Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 34 - setembro 2010

Dona Martiriana vê seu futuro nas cartas: quando a literatura visita a cartomante

POR Kenia Maria


Quando paro no sinal, já fico esperando a papelada que aqueles garotos sofridos pelo calor do sol insistem em me entregar. Eu sempre desço o vidro do carro e estendo a mão para recolhê-los. Fico com um pouco de pena de ver esses meninos num trabalho exaustivo, improdutivo, que além de sujar as ruas e encher o saco dos motoristas talvez resulte em pouco retorno para quem anuncia. Mas que sei eu de publicidade? Naqueles papeizinhos se encontra de tudo: propaganda de churrascaria, borracharia, papelaria, pamonharia, sempre afirmando que vendem mais barato e têm o melhor produto do mercado. De olho no sinal que já vai abrir, jogo o panfleto no saco de lixo do carro e rapidamente esqueço o nome do anunciante. Mas, de todos esses anúncios, o que acho mais curioso e pitoresco são os que fazem a publicidade das imbatíveis e infalíveis cartomantes: “Dona Martiriana. Venha saber seu passado, seu futuro. Faço também amarração para o amor. Trago a pessoa amada em sete dias”, “Dona Valquíria: seu futuro na palma de sua mão. As cartas não mentem jamais.”
Sempre que leio esses panfletinhos fico pensando em como o ser humano, desde tempos imemoriais, tem necessidade de saber seu destino. O futuro é uma incógnita que nos ameaça. Uma esfinge que nos interroga: decifra-me ou devoro-te. Mesmo depois que a filosofia e o racionalismo modernos anunciaram a morte de Deus e das fiandeiras gregas, colocando a responsabilidade do destino em nossas próprias mãos, mesmo assim, tal qual Édipo, insistimos em consultar os oráculos, interpretar as cartas do tarô, vislumbrar brechas, pistas, sinais do futuro nas cartas de baralho da cigana. Nem mesmo a Bíblia com suas exortações, em Deuteronômio, alertando que Deus pune os que consultam magos e adivinhos, nem mesmo os sermões do padre ou do pastor intimidam o fervoroso cristão quando este se deixa levar por uma aguda curiosidade. Um dia, todo mundo, com certeza, vai ouvir de uma misteriosa vidente: o que te trouxe aqui, dinheiro ou amores?

A literatura também procurou traduzir essa curiosidade do ser humano no que diz respeito ao tempo futuro. “A cartomante”, de Machado de Assis; “A cartomante”, de Lima Barreto; e “A hora da estrela”, de Clarice Lispector são os três exemplos mais clássicos das pitonisas que tentam desvendar os dias vindouros. Os três personagens dessas narrativas, cada um a seu modo, buscam os oráculos por questões diversas.
Em Machado de Assis, por exemplo, o cético e agnóstico personagem Camilo acaba indo consultar uma cartomante depois de receber um bilhete em tom ameaçador do marido de sua amante. Apavorado, com medo de que seu amor clandestino tenha sido descoberto, deixa de lado sua descrença no sobrenatural e, receoso de que tanto sua vida como a de Rita corram perigo, vai interrogar as cartas do destino. Camilo fica assim cara a cara com uma vidente, descrita como “uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos”.

Já o personagem de Lima Barreto busca ansioso uma cartomante para ajudá-lo a sair da maré de azar em que se metera. Acreditava que era vítima de mandinga, macumba, coisa feita. Tudo em sua vida dava errado. Precisava urgentemente acertar no jogo do bicho e ganhar muito dinheiro. Vai então em busca de Madame Dada, a “sonâmbula, extralúcida, (que) deita as cartas e desfaz toda espécie de feitiçaria, principalmente a africana”.
Por último, a infeliz Macabéa, de Clarice Lispector, em “A hora da estrela”, procura, entre a ingenuidade e o temor, amenizar sua angústia e solidão ouvindo as “sábias” profecias de Madame Carlota. Impressionada com aquela mulher que pintava a “boquinha rechonchuda com vermelho vivo e punha nas faces oleosas duas rodelas de ruge brilhoso”, Macabéa, pela primeira vez, vislumbra uma possibilidade de ser feliz.

Mas, infelizmente, sabemos, os três personagens são ludibriados pelas videntes. Todos os três encontram ou a desilusão ou a morte. Mas a dúvida permanece: afinal, as cartomantes podem ou não prever nosso futuro? Quem poderá traduzir o que elas dizem de modo, muitas vezes, cifrado? Não contarei o final dessas histórias. Recomendo que o leitor busque por sua conta os livros ou os sites da internet e leiam, na íntegra, essas três magníficas narrativas.
E para quem tem preguiça de ler panfletos de cartomantes ou de borracharia, ou mesmo uma boa literatura, resta uma alternativa, ver o deslumbrante filme “A hora da estrela”, dirigido por Suzana Amaral. Marcela Cartacho faz o papel da desengonçada Macabéa que, depois de perder o namorado Olímpico de Jesus, tenta amenizar sua dor consultando uma vidente. Madame Carlota é interpretada pela majestosa Fernanda Montenegro que, com seu dom de iludir, por um instante nos faz sonhar e, tal qual Macabéa, também acreditamos que as pitonisas podem nos apontar um futuro glorioso.

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)