Revista Mercado Edição 38
Burnout: estresse no trabalho em alto grau
POR Alitéia Milagre (Serifa)
Estima-se que mais de 600 milhões de trabalhadores, ou 22% da força de trabalho mundial, passem mais de 48 horas semanais no trabalho
Jornalistas, publicitários, corretores da bolsa de valores, professores, executivos, motoristas de ônibus, controladores de voos, pilotos, profissionais da saúde, operadores de telemarketing, bancários, e acreditem, freiras e padres são apontados por especialistas como sendo profissões das mais estressantes. Esses profissionais estão entre aqueles mais propensos a desenvolver a chamada Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico caracterizado por estresse agudo relacionado ao trabalho. Ou seja, trabalhar por longos períodos sem descanso e recreação pode causar frustração e resultar em graves problemas de saúde. Vez por outra é comum encontrarmos pessoas explosivas ou desmotivadas ao extremo, com sintomas de esgotamento físico, mental e emocional.
Segundo o reumatologista Carmo de Freitas, a sobrecarga crônica de trabalho tem sido associada à obesidade, alcoolismo, doenças cardíacas, acidentes de trabalho, ansiedade, fadiga, depressão, entre outros problemas. “É o corpo reclamando, dando sinais de que é preciso avaliar até que ponto o trabalho é mais importante que a saúde. Esse conjunto de sintomas pode ser burnout”, afirma Carmo.

O reumatologista Carmo de Freitas, sobre a Síndrome de Burnout,: “O cotidiano, que antes era prazeroso, se torna uma carga insuportável, e a sensação de cansaço além do habitual, sem relação causa/efeito, se torna constante”
E não para por aí. Os sintomas incluem diminuição do rendimento, irritabilidade, intolerância, reclamações, indecisão, perda de controle, insônia, sono agitado, falta de concentração e memória. “O cotidiano, que antes era prazeroso, se torna uma carga insuportável, e a sensação de cansaço além do habitual, sem relação causa/efeito, se torna constante. A pessoa sofre alterações digestivas, queda da resistência orgânica e por isso tem maior predisposição a doenças banais, como gripe e herpes. Também está acometida por alterações de pressão arterial (alta ou baixa), dores de cabeça, vertigens, bruxismo, redução do desejo sexual, libido e impotência”, acrescenta o reumatologista.
Pesquisadores colocam o Brasil como o segundo país mais estressado do mundo. Só perdemos para o Japão. O estresse profissional afeta 69% da população brasileira.
Estima-se que mais de 600 milhões de trabalhadores, ou 22% da força de trabalho mundial, gastem mais de 48 horas semanais trabalhando. De acordo com as últimas pesquisas, 70% dos brasileiros apresentam algum grau de estresse, sendo que 30% desse total manifestam “Burnout”, o que as deixa incapacitadas para o trabalho.
Outro dado alarmante é do Ministério da Previdência. Segundo o órgão, mais de 90% dos auxílios-doença concedidos no ano passado referiam-se à categoria “Transtornos Mentais e Comportamentais” ligados ao estresse.
Para a mestre em administração de empresas, Vianei Guimarães, essas estatísticas preocupam as empresas que perdem muito em produtividade, sem considerar os prejuízos sociais que também refletem em seus resultados. Cálculos de institutos de pesquisa sérios e renomados atestam que esse cenário causa um prejuízo de aproximadamente 4,5% no PIB nacional. “Com o objetivo de reverter esse quadro, (as empresas) passaram a investir em programas que auxiliam os colaboradores a desenvolverem sua resiliência, ou seja, sua capacidade de lidar com esse novo cenário, comum a toda população, composto por metas de curto prazo, concorrência e pressão por resultados. As pessoas precisarão aprender a lidar com suas angústias, com seus medos, organizando melhor suas vidas”, diz Vianei, que também é diretora da Inthegra, empresa especializada em Talentos Humanos.
Terapia
Para ajudar os funcionários a lidar com as pressões diárias, muitas empresas adotaram algumas práticas internas de ginástica laboral, incentivos à prática de exercícios em casa ou em academias, programas específicos de relaxamento e estímulo a leituras que provocam pensamentos mais otimistas. “São alguns programas que as empresas disponibilizam como forma de auxiliar seus colaboradores a encontrarem o equilíbrio”, acrescenta Vianei.

Vianei Guimarães: “Investir em cursos de capacitação de líderes, gestão de processos e relacionamentos interpessoais, como forma de aprimoramento de competências comportamentais, ajuda a organizar melhor o trabalho, a focar no que realmente deve ser feito”
Vianei explica ainda que investir em cursos de capacitação de líderes, gestão de processos e relacionamentos interpessoais, como forma de aprimoramento de competências comportamentais, ajuda a organizar melhor o trabalho, a focar no que realmente deve ser feito. “Consequentemente, essas horas de estudo e aplicação de novos conhecimentos na administração de recursos e na gestão de pessoas trarão mais horas livres para que os profissionais possam dedicar à qualidade de vida”, informa.
Em se tratando de qualidade de vida, o Serviço Social da Indústria (Sesi) é uma referência em saúde e bem-estar de trabalhadores por causa da assistência dada às empresas associadas, incluindo os próprios colaboradores. Além das “famosas” paradas para a ginástica laboral em horários de expediente, os funcionários do Sesi e da FIEMG realizaram recentemente o Diagnóstico de Saúde e Estilo de Vida, em que foram medidas taxa de glicemia, a circunferência abdominal e feita aferição da pressão arterial dos colaboradores. “Nossa função foi conscientizá-los com relação às atividades e orientá-los a como proceder para atingir o peso ideal de acordo com o Índice de Massa Corporal, ou seja, relação peso e altura de cada um”, diz a técnica de Lazer da Vila Olímpica do Sesi de Uberlândia, Petuccia Fagundes Brunelli .
Para finalizar, o reumatologista Carmo Gonzaga afirma que o equilíbrio entre trabalho e diversão é o aconselhável para que a pessoa não chegue a um determinado grau de estresse que possa acabar em Burnout. “Todos nós precisamos trabalhar, porém deve existir um equilíbrio com relação às atividades diárias. É preciso ter tempo para o trabalho, repouso, atividade física e lazer. Também é primordial ter uma boa convivência dentro e fora de casa e evitar a rotina”, recomenda o médico.

















