Revista Mercado Edição 40
Mercado Futuro
POR Renato Faria
A agropecuária é uma atividade produtiva que apresenta algumas características diferenciadas em relação ao setor industrial e comercial, como, por exemplo, o alto risco econômico devido à dependência dos fatores climáticos, ao elevado tempo em que algumas culturas e/ou criações permanecem no campo sem apresentar retorno esperado do investimento realizado, aos elevados custos de armazenamento, entre outros. Além disso, há de se considerar a volatibilidade e dúvidas a respeito dos preços que serão recebidos, o que faz da agropecuária, em certos momentos, um verdadeiro jogo de incertezas de elevado risco financeiro.
Os mercados futuros de commodities agropecuárias são uma forma de propiciar um certo “seguro” em meio a tanto risco, para o produtor rural e para a agroindústria, possibilitando uma “garantia” quanto à queda ou à elevação de preços. Os mercados futuros podem ser uma forma eficaz de eliminação de um dos principais riscos da atividade agropecuária, aquele decorrente da incerteza de preços em um tempo futuro, quando se dará então a comercialização da safra agrícola. Mas é necessário entender bem o que é o mercado futuro e quais os seus participantes.
Mercado futuro é um mercado que funciona na Bolsa e onde são transacionados contratos de produtos agropecuários como o café, a soja, o milho e o boi gordo, com um preço determinado para uma data futura. No Brasil, os contratos futuros são negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), localizada em São Paulo. No mercado futuro da BM&F são negociados contratos referentes a uma quantidade de produto agropecuário, de acordo com uma especificação de qualidade e classificação, não existindo a intenção de comercializar produtos físicos diretamente na Bolsa. Isto é, mercado futuro em Bolsa é um mercado de contratos, de intenções, onde na realidade são negociados “preços” futuros de uma dada mercadoria.
Nos mercados futuros de commodities agropecuárias existem uma série de agentes atuantes, como os compradores, os vendedores, os especuladores e os arbitradores.
Os vendedores geralmente são aqueles que têm o produto físico, como, por exemplo, os produtores rurais e as suas cooperativas. Eles procuram um “seguro” contra uma eventual baixa de preços em uma data pré-determinada no futuro (data da comercialização da safra agrícola) e são chamados de hedgers.
Esses hedgers entram no mercado vendendo contratos futuros referentes a uma quantidade de produtos agropecuários e mantêm uma posição de mercado chamada short (posição vendida).
Os compradores geralmente são aqueles que necessitam de um produto físico, como, por exemplo, os exportadores, as agroindústrias e as cooperativas agroprocessadoras. Quando eles também procuram um “seguro” contra uma eventual alta de preços em uma data pré-determinada no futuro (data de vencimento dos contratos de entrega e/ou exportação), também são chamados de hedgers.
Para efetuar uma operação no mercado futuro de commodities agropecuárias, tanto o vendedor (hedger com posição short) como o comprador (hedger com posição long) devem operacionalizar as suas intenções através de uma corretora que seja membro da BM&F. Essas corretoras são credenciadas a participar do pregão da Bolsa através de seus operadores de pregão, e além de executar as ordens de seus clientes acompanham também as suas contas e a sua posição junto à câmara de compensação (Clearing House).
Nesse mercado, ainda existe um agente de fundamental importância estratégica para a liquidez dos negócios, o chamado “especulador”. Essa palavra não deve ser entendida no sentido pejorativo, como “explorador” nas transações comerciais.
É o especulador quem entra e sai do mercado com rapidez maior que o hedger, está interessado em auferir ganhos com a compra ou venda de contratos, não se interessando diretamente pela mercadoria física.
É esse agente de mercado que “garante” a compra ou venda de um contrato, em um determinado momento, permitindo que o hedger possa entrar ou sair do mercado quando lhe convier e for melhor para a sua operação de “seguro” de preços, assumindo e transferindo os riscos do produtor rural para o mercado.
Os arbitradores são os participantes que buscam distorções de preços entre mercados e tiram proveito dessa diferença ou da expectativa futura dessa diferença. A estratégia dos arbitradores é comprar no mercado em que o preço está mais barato e vender no mercado em que está mais caro. Dessa forma eles lucram o diferencial.
O preço do contrato futuro e o preço do ativo à vista devem convergir à medida que o contrato futuro se aproxima do seu vencimento. Essa propriedade permite a utilização dos contratos futuros para operações de hedge via Bolsa. A liquidação por entrega física de produto, incluindo a base ou a liquidação financeira com base em indicadores de preços do mercado à vista no vencimento do contrato, garante a convergência dos preços. Base é a diferença de preço do mesmo produto entre a bolsa e o físico (ou entre praças diferentes). A base é obtida através de um estudo histórico de diferencial entre as praças, sendo esta variável de acordo com as condições de oferta e demanda no período.
No vencimento do contrato a posição do investidor será liquidada ou por entrega física ou por liquidação financeira. A liquidação financeira é realizada automaticamente no dia do vencimento, tomando como base para o último ajuste algum indicador de preço à vista ou média de vários dias segundo metodologia da Bolsa descrita no contrato. A liquidação física ocorre quando os clientes-vendedores que optarem pelo não encerramento de suas posições até o último dia de negociação deverão apresentar o aviso de entrega a BM&F. Os vendidos têm o direito de entregar fisicamente os produtos em locais pré-estabelecidos pela bolsa, mas não a obrigatoriedade. Ao vendedor é exigido que o produto esteja em local estabelecido pela bolsa, na qualidade (certificada) e quantidade estabelecidas em contrato divulgado pela Bolsa junto com os demais certificados exigidos. Se a entrega ocorrer em local diferente da praça estabelecida pela Bolsa, acarretará em desconto de frete (divulgado pela Bolsa em forma de tabela a cada aviso de entrega) no valor financeiro a ser pago pelo comprador.
* Colaboração: Ápis Investimentos | Afiliada XP-Uberlândia
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