Conversa de mercado

Revista Mercado Edição 39 - fevereiro 2011

Conversa de mercado

POR Thiago Soares Fonseca

Caro leitor,

Na condição de produtor rural, quero chamar a sua atenção para o atual momento que vive o setor agropecuário nacional, que está cercado de extrema expectativa que deve ser também compartilhada com toda a população brasileira e até mundial. É que nas próximas semanas será colocado em votação o novo Código Florestal, e da sua aprovação dependerá o futuro de todos nós. O documento que vai ao Congresso Nacional teve como relator o deputado federal Aldo Rebelo (PC do B) que, apesar de combatido e criticado, até mesmo por seus aliados políticos, se manteve firme na proposta de conciliar os mecanismos da política de preservação, sem eliminar a capacidade produtiva da agropecuária brasileira.
A meu ver, o atual Código Florestal é arcaico e penaliza de forma absurda o setor produtivo. Hoje o homem do campo vive uma situação de insegurança e terror, pois na condição de refém dos órgãos fiscalizadores está sujeito a pesadas multas e até mesmo correndo risco de perder sua propriedade a qualquer momento, por não conseguir cumprir as exigências da Lei.
Nós, que fazemos parte do segmento agropecuário, somos vistos por muitos como criminosos e destruidores do meio ambiente. Esta é uma visão equivocada e maldosa, implantada na sociedade por organizações não governamentais, bancadas financeiramente com dólar ou com euro, com o propósito principal de travar o desenvolvimento da nossa agropecuária.
O produtor rural brasileiro é, na verdade, o maior defensor das causas ambientais. Se agíssemos diferente, estaríamos dando um tiro no nosso próprio pé. Nós preservamos nascentes e mananciais hídricos, pois dependemos da água para a nossa atividade. Conservamos o solo e combatemos erosões e assoreamento, pois da terra sai o fruto do nosso trabalho. Adotamos práticas de produção modernas e investimos em tecnologia que contribuem com a redução de emissões, como nos casos do plantio direto e da integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta. Nós não somos criminosos. Somos mais preservacionistas que a grande maioria que nos acusa.
Isso ocorre porque o setor produtivo rural brasileiro incomoda muito, principalmente àqueles países cujos governos subsidiam a produção. Enquanto lá o Estado paga para que o produtor exerça sua atividade, aqui nós quebramos recordes de produtividade ano após ano, sem que sequer tenhamos uma política agrícola de preços mínimos que garanta ao menos cobrir os nossos custos de produção.
Estes países, que bancam financeiramente a produção agropecuária em seus territórios, chegaram à conclusão que fica mais barato minar a competição externa do que aumentar o subsídio oferecido aos seus produtores. Desde então, começaram a investir parte dos seus dólares e euros nas ONGs que atuam no Brasil.
Para se ter uma ideia mais clara desta situação, basta recordar o estudo “Fazendas aqui, florestas lá”, lançado nos Estados Unidos com o patrocínio da National Farmers Union (União Nacional de Fazendeiros) que é o principal sindicato rural norte-americano, apoiado pela Avoided Deforestation Partners (Parceiros pelo Desmatamento Evitado). O objetivo do estudo foi sensibilizar o Senado a aprovar uma lei de mudanças climáticas que prevê que os grandes poluidores dos Estados Unidos compensem suas emissões de gases do efeito estufa financiando projetos florestais em países tropicais como o Brasil. Isso porque os americanos possuem hoje praticamente 100% da sua área produtiva ocupada com atividades agropecuárias.
A aprovação desse projeto nos EUA, além de manter intocadas as áreas agricultáveis de lá, ainda reduziria a competição de países como o Brasil, que está na disputa direta com os americanos pelos mercados de commodities. Ou seja, nós seriamos obrigados a reflorestar parte das nossas áreas onde produzimos hoje a soja, o milho, o algodão e outros produtos, para compensarmos a emissão de gases dos chamados países desenvolvidos. Pelo estudo apresentado no Senado americano, os ganhos poderiam alcançar US$ 270 bilhões entre 2012 e 2030 só com a diminuição da competição dos países tropicais.

______________________________________________________________

Precisamos muito que o novo Código Florestal seja aprovado. É importante afirmar que ele não estimula o desmatamento. Muito pelo contrário. Nele está assegurado o desmatamento zero, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável

______________________________________________________________

Precisamos muito que o novo Código Florestal seja aprovado. É importante afirmar que ele não estimula o desmatamento. Muito pelo contrário. Nele está assegurado o desmatamento zero, a biodiversidade e o desenvolvimento sustentável. O Brasil não precisa derrubar uma única árvore a mais, para ter aumentada sua produtividade. Mas pode diminuir, num período de 10 anos, cerca de 20 milhões de hectares sua área ocupada com atividades agropecuárias caso os produtores rurais sejam obrigados a recompor a reserva legal da forma como está previsto no atual Código Florestal brasileiro.
É, portanto, que o setor rural pede socorro, pois se o texto apresentado pela Comissão Especial do Código Florestal não for aprovado até 12 de junho, quando está previsto para entrar em vigor o Decreto 7.029/2009, cerca de 90% das propriedades rurais brasileiras terão suas atividades embargadas e ficarão na ilegalidade. O decreto condiciona a liberação de crédito para custeio agrícola, à averbação de áreas de reserva legal nas propriedades rurais, deixando muitos produtores sem financiamento para as lavouras e comprometendo definitivamente a safra 2011/2012.
Quando defendemos a aprovação do novo Código Florestal, não estamos pensando somente na situação dos produtores que dependem dele para continuar na atividade. Estamos pensando no mundo todo que precisa de alimentos. Pois quando se fala em fome no mundo, o Brasil é sempre visto como uma das principais soluções.
Recentemente, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) fez um alerta assustador. Segundo a entidade, será preciso aumentar a produção mundial de alimentos em 70% até 2050, para alimentar 2,3 bilhões a mais de pessoas, em relação à população mundial existente hoje. A produção anual de cereais terá de crescer em quase um bilhão de toneladas e a oferta de carne, elevada em 200 milhões de toneladas em relação ao que é produzido hoje. A FAO acredita que boa parte deste crescimento de produção poderá ser obtido com a adoção de práticas de melhoria da produtividade. Entretanto, estima-se que serão necessários 120 milhões de novos hectares para suprir as necessidades de alimentos no mundo.
Diante destes números e desta situação dramática apresentada pela FAO, avalio como irresponsável o discurso de certas instituições ambientalistas que criminalizam o homem do campo e colocam-no como o principal vilão do meio ambiente. Cabe aqui uma colocação que ouvi certa vez do presidente do Sindicato Rural de Uberlândia, Paulo Ferolla da Silva, que é a seguinte: “Nenhuma nação, por mais poderosa que seja, consegue estabelecer a democracia e evitar os conflitos internos, se sua população estiver passando fome”.
Assim sendo, aprovar o novo Código Florestal Brasileiro, que inteligentemente propõe conciliar a preservação ambiental sem prejuízos para o desenvolvimento das práticas agrícolas, é fundamental para reduzir a insegurança no campo, garantir a produção de alimentos e, porque não dizer, fortalecer a democracia e o crescimento do Brasil.
O arroz, o feijão, a carne e tantos outros produtos que abastecem a mesa da população, não nascem nas prateleiras dos supermercados. E, até mesmo o preço que é cobrado por estes alimentos, está diretamente condicionado à oferta que vem do campo. Se esta oferta for reduzida, uma grande parcela do nosso povo não terá mais acesso a muitos destes produtos. É a famosa lei da oferta e da demanda. Por enquanto, temos produzido o suficiente para atender à demanda e garantir preços acessíveis. Mas se tivermos reduzida nossa área de cultivo, certamente esta situação se reverterá. Este é o momento de evitar uma tragédia anunciada. E o único caminho é a aprovação imediata do novo Código Florestal Brasileiro.

Thiago Soares Fonseca é produtor rural e vice-presidente do Sindicato Rural de Uberlândia