Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 39 - fevereiro 2011

O mito de Medeia

POR Kenia Maria

A trágica história da mãe que mata os próprios filhos

O mito grego de Medeia é talvez um dos mais terríveis e assustadores. A trágica história da mãe infanticida que apunhala os próprios filhos para vingar um amor malsucedido nos horroriza e, ao mesmo tempo, nos causa piedade. Talvez o mito de Medeia seja aquele que melhor revele o sentido do trágico. Não se pode esquecer, por exemplo, que Aristóteles, em sua famosa “Arte Poética”, já advertia os dramaturgos de que a boa tragédia é aquela capaz de provocar o terror e a compaixão, para melhor produzir o efeito catártico no expectador.
A narrativa grega sobre esta mãe infanticida, também conhecida como ardilosa feiticeira, há mais de quatro mil anos faz parte de nosso inconsciente coletivo.
Narra a lenda que Medeia, depois de se apaixonar por Jasão, resolve entregar-lhe o precioso velocino dourado – um carneiro encantado que  produzia infinitamente uma magnífica lã de ouro. Para esta empreitada, Medeia revela ao amado as artimanhas e mágicas para conseguir tal feito, sendo que uma delas era matar o dragão que zelava pelo carneiro. De posse deste precioso animal, depois de alguns anos, Jasão esquece Medeia e se apaixona por Creusa, a filha do rei Creonte. Traída e inconformada, Medeia jura vingança e cumpre: mata Creusa e depois os próprios filhos que tivera com Jasão.

Medea, por Eugène Delacroix, 1862

Inúmeros poetas, dramaturgos e pintores buscaram nesta história inspiração para criarem suas obras de arte. Na antiguidade, grandes dramaturgos, como Eurípides, Sêneca, Ésquilo, Corneille se renderam aos encantos desta história, levando para o palco esta incrível personagem.  Na pintura, por exemplo, vale conferir o quadro, óleo sobre tela em cores fortes, de Eugène Delacroix, o qual impressiona principalmente pelo olhar irado da infanticida e pelos corpos das inocentes crianças se contorcendo de dor e desespero.
Para quem gosta de um bom filme, a dica é assistir “Medeia”, do diretor italiano Píer Paolo Pasolini. Numa elaborada desconstrução pós-moderna do mito, a cantora lírica Maria Callas vive a trágica feiticeira Medeia apaixonada por Jasão.
E para quem gosta de boas leituras, recomendo a obra “Gota d’água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes. Nesta versão, Medeia é Joana, moradora de um pobre conjunto habitacional no Rio de Janeiro. Depois que o sambista Jasão a abandona por Alma, Joana mata os dois filhos e se suicida. Buarque e Pontes trazem para o centro da trama algumas discussões políticas sobre a degradação social e moral dos cidadãos das grandes metrópoles.
Interessante registrarmos também que a tragédia “Medeia” virou comédia nas mãos do teatrólogo luso-brasileiro Antônio José da Silva, O Judeu. Sua opereta joco-séria, intitulada “Os Encantos de Medeia”, subiu aos palcos de Lisboa no século XVIII, apresentando uma Medeia feiticeira, dedicada às artes mágicas, disposta a transformar pessoas em animais. Com diálogos irônicos recheados de brincadeiras dos bufões Sacatrapo e Arpia, Antônio José aproveita para satirizar o fanatismo religioso da sociedade portuguesa que temia as bruxas e vivia amedrontada com a Inquisição.
Infelizmente, Medeia não é apenas personagem da literatura. Na vida real, ela ganha dimensões mais pavorosas e cruéis. Medeia, às vezes, escapa dos livros, do tablado e da tela do cinema ou da pintura para encarnar em mulheres comuns, nossas vizinhas, nossas irmãs. Mulheres desassossegadas que vivem dolorosos cotidianos. Em rápida pesquisa pela Internet, digitando no Google a frase “mãe mata filhos como vingança”, pude contar centenas de casos no Brasil e no exterior de mães infanticidas, verdadeiras medeias raivosas que trucidam a prole para atingir o homem amado. As notícias são desoladoras: “Mãe espanca e mata bebê de 8 meses para se vingar do ex!!!”. “Uma mulher britânica matou o filho de cinco anos, obrigando-o a beber uma mistura de antidepressivos para se vingar do pai da criança”. E por aí vai…
Mas o que levaria uma mãe a agir dessa forma? O que levaria uma mulher a estrangular os próprios filhos? Tudo por ciúme? Tanta fúria contra inocentes para vingar amores malsucedidos? De que é capaz uma mulher quando é rejeitada pelo companheiro? Grande paradoxo da alma feminina, a mesma mulher que dá a vida e amamenta uma criança também é capaz de matá-la e esquartejá-la. Isso talvez seja o que mais nos amedronte nas atitudes de Medeia: será que toda mãe é capaz de matar?
E não só matar fisicamente. Há muitas formas simbólicas de causar a morte de um filho: por sufocamento emocional, por exemplo; por excesso de cuidados; por superproteção. Há mães enciumadas, sogras mesquinhas que desequilibram casamentos e causam a discórdia. Como é difícil apaziguarmos a Medeia que palpita em toda mulher.
Mas, diante desse quadro desolador, resta uma esperança. Não podemos esquecer que o nome grego Medeia etimologicamente significa “aquela que dá bons conselhos” ou “aquela que cura”. Lembremos aqui Freud, ao observar que são latentes em todos os seres humanos as pulsões de vida e as de morte. Eros e Tanatos têm igual peso nas nossas relações amorosas. A ambiguidade é a marca do humano.
Assim, no nosso cotidiano banal, desejo que vença Eros e também a etimologia do nome Medeia, ou seja, aquela mulher acolhedora que de forma equilibrada protege e acalma seus filhos e não a Medeia da lenda milenar que apunhala, assusta e horroriza.

Paz para todas as Medeias.

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)