Revista Mercado Edição 36
Os mais intensos poemas eróticos e viscerais da literatura brasileira
POR Kenia Maria

A poesia abarca os mais diversos temas. Os poetas cantam o amor perdido, o amor conquistado, a amizade, a terra natal, a dor de cotovelo, a família, a guerra, a política, o humor e, claro, também, caro leitor – que ninguém é de ferro – o erotismo e a sensualidade. De todos os poetas brasileiros, talvez o que tenha escrito de forma mais exageradamente erótica, com toques de sadismo e canibalismo, tenha sido o autor parnasiano pouco divulgado, Francisco Antonio de Carvalho Junior.
Carvalho Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 1885. Formou-se em Direito. Deixou uma única obra intitulada “Parisina”, contendo suas poesias, peças de teatro, folhetins e crítica literária. Faleceu em 1879, também no Rio de Janeiro. O crítico Antonio Candido, em seu livro “A educação pela noite”, observa que Carvalho Júnior é um dos nossos primeiros poetas baudelerianos, ou seja, um dos primeiros autores brasileiros a beber diretamente na fonte do poeta francês Baudelaire, principalmente em sua clássica obra, “Flores do mal”.
Para Antonio Candido, os poemas de Carvalho Júnior são “agressivamente eróticos” e “marcadamente sexuais”: uma forma de rebeldia e irreverência juvenis contra a mesmice e o provincianismo intelectual do século XIX. É bem interessante o uso que esse autor faz da sexualidade escancarada e mordaz como forma de protestar contra os valores sociais de sua época. Vamos ao poema:
| Antropofagia (Carvalho Júnior) |
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| Mulher! Ao ver-te nua, as formas opulentas Indecisas luzindo à noite, sobre o leito, Como um bando voraz de lúbricas jumentas, Instintos canibais refervem-me no peito. Como a besta feroz a dilatar as ventas E ao longo de teu corpo elástico, onduloso, - Os átomos sutis, – os vermes sensuais, |

O crítico Antonio Candido diz que “os poemas de Carvalho Júnior são ‘agressivamente eróticos’ e ‘marcadamente sexuais’”
Observem agora este outro poema, com ácidas críticas às mulheres pálidas e virgens do romantismo. Outro exemplo de erotismo mesclado à rebeldia:
| Profissão de Fé (Carvalho Júnior) |
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| Odeio as virgens pálidas, cloróticas, Beleza de missal que o romantismo Hidrófobo apregoa em peças góticas, Escritas nuns acessos de histerismo. Sofismas de mulher, ilusões óticas, Não servem-me esses vagos ideais |
Outro parnasiano que também é visceralmente erótico e sensual é Teófilo Dias. Antonio Candido o classifica como um baudeleriano a explorar as temáticas das mulheres mágicas e perfumadas em forma de fêmeas fatais. Teófilo Dias, embora tenha sido sobrinho do nosso conhecido Gonçalves Dias, (o poeta da “Canção do exílio”), é também pouco estudado nas escolas e raramente alguém sabe citar algum poema de sua lavra poética. Teófilo nasceu no Maranhão em 1854 e faleceu em São Paulo em 1889. Foi político, professor e jornalista. Depois de um rápido percurso pelo romantismo, dedicou-se ao simbolismo-parnasianismo, publicando em 1882 sua melhor obra, intitulada “Fanfarras”.

Teófilo Dias é um “baudeleriano a explorar as temáticas das mulheres mágicas e perfumadas em forma de fêmeas fatais”
Veja o poema abaixo e observe como a sedução feminina da mulher fatal captura o poeta em êxtase. Perceba como a mulher é o centro da volúpia, do desespero, da loucura e das carnes em ebulição:
| Esfinge (Teófilo Dias) |
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| Tuas pupilas alaga Não sei que acerba ternura, Cuja luz cruel me afaga, Cujo afago me tortura. Unge-te o seio moreno Freme-te a alma fatal Para estancar os desejos, Com sarcasmo me apunhalas; Tua palavra me é dura Há uma alma que suspira No movimento discreto Os teus lençóis apaixonas Dos primores, de que és feita, E eu te amo, beleza fátua, |
Depois dessas poesias, caro leitor, chegamos à conclusão que conhecemos pouco da nossa literatura. Sabemos quase nada desses poetas parnasianos intensamente eróticos que quase beiram à pornografia. Tudo isso no século XIX. Cai por terra a teoria ingênua de que a malícia e o extremado erotismo é coisa da juventude pós-moderna conectada à internet.
Muita pesquisa ainda precisa ser feita sobre os autores desse período. Ignoramos os parnasianos como se fossem um bando de tolos a fazer sonetos sem graça sobre mármores e estátuas, ou uns sonhadores a escrever poemas sobre a pátria e a infância. Quanto preconceito e quanta falta de informação! As poesias de Carvalho Júnior e Teófilo Dias provocam a imaginação e viram pelo avesso as características estereotipadas do parnasianismo brasileiro.
Por fim, sabemos pouco da nossa cultura e dos talentos deste Brasil E para quem é curioso e quer se aventurar nas pesquisas sobre esses dois eróticos/rebeldes recomendo que leiam as obras: “A educação pela noite”, de Antonio Candido; “Apresentação da poesia brasileira”, de Manuel Bandeira; “A literatura no Brasil”, de Afrânio Coutinho; e “A renovação parnasiana na poesia”, de Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Boas leituras!
















