Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 35 - outubro 2010

De Machado de Assis às congadas de Uberlândia

POR Kenia Maria


Quando, em sala de aula, comento que Machado de Assis era negro, muito aluno ainda se espanta. Negro? Como assim? Isso mesmo, meus queridos, o mais representativo dos autores brasileiros era negro e escreveu um dos melhores contos que conheço sobre os terrores da escravidão no Brasil. Quem nunca leu Pai contra mãe, a triste história de uma escrava grávida que fugiu de seus donos, está perdendo uma intrigante narrativa que, já no início da leitura, nos cativa. Vejam como Machado descreve com precisão os torturantes objetos, os quais alguns escravos eram obrigados a portar:
“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado.”

Machado de Assis, autor de Pai contra mãe

Depois de ler na íntegra esse conto, já não se pode mais dizer que Machado era um mulato aburguesado que virou as costas para a escravidão, ignorando o sofrimento do negro nas relações dolorosas de poder com seus amos. Pelo contrário, Machado tinha consciência das atrocidades cometidas contra os negros e registrou esses fatos.
Lima Barreto e Solano Trindade são também dois outros importantes nomes da literatura brasileira. Eles também eram afrodescendentes e, tal qual Machado, escreveram sobre a condição do negro no Brasil. Lima Barreto publicou o polêmico romance Clara dos Anjos, em que uma moça negra, ironicamente chamada Clara, é maltratada e abandonada pelo malandro branco Cassi Jones. É outra leitura que recomendo vivamente. Aliás, Clara, a menina mestiça e humilde, que se apaixona pelo menino branco pequeno-burguês, é a primeira heroína negra a se tornar personagem principal do romance brasileiro. Lima Barreto a descreve como uma sonhadora romântica: “Ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoada por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão”. Lima Barreto faz neste romance uma radiografia das relações conflituosas entre brancos e negros nos subúrbios pobres do Rio de Janeiro no início do século XX.

Lima Barreto, também um poeta afrodescendente, publicou Clara dos Anjos

Já o poeta popular pernambucano Solano Trindade deveria ser leitura obrigatória nas escolas. Solano foi ator, jornalista, teatrólogo. Criou em 1936 o Centro Cultural Afro-Brasileiro e, em 1950, juntamente com Édison Carneiro, organizou o Teatro Popular Brasileiro, em que tentaram resgatar a rica cultura afro-brasileira. Vejam como Solano conseguiu resumir em poucos versos grande parte das contradições e complexidades da negritude no Brasil:

Solano Trindade: ator, jornalista, teatrólogo... e negro

Sou Negro

Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gongôs e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro senhor de engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu

E foi assim, lendo e pensando sobre esses autores, que me lembrei que Outubro é o mês das congadas em Uberlândia. O branco, por muitos séculos, desrespeitou o negro. O negro respondeu com a poesia da resistência. É fascinante ouvir o ritmo alegre dos instrumentos africanos e das cantorias que ressoam pelas avenidas desta cidade. É um privilégio poder assistir ao bailado poético das crianças, dos jovens e velhos, com suas flores, fitas e miçangas coloridas, num espetáculo vibrante de percussão para corpo e espírito. Quando meus olhos se enchem das cores dos 25 ternos, cada um a seu modo, adorando, dançando e batucando pelas ruas de Uberlândia, percebo que estão impregnados também do passado literário. Um passado que se pode ouvir mesclado ao som de tambores e apitos. Estes sons nos trazem os ecos literários de denúncia política, de arte e de poesia, elementos que povoaram antes as vozes melódicas, rítmicas e contundentes de Cruz e Souza, Lima Barreto, Luiz Gama, Solano Trindade e também Machado de Assis.

Foto original de Machado de Assis, que entre outras vozes melódicas respondeu à opressão ao negro com a poesia da resistência

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Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)