Revista Mercado Edição 41
Quando um político fala de literatura: a e i o u, w, w na cartilha do Juju
POR Kenia Maria
É só olhar para Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, para ver como ele está “sarado”, “malhado”, bem alimentado, feliz com sua família reunida. No Rio de Janeiro, ele mostrou boa disposição e saúde para subir um dos morros cariocas e sorrir para toda essa gente que sabe mostrar seu valor. Olha só, Barack, “Yes, nós temos bananas, bananas pra dar e vender”.

Mas, quando se trata de literatura: “Chiquita Bacana, lá da Martinica, escorregou na casca da banana nanica”. Em discurso no Teatro Municipal, Obama mencionou o escritor Paulo Coelho. Foi bombástico. Todo mundo sabe que Coelho não é unanimidade entre os bons leitores brasileiros. E, cá para nós, neste país tropical, abençoado por Deus, em que 40% das pessoas são negras ou mulatas, como o próprio presidente americano, Obama bem que poderia ter citado os afrodescendentes Lima Barreto e Machado de Assis. Barack perdeu, assim, uma grande oportunidade de ampliar o debate sobre o papel do negro na cena cultural. É, Obama, “vai, com jeito vai, se não um dia, a casa cai.”…
Já a presidente Dilma Roussef, em termos de literatura também não é grau dez. Ganha no máximo um oito. Seu discurso de posse foi, sem dúvida, contundente e às vezes até poético. Dilma fez boas menções à educação, apontando que “somente com o avanço na qualidade de ensino poderemos formar jovens preparados, de fato, para nos conduzir à sociedade da tecnologia e do conhecimento”. Mas, quando o assunto são as Letras, a presidente derrapa. Dilma citou uma das mais clássicas frases da nossa literatura: “A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. O único problema é que a mineira Dilma não mencionou que essa expressão está em “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo. Dilma perdeu, assim, a chance de divulgar o nome deste importante autor.
Pena que muita gente ainda não pode saborear a arte literária de Rosa. Temos 14 milhões de analfabetos e um em cada cinco brasileiros é um analfabeto funcional, ou seja, lê, mas não consegue interpretar o que leu. “Lata d`água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria, sobe o morro e não se cansa…”
E o discurso de posse de Lula, de 2003? “Ai, doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano”. Será que Lula citou algum autor brasileiro? Não, ele não fez menção a nenhum poeta nem escritor, mas, ao final do discurso, evocou a clássica frase: “Viva o povo brasileiro”, que, aliás, é também título de um excelente livro do autor baiano João Ubaldo Ribeiro. Lula também perdeu a chance de divulgar autores nordestinos como ele próprio, e que fizeram da nossa literatura um misto de poesia e política, estética e filosofia. Basta que recordemos aqui Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. É, amigos, “o que é que a baiana tem? O que é que a baiana tem? Tem torso de seda tem, tem brincos de ouro tem”…
Caro leitor, perdoe-me, pois hoje estou saudosista. Eu sei que o carnaval já passou, mas que tempo bom o das marchinhas ingênuas e bem-humoradas. Tempo bom em que as pessoas e também os políticos acreditavam que um “País se faz com homens e livros”, como queria Monteiro Lobato.
E nessa toada de carnaval com política e literatura, a dica de hoje é adquirir o delicioso livro “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida. Lendo-o a gente se diverte tanto com as travessuras do malandro Leonardo Pataca – “filho de uma pisadela e de um beliscão” – como com o ‘durão” e terrível Major Vidigal, espécie de político, prefeito e policial numa terra de ninguém.
Lá também a gente lê sobre o nascimento das primeiras marchinhas carnavalescas. “Linda pastora, morena da cor de Madalena, tu não tens pena de mim…”
E claro, para terminar, eu não poderia deixar de também indicar o engraçado filme brasileiro “O bem-amado”, baseado na obra de Dias Gomes e dirigido por Guel Arraes. Ora, quem melhor que Odorico Paraguaçu para encarnar os políticos com seus discursos costurados por gafes e trapalhadas? E melhor que Marco Nanini no papel do aloprado Odorico só mesmo Paulo Gracindo. Que saudades… “Bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz”.
















