Comportamento

Revista Mercado Edição 42 - maio 2011

União homoafetiva, uma resposta à sociedade civil

DA Redação

Medida vem para ratificar que o Estado já reconhece a população homossexual e que qualquer intolerância contra ela é inconstitucional

Com a aprovação da união civil homoafetiva, a sociedade brasileira deu um grande passo na luta contra a homofobia. Reconhecer os casais em união estável coloca o Estado em posição favorável a essa minoria. “A legalização da relação homoerótica é um passo decisivo para a desconstrução dessa crença de que essa relação é antinatural e deve ser coibida, porque, afinal de contas, ela já trouxe muito sofrimento a pessoas que literalmente tiveram que acabar com suas vidas”, explica a psicanalista do CPPL (www.cppl.com.br), Ana Elizabeth.
Ainda comentando sobre a efetividade dessa medida com relação à maior aceitação da população homoafetiva, a psicanalista diz que quando essas crenças se naturalizam têm uma força de convencimento muito forte e é muito difícil mudá-las. “Ainda vai levar algumas décadas para que essas mudanças sejam integradas ou culturalmente absorvidas”, avalia.
Ana Elizabeth explica o porquê da sensibilidade em relação ao tema: “A noção de que a humanidade é dividida em dois sexos é uma questão secular, e toda questão que nos acompanha há tanto tempo tende a se naturalizar, ou seja, a questão passa a ser tratada como algo da ordem da natureza. E o que é da ordem da natureza não pode ser contrariado”.

“As mulheres eram homens imperfeitos, cujos corpos não tiveram calor suficiente para se completar”

No tocante à questão do gênero, Ana Elizabeth diz que, embora os corpos do macho e da fêmea humanos sempre tenham sido diferentes, essas diferenças foram interpretadas ao longo da história de formas diversas. “Por incrível que pareça, até o século XVII a teoria vigente no Ocidente é de que havia apenas um sexo – o masculino, claro – e que as mulheres eram homens imperfeitos, cujos corpos não tiveram calor suficiente para se completar”.
Segundo Ana Elizabeth, só a partir do início do século XVIII é que se consolidou a ideia de dois sexos e, consequentemente, a ideia de que as relações sexuais deveriam estar a serviço da procriação. Assim, então, surgiu a ideia da heterossexualidade, com a prescrição de que relações sexuais só poderiam acontecer entre parceiros de diferentes gêneros. Porém, a homossexualidade sempre existiu. “Na antiguidade, por exemplo, as práticas homossexuais eram absolutamente corriqueiras. Dito de outro modo, o que é uma produção cultural passa a ser entendido como uma questão natural”, explica a psicanalista.