Editorial

Revista Mercado Edição 45 - setembro 2011

Editorial

Pessimismo e pé no freio

O diretor e chefe global de investimentos estratégicos do banco norte-americano Morgan Stanley Smith Barney, David Darst, afirmou que a crise europeia poderá fazer de 2012 um ano ainda pior que 2011, quando problemas dos países endividados na Europa e da economia norte-americana espalharam preocupações por todo o mundo. Em sua opinião, Europa e EUA precisam de reformas para superar a crise, e a economia mundial pode até melhorar, mas vai piorar muito antes.
Darst não é o único a ter previsões pessimistas sobre a atual conjuntura mundial. Outras autoridades econômicas também comungam da mesma opinião.
Nos EUA, o Economic Cycle Research Institute (ECRI), de Nova York, também garantiu que o país está bem perto de outra recessão, se é que ela já não começou. O ECRI é um instituto independente de pesquisa de ciclos econômicos que mede semanalmente o ciclo de negócios por meio do Weekly Leading Index (WLI). O diretor-gerente do ECRI, Lakshman Achuthan, analisa que recessão é um processo em que as vendas decepcionam, a produção cai, o nível de emprego cai, a renda cai e então as vendas caem. Então, se assim for, esse é um ciclo vicioso que já começou para os norte-americanos.
Assim, por tudo que está acontecendo e pelas notícias que chegam por aqui no Brasil, fica fácil perceber que o endividamento de países como Grécia, Itália, Portugal, Irlanda e Espanha é apenas o começo de uma crise que já começa, inclusive, a preocupar grandes potências, como França, Inglaterra e Alemanha. O comentarista econômico Ricardo Amorim chegou a afirmar que a “Europa é uma grande candidata a um calote generalizado”. E, para piorar ainda mais a situação, o Fundo Monetário Internacional (FMI) admitiu que pode não ter dinheiro suficiente para fornecer pacotes de resgate financeiros para grandes economias da zona do euro, caso a crise internacional se agrave mais.
Por outro lado, apesar da aparente e apregoada solidez da economia brasileira, a crise internacional começa provocar turbulências por aqui. O Banco Central já reduziu a previsão de crescimento da nossa economia neste ano de 4,0% para 3,5%. À exceção do setor agropecuário, que deverá crescer 2,1% – mas apenas 0,2 ponto percentual acima da estimativa anterior -, nos demais setores, a expansão industrial teve recuo de 1,9 ponto para 2,3%. A produção do setor de serviços deve aumentar 3,5%, ante 3,8% na projeção anterior. Por outro lado, em relação à demanda, a nova projeção considera crescimento maior no consumo das famílias (de 4,1% para 4,5%) e do governo (de 1,9% para 2,1%). Além disso, a estimativa para os investimentos foi reduzida de 6,4%, para 5,6%. O BC também aumentou a previsão de inflação neste ano de 5,8% para 6,4% e avalia que há 45% de chance de que os preços fiquem acima do limite da meta fixada pelo governo.
Enfim, a economia mundial mal se levantou da queda em 2008 e já começa a cambalear. E, conforme a opinião de certos analistas, as duas crises certamente não são isoladas. A crise global do momento é uma continuação – até mesmo um “efeito colateral” – da crise de 2008. A grande diferença entre ambas é que na crise anterior o centro eram os bancos americanos e europeus, ou seja, o setor privado. Desta vez, no entanto, o fantasma ronda os governos que, há três anos, correram para socorrer os bancos, só que acabaram “comprando” o problema para si, como admite o próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Assim sendo, o melhor conselho é precaução. É hora de botar o pé no freio com relação a gastos. Nada de endividamentos desnecessários. Ou será que alguém ainda dúvida de que, se a crise internacional se agravar, e o Brasil for afetado, vai acabar sobrando para todo mundo, principalmente para nós, os contribuintes.

Evaldo Pighini
Editor