Editorial

Revista Mercado Edição 47 - novembro 2011

Editorial

Herança de Lula

Em nossa primeira edição de 2011 – a de janeiro – publicamos matéria falando da herança que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava deixando nas mãos de sua sucessora na presidência do Brasil, Dilma Rousseff: uma dívida salgada de R$ 137,5 bilhões (estoque de restos a pagar, ou seja, compromissos assumidos em anos anteriores rolados para os exercícios seguintes). Até então, nunca antes na história deste país fora deixada para o ano seguinte uma conta tão grande.
Mas, ao que parece, o legado de Lula é bem pior do que se imagina. O ex-presidente deixou também um ministério inchado, caro e, o pior, considerando as circunstâncias atuais, caracterizado pela corrupção.
Ao sair da presidência, Lula, que havia recebido a máquina com apenas 26 ministros, deixou-a com o número de 37, sendo que Dilma criou o 38º – o da Secretaria de Aviação Civil. E para que tantos ministérios se, por exemplo, a China funciona muito bem com 27 e os Estados Unidos com apenas 15 secretarias de Estado?
É uma máquina muito cara para os contribuintes brasileiros sustentarem. Segundo dados da organização não governamental Contas Abertas, com 38 ministérios e a incorporação de 221 mil servidores, as despesas da União com salários subiram 172% desde 2002. Só em Brasília, no Executivo, entraram mais de 20 mil funcionários. Para acomodar tanta gente, a Esplanada dos Ministérios já não é suficiente. Os gastos com aluguéis de prédios chegaram a R$ 652 milhões, um acréscimo de 136,8% em cinco anos. Em nove anos, surgiram 12 novos cargos de ministros e foram incorporados 221 mil servidores em todo o país. Gastos da União com pessoal e com aluguéis de prédios mais que dobraram no período.
Entretanto, não bastasse tanta despesa, a presidente Dilma tem sido obrigada também a administrar a corrupção em seu ministério. Até agora, em menos de um ano de mandato, seis ministros já caíram e Carlos Lupi, ministro de Trabalho, não deve demorar nem mais uma semana no cargo.  E quando cair, Lupi será o sétimo ministro a deixar o governo petista – o sexto envolvido em denúncias de irregularidades.
Nos demais casos, o primeiro a cair foi Antônio Palocci (PT), ex-chefe da Casa Civil, que se afastou em junho por suspeitas de enriquecimento ilícito. Na sequência, vieram Alfredo Nascimento (PR), ex-ministro dos Transportes, que pediu demissão por suspeitas de irregularidades na pasta, em julho; Wagner Rossi (PMDB), titular da Agricultura, afastado sob suspeitas de corrupção no ministério, em agosto; Pedro Novais (PMDB), que deixou o ministério do Turismo em setembro acusado de usar verbas públicas em benefício pessoal; e Orlando Silva (PC do B), que se afastou do ministério do Esporte em outubro, sob suspeita de irregularidades em contratos com ONGs. De todos os que saíram, apenas Nelson Jobim (PMDB), ex-ministro da Defesa, não teve o seu nome envolvido em denúncias. Ele foi afastado pela presidente após criticar colegas do ministério, em agosto.
Mas, por tudo o que vem acontecendo, dificilmente a queda de ministros envolvidos em denúncias de irregularidades irá parar em Lupi, que volto a insistir, não permanece por muito tempo.
O grande problema é que, com o seu jeitinho de administrar custe o que custar, o ex-presidente Lula, em troca de apoio no Congresso, entregou os ministérios para serem saqueados pelos partidos aliados, o que vem provocando constantes crises no governo da presidente Dilma Rousseff.
Se ela, Dilma, é bem intencionada, é o que veremos em janeiro, quando ocorrerá a reforma ministerial. Será, então, a oportunidade de acontecer a tão sonhada “faxina” no governo, que todo mundo espera, a começar pelo ministério.
Não podemos esquecer que tem uma crise internacional rondando a nossa porta e a impressão que se tem é a de que somente o ministro da Fazenda, Guido Mantega, demonstra estar preocupado com a crise, enquanto o conjunto do governo a ignora.

Evaldo Pighini
Editor