de um planeta e meio, e a taxa de voracidade continua aumentando. Por milhares de anos, os seres humanos satisfizeram suas necessidades utilizando só os juros do “capital natureza”. O limite crítico – o momento em que a demanda de serviços ecológicos superou a taxa com a qual a natureza os regenera – foi tocado no dia 31 de dezembro de 1986. Em 1987, a linha vermelha caiu no dia 19 de dezembro. Em 2008, ficamos na estaca zero no dia 23 de setembro, enquanto em 2009, o Earth Overshoot Day foi alcançado no dia 25 de setembro. Neste ano – também por força de um cálculo mais sistemático dos campos efetivamente disponíveis -, tivemos que começar a pedir empréstimos a nossos netos já a partir do dia 21 de agosto.
“Se uma pessoa gastasse o seu salário anual inteiro em oito meses, teria que estar muito preocupada”, comentou Mathis Wackernagel, presidente da Global Footprint Network. “A situação não é menos alarmante quando tudo isso ocorre com o nosso crédito ecológico: as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, a falta de alimentos e de água demonstram que não podemos continuar financiando os nossos consumos endividando-nos. A natureza está prestes a perder a confiança na nossa conta ambiental”.
Porém, como nota Roberto Brambilla, que trabalha no cálculo da pegada ecológica para a rede Lilliput, para começar a reduzir o nosso impacto no ambiente basta pouco: comer menos carne, preferindo a do circuito biológico, utilizar bicicleta ou metrô algumas vezes e usar fontes renováveis. A soma de milhares desses pequenos gestos faz a diferença entre os consumos de um norte-americano (que tem uma pegada ecológica de 9 hectares) e o de um alemão, que é de 4 hectares.

* O jornalista Antonio Cianciullo é editor do jornal italiano La Repubblica
Fonte: Envolverde/IHU On-Line / Tradução: Moisés Sbardelotto

Global Footprint Network

A WWF, em parceria com a Zoological Society of London e o Global Footprint Network, divulgaram agora em outubro um estudo preocupante. Os seres humanos estão consumindo 50% a mais de recursos naturais do que a Terra é capaz de fornecer. Como consequência, a biodiversidade do planeta diminuiu 30% nos últimos 40 anos.
As informações constam do Relatório Planeta Vivo 2010, que alerta: a fauna e flora tropicais são as mais ameaçadas e estão em queda livre. Desde 1970, o número dessas populações caiu 60%. As espécies tropicais de água doce diminuíram 70% – uma percentagem maior que qualquer espécie terrestre ou marinha.
A pegada ecológica aponta que a nossa pressão sobre os recursos naturais duplicou desde 1996 e que estamos utilizando o equivalente a 1,5 planeta para suportar as nossas atividades. Nas últimas cinco décadas, as emissões de carbono cresceram 11 vezes.
Os Emirados Árabes Unidos lideram a lista dos países com maior pegada ecológica por habitante, seguidos do Qatar, Dinamarca, Bélgica, EUA, Estônia, Canadá, Austrália, Kuwait e Irlanda. Já o Brasil possui a maior biocapacidade, seguido em ordem decrescente da China, Estados Unidos, Federação Russa, Índia, Canadá, Austrália, Indonésia, Argentina e França.
Os 31 países da Organização para a Cooperação Econômica Europeia, que incluem as economias mais ricas do mundo, representam quase 40% da pegada global. Mais grave é que esse número poderá piorar bastante nos próximos anos, se os BRIC seguirem um modelo de desenvolvimento semelhante ao dos países desenvolvidos, o que, segundo especialistas, deverá acontecer.

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