Editorial

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Editorial

POR Evaldo Pighini

Cadê os “caras-pintadas”?

Por onde andam os “caras-pintadas”, aqueles que, em 1992, saíram às ruas para gritar pelo impeachment do presidente Collor? Por onde andam vozes como a de Chico Buarque, que um dia cantou: – Pai, afasta de mim esse cálice… (em que fez um trocadilho com “Cale-se”), erguendo a voz contra as injustiças da ditadura? A meu ver os caras-pintadas envelheceram e o Chico… Ah! O Chico…
Quanto aos “caras-pintadas”, para algumas pessoas aquela turma foi apenas uma pequena parcela da população adolescente, usada como “massa-de-manobra” para um golpe que tirou Collor do poder. Mas, se assim foi, cadê os manipuladores que estavam por detrás daqueles jovens estudantes?
Acredito que aqueles jovens envelheceram e os novos, os de hoje, parecem não dar a mínima para o que acontece no país. E quanto aos tais manipuladores, podem até estar por aí usufruindo daquilo contra o quê brigavam.
Incrível ostracismo, pois motivos para gritar e brigar são o que não faltam.
Só para citar alguns, além de dinheiro em cueca e mensalões, de uns poucos anos para cá houve denúncias de corrupção na Prefeitura de Santo André (administrada por Celso Daniel, morto em 2002 por motivos não esclarecidos), o caso dos bingos (2004) e dos Correios (2005), o esquema do Plano Safra Legal, o do Banco do Brasil, a suposta doação de dólares de Cuba para a campanha de Lula, o escândalo dos fundos de pensão e a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, que levou à renúncia do então ministro da Fazenda, Antônio Palocci (PT-SP), e etc..
E a oposição, que tentou enfraquecer os aliados do atual governo, acabou acusada de receber caixa 2, (recursos não declarados aos órgãos de fiscalização), o que representa crime de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Como exemplo, temos o senador mineiro Eduardo Azeredo, do PSDB, que é acusado de receber dinheiro de Marcos Valério e acusa seu coordenador de campanha, Marcos Mourão, de ser o responsável por tal recebimento.
Há ainda vários políticos com pedidos de cassação, mas apenas José Dirceu e Roberto Jefferson perderam seus mandatos e ficaram inelegíveis por 10 anos.
Se tudo isso não são ou não foram motivos para brigar e gritar, que se relembre um estudo feito em 2007 pela Organização Transparência Brasil, provando serem os parlamentares brasileiros os mais caros do mundo. O resultado foi de causar espanto se comparado a alguns países mais ricos que o Brasil. Segundo aquele estudo, considerando-se salários e outros estipêndios (como verbas “indenizatórias”, dinheiro para viagens e outros), um senador brasileiro, por exemplo, custa em termos reais mais de três vezes o que custa um senador chileno para o contribuinte daquele país e 8,4 vezes o que pesa um senador francês no bolso do cidadão ao qual serve. Por sua vez, cada deputado brasileiro custa para o cidadão duas vezes mais do que seu correspondente norte-americano, 5,5 vezes mais do que um alemão, seis vezes mais que um francês e 6,5 vezes mais do que um britânico. Pior ainda é que tais custos se repetem em cascata pelas assembleias legislativas país afora.
Mas, agora, ainda não satisfeitos, em dezembro os nossos congressistas brasileiros aprovaram um escabroso aumento de 61,8% para os próprios salários e mais para os do presidente e dos ministros de Estado, o que gerou um efeito cascata de crescimento com similar magnitude por todos os estados do país, consolidando os vencimentos dos políticos brasileiros no topo dos maiores do mundo. Portanto, cada congressista brasileiro receberá, ao ano, US$ 204 mil. Segundo levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo, esse valor é mais alto que o recebido pelos parlamentares da União Europeia e de mais 16 países pesquisados pela Folha, incluindo os do G8 (EUA, Japão, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá e Rússia). O estudo revela ainda que a desigualdade entre a renda de deputados e senadores e a da média da população brasileira é de quase vinte vezes, uma das maiores do mundo. Os salários anuais dos parlamentares na Itália e Japão são de cerca de US$ 185 mil. Mas na Itália os congressistas ganham 5,5 vezes mais que a renda per capita. No Japão a diferença é de 4,4.
Nota: O resultado recente do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) mostrou o Brasil na 54ª posição entre 63 países pesquisados, sendo que apenas nove apresentaram índice de aprendizado inferior. Na saúde, a menina Stephanie Teixeira recebeu vaselina em lugar de soro em hospital particular, localizado na maior e mais rica cidade do país. Ainda naquela mesma cidade, o menino Luiz Otávio chegou a um hospital público municipal para operar de fimose e saiu de lá com três diferentes cirurgias, menos a que deveria ter sido feita. Retiraram dele até as amígdalas. Quanto à segurança pública, nem é preciso falar, ou é?
E o que fazem os políticos? Aqueles que são os mais caros do mundo?
Ah! Ia até me esquecendo do Chico – o Buarque. Agora a irmã dele virou ministra da Dilma e ele já não canta mais a sua revolta contra as injustiças que aí estão. Ele mesmo, o próprio Chico, há muito virou figurinha carimbada nos palanques do Lula e de outros políticos mais, muitos dos quais acabam de votar esse absurdo aumento de mais de 60% nos próprios salários.

Depois disso tudo, ainda tento encontrar ânimo para desejar a todos os leitores da MERCADO Boas Festas de fim de ano.

Evaldo Pighini
Editor