Editorial

Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

Editorial

A plebe e a realeza

Não tem como negar o desenvolvimento econômico e os avanços na área social do Brasil nos últimos anos, principalmente com a estabilização da moeda a partir da implantação do Real. Mas, embora as conquistas tenham sido substanciais, ainda persistem muitos problemas no país que afetam a vida dos brasileiros.
Entretanto, neste comentário, prefiro deixar de lado questões econômicas e me restringir às de cunho social, aquelas que afetam principalmente a “plebe” brasileira.
A começar pelo grande número de desempregados. No Brasil, embora a geração de empregos tenha aumentado nos últimos anos, ainda existem milhões de pessoas desempregadas. A economia tem crescido, mas não o suficiente para gerar os empregos necessários. Já com relação às vagas abertas no mercado, o seu preenchimento esbarra na falta de uma boa formação educacional e em uma qualificação profissional de qualidade – aliás, esse é um problema abordado pela MERCADO nesta edição. E, no mundo dos desempregados, muitos têm optado pelo emprego informal (sem carteira registrada), fator que não é positivo, pois esses trabalhadores ficam sem a garantia dos direitos trabalhistas.
Outra questão tem a ver com o assustador aumento nos índices de violência e criminalidade, principalmente nas grandes cidades brasileiras. Os crimes estão cada vez mais presentes no cotidiano das pessoas. Nos jornais, rádios e tvs, presenciamos cenas de assaltos, crimes e agressões físicas. Nem as escolas estão livres, vide o caso do massacre na escola de Realengo, no Rio. A meu ver, a falta de um rigor maior no cumprimento das leis, aliada às injustiças sociais podem, em parte, explicar a intensificação desses problemas em nosso país.
Com relação à saúde, basta observar que o “povão” brasileiro vive às portas da UTI, à exceção de uma minoria e daqueles outros, os de colarinho branco. Atualmente, as pessoas em melhores condições financeiras estão procurando os planos de saúde e o sistema privado, pois a saúde pública encontra-se em estado de crise aguda. Superlotação, falta de médicos e medicamentos, greves de funcionários, aparelhos quebrados, filas para atendimento, prédios mal conservados são os principais problemas encontrados em hospitais e postos de saúde da rede pública. E a população mais afetada é aquela que depende desse atendimento médico, ou seja, as pessoas mais pobres.
E a educação? Ora, na educação os dados sobre o desempenho dos alunos, principalmente da rede pública de ensino, são alarmantes. A educação pública brasileira está de castigo, atolada em vários problemas e dificuldades: prédios mal conservados, poucos recursos didáticos, falta de professores, baixos salários, greves, violência e drogas nas escolas, entre outros. Tudo consequência do baixo índice de investimentos públicos no setor. E o resultado é a deficiente formação dos alunos brasileiros.
A falta de moradias é outro grande problema. Existe um contraste entre o que anuncia o governo com o Minha Casa Minha Vida e os milhões de famílias que não possuem condições habitacionais adequadas. Nas grandes e médias cidades é muito comum a presença de favelas e cortiços. Encontramos também pessoas morando nas ruas, embaixo de viadutos e pontes, locais em que as pessoas vivem em condições sub-humanas.
E como não falar das desigualdades sociais? As circunstâncias deixam evidente que o Brasil é um país de grande contraste social. A distribuição de renda é desigual, sendo que uma pequena parcela da sociedade é muito rica, enquanto a maioria da população vive na pobreza e miséria. Embora a distribuição de renda tenha melhorado nos últimos anos, em função dos programas sociais, ainda vivemos num país de injustiças.
Diante de tudo isso, quando grande parte dos brasileiros ainda convive com tantos problemas que deveriam ser mais escancarados pela mídia, a realeza britânica ganha destaque e mais destaque nos principais canais de TV e rádios e em páginas de jornais e revistas do país, por causa do casamento de um tal príncipe William com uma tal Kate. Enquanto isso, muitos joões e marias gritam para serem ouvidos aqui no Brasil.
Mas quem se importa, ou melhor, quem quer saber?
É a diferença entre a plebe e a realeza.

Evaldo Pighini
Editor