Conversa de mercado

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Conversa de mercado

POR Luiz Henrique Guerreiro Vidigal

Caro leitor,

Peço sua permissão para falar sobre assuntos hospitalares. Nada sobre infecções, cirurgias ou doenças, mas sobre investimentos hospitalares.
Percebam que abordo esse assunto em meio a um momento de crise na saúde pela qual passa o município de Uberlândia. Coincidência mais que oportuna.
Assim, diante disso, exponho os fatores mais importantes que culminam em tal situação.
Uberlândia é uma cidade singular em vários aspectos, nada diferente no assunto saúde. Conflui para o município a esperança de cura de habitantes de várias cidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, Sul de Goiás e até de um pedaço do Noroeste de São Paulo. Atrai pacientes do Norte de Minas e até do Nordeste brasileiro, chamados por seus familiares que já se instalaram em nossa cidade e não poderiam deixar de prestar apoio a mães ou pais doentes que residem em suas cidades de origem. Um detalhe: utilizando a verba que deveria ser apenas dos munícipes de Uberlândia.
Não bastando essa desproporção, Uberlândia tem quase o dobro de ocorrências registradas na Promotoria Estadual na área da saúde comparada com Belo Horizonte, contando com um quarto da população da capital do estado. Isso significa que a população reivindica saúde a todo custo, exigindo seus direitos justa ou injustamente (pagando ou não impostos), já que o SUS é um plano universal em sua concepção.
Soma-se a isso a ideia de complexidade a qualquer preço, ou seja, menos do médico e mais dos exames – mais do “Dr. Google” e menos do médico que se graduou na faculdade e possui educação formal. Construiu-se uma interface entre o paciente e o médico: exames. Para uma fatia razoável da população, o diagnóstico advém do sangue, urina, radiografia, ressonância magnética – entre vários outros exames – e não do cérebro (do médico que raciocina). Isso custa dinheiro, muito dinheiro.
Aliado a esses fatores, o envelhecimento da população enseja a ocorrência de mais doenças. Quanto mais o indivíduo vive, naturalmente maior a chance de adoecer e de necessitar de médicos, exames e hospitais.
Percebam que esta análise envolve tanto a rede pública quanto a particular. A pública pelo motivo óbvio de alocação de recursos insuficientes do SUS para todos que o procuram – como já citado, o assunto referente a munícipes de outras cidades ou regiões. E a rede particular pelo fato de depender largamente dos convênios oferecidos pelas Operadoras de Saúde.  Estas que, aliás, se veem em uma encruzilhada, já que cada vez mais são obrigadas a oferecer novos exames, procedimentos e especialidades multidisciplinares pela Agência Nacional de Saúde (ANS), mas com uma dificuldade extrema de repassar os custos, já que seus usuários, com todo o direito, encontram dificuldades para arcar com planos mais convidativos para conforto próprio e de suas famílias.
Considerando, então, que 90% ou mais do movimento financeiro dos hospitais em nossa cidade são provenientes de pacientes conveniados, os investimentos em instalações, equipamentos de alta tecnologia e recursos humanos não podem parar, já que devem ser proporcionais a pacientes-clientes que desejam o retorno de seus investimentos em planos de saúde.
Agora, chegamos finalmente à questão investimento em saúde propriamente dita.
Existe uma máxima envolvendo essa questão, que é a seguinte: “Saúde não tem preço, mas medicina tem”. E o preço é alto. Tecnologias de evolução galopante; necessidade maior de colaboradores por leito do que a de um hotel, por exemplo; salários que incluem insalubridade e periculosidade em vários setores; exigências cada vez maiores dos Conselhos (Enfermagem, Nutrição); e tributos que devoram as entranhas de instituições de saúde com a mesma voracidade com que a qualquer outra empresa idônea.
Então, como investir, crescer, melhorar, ampliar em um cenário de pouca elasticidade financeira?
Os pacientes conveniados e particulares querem – e merecem – instalações cada vez melhores, mais seguras, mais silenciosas, mais confortáveis. Mas também querem – e é legítimo querer – planos cada vez menos caros. Os planos, por sua vez, pressionados pelos usuários e pela ANS, quando não também pelo judiciário, precisam de uma válvula de escape por onde possam escoar suas necessidades de redução de custos. Assim, sobra para os hospitais (esta discussão não inclui os médicos e clínicas, que isso fique bem claro). Aí, em consequência, negociações duras, manutenção de taxas de diárias e de utilização de equipamentos sem aumento por longo tempo, além de preços de medicações, são o alvo. Questão de sobrevivência!

Equação complicada:

- usuários que contestam os preços cobrados pelos convênios ou pelos hospitais (quando não possuem convênio);
- os mesmo usuários reivindicando mais e melhores instalações, mais e melhor tecnologia;
- convênios obrigados a ampliar o rol de procedimentos;
- os mesmos convênios sem poder aumentar as mensalidades proporcionalmente ao que devem cobrir;
- hospitais necessitando de ampliação e melhora;
- os mesmos hospitais recebendo os mesmos valores de há algum tempo (não nos esqueçamos da inadimplência);
- e liminares judiciais expedidas por juízes pressionados por situações de risco iminente de morte e insuficiência de leitos do SUS.
E a conta não fecha. Nem teria como fechar, isso em qualquer lugar do mundo, assim como não fecha em Uberlândia.
O encaminhamento da discussão deve ser no sentido de melhor entendimento da população quanto a real necessidade de exames e procedimentos; uma ANS que perceba as consequências de todas as mudanças que vêm provocando nos últimos anos dentro das Operadoras de Saúde; um judiciário também perceptivo das consequências de internações compulsórias; Operadoras de Saúde que compreendam a importância da parceria com os hospitais, no sentido estritamente comercial da palavra, sem qualquer embaraço ético entre as partes.
Com isso tudo, e apesar disso tudo – agora falando em nome da instituição à qual estou inserido -, o Hospital Santa Clara tem investido no crescimento e melhoria de suas instalações.
Só este ano foram gastos R$ 750 mil na inauguração de seu centro de imagem: o Santa Clara Imagem. Felizmente, o resultado foi tão positivo que estamos sendo obrigados a ampliar o serviço, com um terceiro aparelho de ultrassonografia e um segundo aparelho de raios-X.  Tem ainda a ampliação da UTI Adulto, que agora se apresenta oferecendo o maior número de leitos da cidade: 20, o que foi possível graças a um investimento de R$ 600 mil.
Tem mais. Para janeiro de 2011, está previsto o início das obras de ampliação de leitos de internação, com mais 30 a 50 novas unidades (dependendo da necessidade de leitos no quarto) a serem construídas em área própria ao lado do Hospital, na Av. João Pinheiro.
O segredo? Não existe segredo. Existe o nome de um hospital sólido e uma administração tão direcionada quanto austera: com colaboradores, médicos e gestores que compõem uma equipe vitoriosa.

Luiz Henrique Guerreiro Vidigal é clínico geral, diretor administrativo do Hospital Santa Clara e também diretor administrativo da Med Care Assistência Domiciliar