Conversa de mercado

Revista Mercado Edição 36 - novembro 2010

Conversa de mercado

POR Rogério Silva

Prezado leitor,

“Alho, limão, mel e gengibre. Se não curar a gripe, também não faz mal nenhum”.
As pessoas gostam de dar conselhos, passar ensinamentos, dizer que se foi bom para elas mesmas, serve também para os outros. Dói menos na consciência. É melhor do que automedicação.
A minha avó adorava dar receitinhas para as amigas. Deixava-a aliviada, sobretudo quando a gripe da vizinha passava. Batata, né? Com uma semana de cama, longe de vírus e bactérias, quem não melhorar de um resfriado está ferrado. Acalentava o ego saber que a sugerida mistureba de alho, limão, mel e gengibre tinha agido afiadamente, sem chance para o adversário.
Sábia, minha avó. Acabou, sem querer, me ensinando que conselho é ótimo e deve ser dado a torto e a direito, sem dramas pessoais. Vai funcionar, sim. Tenha certeza. Aliste-se no Exército da Salvação. Preste vestibular para o ITA. Inscreva-se naquele concurso de 1.057,5 candidatos por vaga. Jogue na Mega Sena, de preferência quando acumular em 100 milhões de reais. Invada a sala do chefe. Peça aumento de 75%.
Só alcança quem busca. Não me recordo de quem tenha aprendido a dirigir sem nunca ter tido coragem de ligar o carro.
Mas você pode ser também aquela folha morta no canto da sala, escondido para não ser notado. Essa pode ser a sua opção. Mas não o faça se não tiver vontade de que seja assim.
Longe de mim querer desfiar nessas linhas um rosário de autoajuda. Nem sequer adoto essa literatura. Não gosto. Não acredito.  Mas algumas palavras de incentivo valem a pena. E se não forem ditas pelos que tem um tiquinho mais de experiência e vivência, serão pronunciadas por falastrões que aconselham o que não viveram. O que não sabem.
Dia desses viajei 210 quilômetros para falar para cerca de 100 alunos de Comunicação Social. Falamos de mercado, expectativa das empresas, a formação ideal, o que cada um deve fazer para se destacar, a segunda graduação, a terceira, o estudo de outras línguas, blá, blá, blá…
Quantos assimilaram aquilo? Três, quatro… Serei otimista: cinco, no máximo.
Cinco caras ou cinco moças que tomaram aquele desafio para si e colocaram na cachola a ideia de ser um belo profissional do mercado.
Toma nota de um pensamento aí. Este vale a pena e é meu. De mais ninguém. Alguém pode até ter pensado, mas não escreveu: “As coisas mais difíceis da vida dependem apenas de nós mesmos”.
Emagrecer, namorar a garota mais cobiçada da escola, ser doutor, viajar, conhecer novas pessoas, SER feliz sem necessariamente TER as coisas.
Antes de começar este texto, pensei em escrever algo sobre o mercado da comunicação, mas resolvi me rebelar. Escrevo um pouco sobre a minha sábia e astuta avó, dos confins de Taperoá, um lugar duas quadras após a esquina onde Judas perdeu as botas. Ela sabia das coisas e me admirava e amava muito.  Eu era magricela, desengonçado com a bola, malvestido e com o cabelo desajeitado. Mas para ela eu era o menino mais lindo do mundo.
Minha avó se foi. Mas tem uns troços que não foram com ela. Ela não era tão senil a ponto de me ver e enxergar um Clark Gable, o big galã de “E o vento levou”. Nada disso. Cativar alguém é magia, magia pura. Fazer com que a pessoa veja alguma coisa de que só ela seria capaz.
Lembro-me da minha primeira cata ao emprego. Queria trabalhar. Estava no início da faculdade e numa entrevista o recrutador me perguntou se eu sabia datilografar. Sim, disse eu, já imaginando o fim de semana que perderia gastando meus dedos a treinar na velha Remmington de meu pai.
Falta ousadia nos olhos dos garotos de hoje, a vontade de arriscar, de atirar-se com desejo, sem saber dos $$$ no holerite do final do mês.
Isso deve ser nostalgia de quem sempre acha que no passado tudo era melhor. Estou ficando velho e ranzinza. Boa oportunidade então para dar conselhos, como disse lá no começo, que nem esses e-mails melosos que rodam o mundo. Assim sendo, lá vão alguns:
•    Ouça mais, fale menos
•    Volte sempre às origens, mesmo em pensamentos
•    Curta o que faz. A grana vem depois, naturalmente
•    Gaste só o que você ganha
•    O melhor aluno da sala não necessariamente será o melhor cara do mercado
•    O pior aluno da sala poderá melhorar com sua ajuda
•    Gaste tempo com você
•    Deixe rastros, deixe marcas
•    Chore e se arrependa, se assim valer
•    E sorria, mas sorria muito, com vontade e sem culpa.
Ah… E sobre a receita, aquela do início … A essência não está nela – se quiser troque o alho por cebola e o gengibre por um gole de pinga. O segredo está no pensamento positivo. Tudo vai dar certo!

Rogério Silva é jornalista e administrador.  Atualmente dirige o jornalismo
e a programação da TV Paranaíba/Record e da Rádio Educadora/Jovem Pan em Uberlândia, Minas Gerais. E também adora dar conselhos.