Editorial

Revista Mercado Edição 38 - janeiro 2011

Editorial

POR Evaldo Pighini

Falta vontade, eis a questão

Os últimos acontecimentos causados pelas chuvas em algumas regiões brasileiras, principalmente na região serrana do Rio de Janeiro, foram a repetição de “tragédias anunciadas”.  Só para citar algumas, no próprio estado do Rio de Janeiro, por exemplo, o ano passado foi marcado por grandes tragédias provocadas pelas chuvas: na madrugada do 1º de janeiro, logo após as festas de réveillon, a pousada Sankay e mais sete casas próximas foram soterradas na Praia do Bananal, em Angra dos Reis. Na mesma noite, outras 20 casas também foram atingidas no Morro da Carioca. O saldo da noite foi de 53 mortos. Depois, no dia 7 de abril, o acúmulo de água provocou um grande deslizamento de terra no Morro do Bumba, em Niterói, e em toda região metropolitana da capital. Por causa disso, dezenas de casas que haviam sido construídas em cima de um antigo lixão – no Morro do Bumba – foram soterradas, o que ocasionou 47 vítimas e deixou centenas de desabrigados.  No total, 150 mortos foram contabilizados no Rio e em municípios vizinhos.  O mesmo Morro do Bumba, onde a maioria das casas está em área de risco, fora antes, em 17 de dezembro de 1961, cenário de um incêndio que causou a morte de 500 pessoas (70% delas crianças).
Saindo do Rio de Janeiro, em 2008, o estado de Santa Catarina foi vítima da força das águas. A tragédia começou a se desenhar em 22 de novembro e, ao final, 137 pessoas perderam a vida, mais de 60 cidades foram atingidas e cerca de 1,5 milhão de pessoas foram afetadas, terminando com 25 comunidades riscadas do mapa.
Da mesma forma, em São Paulo, entra ano e sai ano, notícias de alagamentos, mortes e desabrigados pelas chuvas encabeçam as principais manchetes nos jornais. E isso não é de hoje. Em 1967, o estado viveu uma das maiores tragédias naturais da história do Brasil, quando fortes chuvas provocaram grandes deslizamentos na Serra de Caraguatatuba, no litoral norte paulista, que mataram 436 pessoas e soterraram centenas de casas. Cerca de 30% da população ficou desabrigada  e muitos desaparecidos nunca foram encontrados.
É certo que tragédias naturais ocorrem em todo o mundo. A natureza é indomável, mas também não pode ser condenada. Chuva, incêndio, independente do fato causador da tragédia, o que se percebe é que a maioria dos desastres acontece por falta de planejamento urbano e de negligência de autoridades.
Depois do que aconteceu em Angra dos Reis, em 2010, mais recentemente, é impossível aceitar que nenhuma autoridade pública tenha tomado qualquer providência para que a tragédia não se repetisse, infelizmente, como agora na região serrana do Rio, onde o número de mortos ultrapassa com folga a 800 pessoas.  Novamente, o brasileiro é forçado a assistir, inerte, uma tragédia repetida sem que qualquer providência de alerta ou prevenção tivesse sido tomada.
Não há como negar a parcela de culpa de certas pessoas que invadem e constroem casas em áreas de risco, como margens de córregos e rios e em encostas de morros, só que para isso contam com a conivência das autoridades. Mas na maioria dos casos falta é mesmo um tal Planejamento Urbano, até porque investimentos em infraestrutura não rendem votos – obras de infraestrutura normalmente ficam escondidas abaixo do solo – e, portanto, não são tão atrativas assim para os nossos políticos.
Mas é melhor ser chato e cobrar das autoridades mais seriedade e comprometimento quando o assunto envolve questões de Planejamento Urbano. Nesse sentido, tirar moradores das áreas de risco é apenas o primeiro passo para evitar a tragédia das enchentes e, depois, é preciso adotar medidas preventivas.
Basta lembrar que na Austrália milhares de vidas foram salvas em Brisbane, uma das maiores cidades do país, graças a um plano de emergência eficiente. Nos mesmos dias, enquanto aqui no Brasil, na região serrana do Rio, os mortos eram contados às centenas, a cidade australiana viveu a maior chuva dos últimos cem anos de sua história. Mas lá, o desastre não matou mais que 20 pessoas. Um dos motivos foi um plano eficaz de emergência.
Isso não existe no Brasil. E olha que em alguns estados, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina as tempestades ocorrem quase todos os anos e quase sempre entre dezembro e março.
Assim, se os nossos governantes dedicassem mais tempo e investimento ao planejamento urbano muitas das tragédias que aqui ocorrem poderiam ser evitadas.
Ah! Quem puder que tire um tempinho e acesse o site do Ministério das Cidades do governo federal. Lá, entre os objetivos desse ministério, está escrito: “combater as desigualdades sociais, transformando as cidades em espaços mais humanizados, ampliando o acesso da população à moradia, ao saneamento e ao transporte. Tratar da política de desenvolvimento urbano e das políticas setoriais de habitação, saneamento ambiental, transporte urbano e trânsito. Assegurar o direito à cidade – garantindo que cada moradia receba água tratada, coleta de esgoto e de lixo, que cada habitação tenha em seus arredores escolas, comércio, praças e acesso ao transporte público”.

Pena que tudo é pura enganação!

Evaldo Pighini
Editor