Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

Quando um político fala de literatura: a e i o u, w, w na cartilha do Juju

POR Kenia Maria

É só olhar para Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, para ver como ele está “sarado”, “malhado”, bem alimentado, feliz com sua família reunida. No Rio de Janeiro, ele mostrou boa disposição e saúde para subir um dos morros cariocas e sorrir para toda essa gente que sabe mostrar seu valor. Olha só, Barack, “Yes, nós temos bananas, bananas pra dar e vender”.

Mas, quando se trata de literatura: “Chiquita Bacana, lá da Martinica, escorregou na casca da banana nanica”. Em discurso no Teatro Municipal, Obama mencionou o escritor Paulo Coelho. Foi bombástico. Todo mundo sabe que Coelho não é unanimidade entre os bons leitores brasileiros. E, cá para nós, neste país tropical, abençoado por Deus, em que 40% das pessoas são negras ou mulatas, como o próprio presidente americano, Obama bem que poderia ter citado os afrodescendentes Lima Barreto e Machado de Assis. Barack perdeu, assim, uma grande oportunidade de ampliar o debate sobre o papel do negro na cena cultural. É, Obama, “vai, com jeito vai, se não um dia, a casa cai.”…

Já a presidente Dilma Roussef, em termos de literatura também não é grau dez. Ganha no máximo um oito. Seu discurso de posse foi, sem dúvida, contundente e às vezes até poético. Dilma fez boas menções à educação, apontando que “somente com o avanço na qualidade de ensino poderemos formar jovens preparados, de fato, para nos conduzir à sociedade da tecnologia e do conhecimento”. Mas, quando o assunto são as Letras, a presidente derrapa.  Dilma citou uma das mais clássicas frases da nossa literatura: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. O único problema é que a mineira Dilma não mencionou que essa expressão está em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo. Dilma perdeu, assim, a chance de divulgar o nome deste importante autor.
Pena que muita gente ainda não pode saborear a arte literária de Rosa. Temos 14 milhões de analfabetos e um em cada cinco brasileiros é um analfabeto funcional, ou seja, lê, mas não consegue interpretar o que leu. “Lata d`água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria, sobe o morro e não se cansa…”

E o discurso de posse de Lula, de 2003? “Ai, doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano”. Será que Lula citou algum autor brasileiro? Não, ele não fez menção a nenhum poeta nem escritor, mas, ao final do discurso, evocou a clássica frase: “Viva o povo brasileiro”, que, aliás, é também título de um excelente livro do autor baiano João Ubaldo Ribeiro. Lula também perdeu a chance de divulgar autores nordestinos como ele próprio, e que fizeram da nossa literatura um misto de poesia e política, estética e filosofia. Basta que recordemos aqui Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. É, amigos, “o que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Tem torso de seda tem, tem brincos de ouro tem”…

Caro leitor, perdoe-me, pois hoje estou saudosista. Eu sei que o carnaval já passou, mas que tempo bom o das marchinhas ingênuas e bem-humoradas. Tempo bom em que as pessoas e também os políticos acreditavam que um “País se faz com homens e livros”, como queria Monteiro Lobato.
E nessa toada de carnaval com política e literatura, a dica de hoje é adquirir o delicioso livro “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida. Lendo-o a gente se diverte tanto com as travessuras do malandro Leonardo Pataca – “filho de uma pisadela e de um beliscão” – como com o ‘durão” e terrível Major Vidigal, espécie de político, prefeito e policial numa terra de ninguém.

Lá também a gente lê sobre o nascimento das primeiras marchinhas carnavalescas. “Linda pastora, morena da cor de Madalena, tu não tens pena de mim…”
E claro, para terminar, eu não poderia deixar de também indicar o engraçado filme brasileiro “O bem-amado”, baseado na obra de Dias Gomes e dirigido por Guel Arraes. Ora, quem melhor que Odorico Paraguaçu para encarnar os políticos com seus discursos costurados por gafes e trapalhadas? E melhor que Marco Nanini no papel do aloprado Odorico só mesmo Paulo Gracindo. Que saudades… “Bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz”.

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)