Revista Mercado Edição 42
Poemas para serem lidos em voz alta. Leitor, solte a voz!
POR Kenia Maria
Leitor amigo! Acredito que há poemas que foram feitos exclusivamente para serem lidos em voz alta. São tão melódicos e rítmicos que exigem de nós a nossa garganta, o nosso corpo. Querem de nós não só os olhos em movimento, mas principalmente a nossa língua batendo docemente nos dentes. A poesia nasceu amarrada à música. Elas são irmãs. Na Idade Média, por exemplo, o poeta era um menestrel, um jogral, um trovador, que compunha poemas e também as melodias. O poeta era também cantor. A literatura nasceu sob o signo da canção. Toda criança cantarola e dança no colo da mãe antes de balbuciar as primeiras palavras. A poesia é, assim, a infância mágica da literatura. Hoje, o convite é para uma leitura diferente. Mesmo que você esteja lendo esta crônica numa sala de espera cheia de pessoas mal-humoradas ou angustiadas, não há problema, murmure estes sonetos. Solte a voz, afinal, no princípio era o verbo. Só quando falamos o mundo começa… Fiat Lux…
Vamos começar por Vinícius de Moraes. É quase impossível visualizar estas estrofes e não sentir vontade de lê-las para quem se encontra ao nosso lado. Vamos semear um pouco de poesia neste mundo tão caduco e triste.

Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes
“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.
Outro poema que parece exigir de nós a vibração de nossas cordas vocais, a propagação de ondas sonoras, mesmo que seja à meia voz, seria a poesia:
Retrato
Cecília Meireles
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?”
Duvido de que alguém que bata os olhos nestas rimas, que vêm logo aí, não sinta vontade de lê-las quase cantando. Camões é poeta que pede sopro, ar, palavra ritmada:
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
E, por último, amigo leitor, dois poemas trava-línguas, afinal, o humor também faz parte da delicadeza poética e polissêmica da poesia de expressão portuguesa. A leitura destas estrofes folclóricas é uma boa técnica vocal que, além de ajudar na pronúncia correta das palavras, nos leva aos primórdios da literatura e também provoca o riso até no mais casmurro dos mortais. Boas leituras, em voz alta, por favor:
O pinto pia
A pipa pinga.
Pinga a pipa,
O pinto pia..
Pipa pinga..
Quanto mais
O pinto pia
Mais a pipa pinga.
A aranha e o jarro
A aranha arranha o jarro
O jarro arranha a aranha
A aranha não arranha o jarro
Porque o jarro não arranha a aranha.
















