Investimentos&etc.

Revista Mercado Edição 35

Santo de casa não faz milagre

POR Bruno Nunes de Paula *

No universo empresarial, frequentemente nos deparamos com histórias vencedoras de brasileiros que desistiram de suas profissões para iniciarem um novo negócio, entretanto a maioria dessas jornadas não possui um desfecho feliz.
Normalmente tudo começa com uma sociedade familiar e o primeiro obstáculo enfrentado por esses aventureiros é o levantamento dos recursos necessários para desenvolver as ideias. O segundo problema está na complexidade que envolve administrar uma empresa, pois diferentemente do que essas pessoas imaginam, a relação entre sócios pode ser bastante problemática e colocar a empresa em um eixo sustentável de crescimento, não é nada fácil. Por último, supondo que os sócios passem por todas essas dificuldades, até mesmo no momento de sucesso do novo empreendimento, manter uma boa relação com as pessoas que dividem o mesmo lucro, novamente, não é uma tarefa simples.
Diante desses obstáculos, dessas dificuldades, eu sempre faço a mesma pergunta para as pessoas interessadas em abrir uma nova empresa: é mais “interessante” ser sócio de uma mercearia com o seu cunhado ou ser sócio de uma grande empresa brasileira que já se consolidou no mercado?
A experiência nos mostra que quando um micro ou pequeno empresário consegue atingir uma parcela do mercado considerável, o retorno sobre o investimento tende a ser mais interessante do que um investimento em bolsa. Todavia, deve-se lembrar de que as chances de sucesso das empresas entrantes, principalmente aquelas que não apresentam nenhuma inovação, são cada vez menores e, por isso, o empreendedor geralmente deve abrir mão de sua antiga profissão para encarar essa jornada. Esse risco que o indivíduo corre em prol desse novo sonho pode custar muito caro caso o empreendimento não decole.
Do outro lado, temos a possibilidade de sermos sócios de grandes empresas sem abandonarmos a nossa atividade principal, independentemente de qual seja ela, sem ser necessário conhecimento prévio em gestão empresarial e finanças. Devido a essa facilidade, as pessoas optam por comprar ações de empresas sem analisar a atividade principal da companhia: isso é um grande problema!
Para quem trabalha no mercado de capitais, é evidente que a preferência nacional dos brasileiros são as ações da Petrobrás, da Vale do Rio Doce e de outros grandes grupos que geralmente são exportadores… Será que se esse investidor fosse abrir um negócio ele iria “criar” uma empresa focada no mercado externo? O que vemos é que grande parte das pessoas empreendedoras possuem o desejo de abrir um negócio voltado para o setor terciário, para o varejo, mas por algum motivo, talvez por tradição e comodismo, escolhem ser sócios de empresas voltadas para fora que trabalham com commodities. O problema de se comprar essas ações é que, dessa forma, caso a economia mundial cresça em um ritmo lento, a demanda pelos produtos dessas empresas e o preço das mercadorias vendidas tendem a impactar negativamente nos resultados das companhias. Isso é o que tem acontecido e afetado boa parte das queridinhas da bolsa (mineradoras, siderúrgicas e petrolíferas).
Se de um lado temos uma perspectiva negativa para o crescimento mundial, fato que pesa nessas empresas clássicas do nosso mercado, do outro vemos que o Brasil possui perspectivas de crescimento ambiciosas em 2010 e nos próximos anos. No mercado de ações esse movimento é visto por meio de uma valorização das empresas voltadas para o consumo interno, tais como, Lojas Americanas, Lojas Renner (veja gráfico), Lojas Marisa e Hering Store. Todas essas marcas são amplamente reconhecidas pela maioria dos brasileiros e fazem parte do dia a dia do consumo nacional, entretanto são poucos aqueles que abriram mão de firmas produtoras de commodities para participarem de alguma dessas empresas do varejo.

Fazendo uma simples observação internacional após a crise financeira que abalou diversos países desenvolvidos, fica evidente que a recuperação econômica está sendo muito mais lenta no restante do mundo do que no Brasil. Quando sai um dado estadunidense mostrando uma melhora no consumo americano, sai outro mostrando uma piora no setor imobiliário. Na Europa a situação não é diferente, pois quando o susto com os países europeus começava a amenizar, tivemos em seguida uma notícia negativa envolvendo o setor financeiro na Irlanda.
Enquanto isso, na parte “pobre” do mundo, a última projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro de 2010 ficou em 7,47% (segundo última pesquisa Focus do Bacen) e o indicador oficial de inflação mensurado pelo IBGE está projetado em 5,05% para o mesmo período (dentro do limite estabelecido pela autoridade monetária) – ora, nada mais óbvio do que focar em empresas que produzem para o mercado interno!
Pelo visto, esse movimento irracional do investidor (pessoa física) no Brasil corrobora o que diz o velho ditado: “Santo de casa não faz milagre”.

* Colaboração: Ápis Investimentos | Afiliada XP-Uberlândia
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