Editorial

Revista Mercado Edição 40 - março 2011

Editorial

Energia Nuclear. Vale a pena?!

Após o terremoto no nordeste do Japão, ocorrido em 11 de março, que culminou num tsunami de consequências ainda mais trágicas e que, literalmente, varreu do mapa muitas cidades costeiras daquele lado do país, aproximadamente 9 mil pessoas perderam a vida – até o momento – e quase 13 mil estão desaparecidas. Passados terremoto e tsunami, o povo japonês agora convive com um novo drama que tem como nome Usina Nuclear de Fukushima. Por causa das ondas de até 14 metros que atingiram as instalações da usina, os mecanismos de resfriamento dos reatores deixaram de funcionar, o que ocasionou diversas explosões que resultaram em vazamento de material radioativo. Assim, além do governo japonês também autoridades internacionais se mostram preocupadas com as consequências dessa tragédia.
Diante disso, do terror que se prolonga e teima em não querer terminar, fica a pergunta: energia nuclear vale a pena? Não sou especialista no assunto, por isso, me restrinjo a comentar fatos, alguns em cima de informações obtidas ao longo de 16 anos como jornalista.
É certo que a energia nuclear é responsável por 16% da eletricidade consumida no mundo, mas também já foi responsável por alguns dos piores pesadelos da humanidade. A concretização de um deles, o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, colocou o mundo em choque em 1986. Esse desastre, que se tornaria o maior acidente nuclear da história, ocorreu durante um teste de rotina do reator número 4 da usina. Nem foi preciso um tsunami. Por um erro dos técnicos, o processo de reação nuclear em cadeia se descontrolou, aquecendo a água que deveria resfriar o reator. Seguiram-se uma explosão e um incêndio que durou dez dias, espalhando toneladas de material radioativo por uma área de 150 mil quilômetros quadrados.
O acidente em Chernobyl matou 31 pessoas instantaneamente, e provocou a evacuação de mais de 130 mil da região, em virtude da exposição à radiação. Depois do acidente surgiram vários casos de câncer, principalmente na glândula tireóide de crianças. A radiação foi 200 vezes maior do que a das bombas de Hiroshima e Nagasaki juntas. Ar, terra e água foram contaminados. Pelos números oficiais do então governo soviético, 15 mil pessoas morreram. Mas organizações não governamentais garantem que foram, pelo menos, 80 mil vítimas.
Enfim, que tragédia parecida não se repita no Japão.
Por outro lado – “o bom” -, as usinas nucleares são consideradas uma fonte de energia limpa por emitirem pouco carbono e, por isso, não contribuírem para o aquecimento global. Além disso, a energia nuclear é fonte importante de desenvolvimento tecnológico. Impacta na indústria, na medicina, na agricultura.
No caso do Brasil, o país não é dependente da energia nuclear como o Japão, onde 25% da energia elétrica vêm dessa fonte, mas possui duas usinas – Angra 1 e Angra 2. E uma terceira, Angra 3, está em construção e deve ficar pronta em 2015. Aqui, a geração nuclear responde por não mais que 3% do consumo de energia elétrica.
Porém, para muitos o Brasil não necessitaria no momento desse tipo de energia. É o caso do professor Ildo Sauer, do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o país tem recursos suficientes para atender suas necessidades energéticas até 2030 ou 2040 sem fazer uso na energia nuclear. Ele acrescenta que se o Brasil desenvolver pelo menos 70% do seu potencial hidrelétrico e 50% do eólico, não precisará de termelétricas convencionais nem de térmicas nucleares.
Em que pesem as divergências, o debate sobre a energia atômica é tão antigo quanto sua utilização. Em 1971, reportagem de VEJA relatava discussão sobre o tema nos Estados Unidos, país que recebeu sua primeira usina nuclear em 1957. As usinas nucleares chegaram ao Brasil na década de 70. A usina de Angra 1 foi comprada praticamente pronta, em 1969, da americana Westinghouse. O objetivo era iniciar o fornecimento comercial de energia elétrica em 1977, com um custo total de construção de 300 milhões de dólares. Porém, Angra 1 só entrou em funcionamento seis anos mais tarde, após ter consumido 1,8 bilhão de dólares. Em 2000, foi inaugurada Angra 2, que levou mais de 20 anos para ser construída. Já a construção da usina nuclear Angra 3 sofre, há mais de trinta anos, de paralisia crônica. O Brasil perdeu muito dinheiro em Angra dos Reis. Com o capital gasto no projeto nuclear até aqui, seria possível construir cinco usinas nucleares, não apenas três.
Portanto, a história recente do país evidencia o grau de amadorismo e fragilidade com que o Brasil trata um assunto tão delicado. Em 2004, uma fábrica de urânio em Resende, interior do Rio, vazou, atingiu quatro operadores, e tudo ficou na surdina. Mas o pior acidente nuclear em território brasileiro ocorreu em 1987, em Goiânia. Uma unidade de radioterapia abandonada nas ruínas do Instituto de Radioterapia, contendo uma cápsula de Césio, um poderoso elemento radioativo, foi destruída por catadores de papel. Quatro pessoas morreram vítimas da contaminação. As autoridades brasileiras tentaram encobrir por todos os meios suas responsabilidades pela tragédia.
Agora, pelo que se percebe na reação da comunidade internacional em relação à crise nuclear japonesa, acidentes em usinas fazem muitas nações repensarem o uso de energia atômica. Em anos seguintes à tragédia de Chernobyl, a maior parte dos países desistiu ou abandonou seus projetos nucleares, principalmente em razão dos custos cada vez mais altos de construção ou da pressão dos ecologistas. Os Estados Unidos já havia interrompido a construção de novos reatores desde 1979, quando ocorreu um superaquecimento do reator de Three Mile Island.
Só que, agora, essa tragédia japonesa acontece justo num momento de retomada dos investimentos em energia nuclear, de novo vista como esperança de energia limpa e barata. O seu renascimento é explicado por uma conjunção de fatores. O primeiro é econômico. A disparada do preço do petróleo e do gás natural, que juntos respondem por 25% da eletricidade produzida no planeta, torna cada vez mais cara a energia obtida desses combustíveis fósseis. O segundo fator que impulsiona o renascimento da energia nuclear é o combate ao aquecimento global, uma causa que mobiliza governos e opinião pública.
A rigor, entre tantas opiniões e acontecimentos, talvez o principal problema das usinas nucleares seja qual destino dar ao lixo atômico que produzem. Até hoje não existe uma solução prática para os rejeitos radioativos que não seja o armazenamento, o que deixa boa parte da opinião pública desconfiada com a nova escalada na construção de reatores. E assim, até que se descubra uma forma mais eficiente de descartar esse material ou reutilizá-lo, novamente o futuro dos investimentos em energia nuclear volta a ser uma incerteza.
Diante dos acontecimentos e fatos, fica o veredicto a cargo do leitor: energia nuclear vale a pena?

Evaldo Pighini
Editor