Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 36 - novembro 2010

Os mais intensos poemas eróticos e viscerais da literatura brasileira

POR Kenia Maria

A poesia abarca os mais diversos temas. Os poetas cantam o amor perdido, o amor conquistado, a amizade, a terra natal, a dor de cotovelo, a família, a guerra, a política, o humor e, claro, também, caro leitor – que ninguém é de ferro – o erotismo e a sensualidade. De todos os poetas brasileiros, talvez o que tenha escrito de forma mais exageradamente erótica, com toques de sadismo e canibalismo, tenha sido o autor parnasiano pouco divulgado, Francisco Antonio de Carvalho Junior.
Carvalho Júnior nasceu no Rio de Janeiro em 1885. Formou-se em Direito. Deixou uma única obra intitulada “Parisina”, contendo suas poesias, peças de teatro, folhetins e crítica literária. Faleceu em 1879, também no Rio de Janeiro. O crítico Antonio Candido, em seu livro “A educação pela noite”, observa que Carvalho Júnior é um dos nossos primeiros poetas baudelerianos, ou seja, um dos primeiros autores brasileiros a beber diretamente na fonte do poeta francês Baudelaire, principalmente em sua clássica obra, “Flores do mal”.
Para Antonio Candido, os poemas de Carvalho Júnior são “agressivamente eróticos” e “marcadamente sexuais”: uma forma de rebeldia e irreverência juvenis contra a mesmice e o provincianismo intelectual do século XIX. É bem interessante o uso que esse autor faz da sexualidade escancarada e mordaz como forma de protestar contra os valores sociais de sua época. Vamos ao poema:

Antropofagia (Carvalho Júnior)
Mulher! Ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede por dar-lhe o bote ajeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t’estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

- Os átomos sutis, – os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, – esplêndidos sobejos.

O crítico Antonio Candido diz que “os poemas de Carvalho Júnior são ‘agressivamente eróticos’ e ‘marcadamente sexuais’”

Observem agora este outro poema, com ácidas críticas às mulheres pálidas e virgens do romantismo. Outro exemplo de erotismo mesclado à rebeldia:

Profissão de Fé (Carvalho Júnior)
Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Beleza de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões óticas,
Raquíticos abortos de lirismo.
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim
Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

Outro parnasiano que também é visceralmente erótico e sensual é Teófilo Dias. Antonio Candido o classifica como um baudeleriano a explorar as temáticas das mulheres mágicas e perfumadas em forma de fêmeas fatais. Teófilo Dias, embora tenha sido sobrinho do nosso conhecido Gonçalves Dias, (o poeta da “Canção do exílio”), é também pouco estudado nas escolas e raramente alguém sabe citar algum poema de sua lavra poética. Teófilo nasceu no Maranhão em 1854 e faleceu em São Paulo em 1889. Foi político, professor e jornalista. Depois de um rápido percurso pelo romantismo, dedicou-se ao simbolismo-parnasianismo, publicando em 1882 sua melhor obra, intitulada “Fanfarras”.

Teófilo Dias é um “baudeleriano a explorar as temáticas das mulheres mágicas e perfumadas em forma de fêmeas fatais”

Veja o poema abaixo e observe como a sedução feminina da mulher fatal captura o poeta em êxtase. Perceba como a mulher é o centro da volúpia, do desespero, da loucura e das carnes em ebulição:

Esfinge (Teófilo Dias)
Tuas pupilas alaga
Não sei que acerba ternura,
Cuja luz cruel me afaga,
Cujo afago me tortura.

Unge-te o seio moreno
Um perfume sufocante,
Suave como um calmante,
Pérfido como um veneno.

Freme-te a alma fatal
No frágil corpo nervoso,
Como um filtro perigoso
Numa prisão de cristal.

Para estancar os desejos,
Que teu sangue tantalizam,
Teus lábios prodigalizam
Dentadas por entre beijos.

Com sarcasmo me apunhalas;
Depois, as feridas cruas
Ameigas com a luz que exalas
Dos teus olhos, – negras luas.

Tua palavra me é dura
Às vezes, pelo sentido,
E doce pela brandura
Com que me trina no ouvido.

Há uma alma que suspira
Em cada ponto do espaço
- Quando caminhas: teu passo
Murmura como uma lira.

No movimento discreto
Revelas, por entre gazes,
Todo um poema correto
Escrito em versos sem frases.

Os teus lençóis apaixonas
Com a gentileza que apuras
Nas langorosas posturas
Em que o teu corpo abandonas.

Dos primores, de que és feita,
A nenhum dou primazia:
É do conjunto a harmonia
Que os meus sentidos sujeita.

E eu te amo, beleza fátua,
Minha perpétua loucura,
Como o verme a flor mais pura,
E o musgo a mais bela estátua!

Depois dessas poesias, caro leitor, chegamos à conclusão que conhecemos pouco da nossa literatura. Sabemos quase nada desses poetas parnasianos intensamente eróticos que quase beiram à pornografia. Tudo isso no século XIX. Cai por terra a teoria ingênua de que a malícia e o extremado erotismo é coisa da juventude pós-moderna conectada à internet.
Muita pesquisa ainda precisa ser feita sobre os autores desse período. Ignoramos os parnasianos como se fossem um bando de tolos a fazer sonetos sem graça sobre mármores e estátuas, ou uns sonhadores a escrever poemas sobre a pátria e a infância. Quanto preconceito e quanta falta de informação! As poesias de Carvalho Júnior e Teófilo Dias provocam a imaginação e viram pelo avesso as características estereotipadas do parnasianismo brasileiro.
Por fim, sabemos pouco da nossa cultura e dos talentos deste Brasil E para quem é curioso e quer se aventurar nas pesquisas sobre esses dois eróticos/rebeldes recomendo que leiam as obras: “A educação pela noite”, de Antonio Candido; “Apresentação da poesia brasileira”, de Manuel Bandeira; “A literatura no Brasil”, de Afrânio Coutinho; e “A renovação parnasiana na poesia”, de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

Boas leituras!

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)