Profissões em Filme

Revista Mercado Edição 35

Wall Street O Dinheiro Nunca Dorme

POR Kelson Venâncio

Neste mês decidi falar sobre um dos melhores filmes a que assisti este ano e que é uma ótima dica para quem trabalha ou gosta da área de economia. Mas a produção também serve para os que são simplesmente apaixonados pela sétima arte ou querem apenas curtir um bom filme. Eu me refiro à produção “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”, que é sem dúvida uma excelente continuação do primeiro Wall Street, feito há 23 anos com o título “Poder e Cobiça”. Para quem não assistiu ou não se lembra do original, a seguir destaco primeiro um resumo da produção da década de 1980, para depois falar do filme atual.

Wall Street

Poder e Cobiça (1987)

Capa da primeira produção, de 1987, com Charlie Sheen, Michael Douglas e Daryl Hannah

Nova York, 1985. Bud Fox (Charlie Sheen) é um jovem e ambicioso corretor que trabalha no mercado de ações. Após várias tentativas ele consegue falar com Gordon Gekko (Michael Douglas), um inescrupuloso bilionário. Durante a conversa, Bud sente que precisa dar alguma dica muito quente para ter a atenção de Gekko e então lhe fala o que seu pai, Carl Fox (Martin Sheen), um líder sindical, tinha lhe dito, que a Bluestar, a companhia aérea para a qual trabalha, tinha ganho um importante processo. Essa informação não tinha sido ainda divulgada oficialmente, mas quando isso acontecesse as ações teriam uma significativa alta. Gekko o adota como discípulo e logo Bud passa a trabalhar secretamente para ele, abandonando qualquer escrúpulo, ética e meios lícitos, pois só quer enriquecer. Ele obtém sucesso, o que faz seu padrão de vida mudar. Além disso, envolve-se com Darien Taylor (Daryl Hannah), uma decoradora em ascensão. Mas se os ganhos são bem maiores, os riscos também o são.

Wall Street

O Dinheiro Nunca Dorme (2010)

Na continuação dessa grande produção, o excelente diretor Oliver Stone mostra que apesar de o tempo passar, o que move o mundo ainda é o dinheiro e que as pessoas são o que este pode comprar. E é baseado nessa premissa que vemos logo na cena inicial Gordon Gekko ganhando a liberdade depois de cumprir oito anos de prisão por fraude, lavagem de dinheiro e extorsão. E é em poucos segundos que, nessa mesma cena, recebe alguns de seus pertences, entre eles um celular antigo que mais parece um tijolo. Isso mostra claramente que o mundo mudou enquanto ele estava na cadeia. Veio a globalização, mas tudo continua girando em torno do dinheiro.

Para quem assistiu ao primeiro filme, o segundo já é um pouco complicado, por abordar termos econômicos que soam incomuns para muita gente. Para quem não viu, pode ser mais difícil ainda. Mesmo assim, é possível entender a ideia central da trama. O roteiro é inteligente e prende a atenção do público.
Nessa nova história, surgem novos personagens, cada qual mais misterioso que o outro. Ninguém sabe ao certo o que cada um quer e qual rumo vai tomar na trama. Mas o mistério maior está centrado em Gordon Gekko (Michael Douglas), que é sem dúvida o grande destaque da produção. Ficamos o tempo todo pensando: “Será que ele se arrependeu dos crimes cometidos no passado? Será que quer realmente se aproximar da filha? O que tem por trás das iniciativas dele e de suas velhas influências?” Um mistério envolvente só revelado nos minutos finais.
E nessa história toda entram os laços de família, que no primeiro filme não existiam. Gekko tem uma filha que não fala com ele por culpá-lo da morte do irmão e do enlouquecimento da mãe. E para completar tem um genro que está dividido entre o amor e a ambição financeira, já que também é um “homem de Wall Street” e vive no mundo dos negócios. E a química entre Shia LaBeouf, interpretando esse jovem executivo, e Michael Douglas, seu sogro, é incontestável. Um show de interpretação, como aconteceu no passado entre Charlie Sheen e Douglas. No meio disso surge outra dúvida: o rapaz quer mesmo se casar com a filha de Gekko ou apenas usá-la para se aproximar dele e obter sucesso na carreira?
Na produção atual, dois acontecimentos se destacam no filme: a “bolha” da internet, que teve um crescimento enorme desde 2001 e, principalmente, a crise econômica nos Estados Unidos em 2007, que até hoje tem reflexos em várias partes do mundo. A produção mostra claramente o desespero dos grandes bancos e a intervenção do governo americano, que injetou 700 bilhões de dólares na economia para que a crise atual não gerasse consequências iguais às da crise de 1929. Mas o que o filme mostra claramente, e que muitas vezes não sabemos (pelo menos a fundo) na vida real, é que até mesmo em meio às grandes crises na economia, com certeza há sempre alguém ganhando muito dinheiro. É aquele velho ditado: “o sofrimento de muitos pode ser a alegria de alguns”.
Wall Street mostra de forma impecável a economia como se fosse um jogo, no qual cada um tem um interesse e ninguém está do lado de ninguém. Todos agem de forma individual, mas ao mesmo tempo são influenciados por quem tem mais poder. Basta aparecer alguém com mais dinheiro e influência e logo esta pessoa se torna a melhor carta do baralho. É assim que acontece na vida real, ou você tem dúvidas disso? Sobre isso, insisto: você é o que o seu dinheiro pode comprar!

Nota 9


Kelson Venâncio – jornalista e diretor do Cinema e Vídeo