Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 38 - janeiro 2011

Das dificuldades de se escrever uma boa crônica

POR Kenia Maria

Caros leitores, como escrever é coisa difícil! Tinha razão Carlos Drummond de Andrade quando dizia que “Lutar com palavras é a luta mais vã/ entanto lutamos mal /rompe a manhã”.
A página está aqui, em branco, absurda, lisa, deserta. O cronista deve salpicá-la com letras pretas. Mas não é um desenho aleatório. Não adianta jogar e semear palavras como num poema dadaísta. O cronista tem que ter assunto, escrever com coerência, humor, leveza, graça. O bom cronista precisa cativar, seduzir, narrar, hipnotizar. Escrever é saber contar uma boa história ou refletir sobre algo banal do cotidiano.
Creio que todos que escrevem crônicas já se desesperaram no dia em que se viram totalmente sem assunto, sem história nenhuma, sem ideias para transformá-las em palavras. Mas, ironicamente, não ter nada para contar é também um tema bom para prosear.
Lembrei-me agora de uma interessante crônica de Drummond em que ele dizia assim: “Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos. Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos.”
Curiosamente, ao relatar a angústia da falta do que escrever, Drummond elabora um de seus textos mais melancólicos e poéticos, afinal, diz ele, enquanto tentamos dolorosamente fixar o verbo no papel, deixamos de gozar grande parte da vida, pois “lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha”.

Clarice Lispector é também autora que nos emociona ao tocar no assunto da dificuldade de lutar com as metáforas. No polêmico romance “A hora da estrela”, travestida de narrador masculino, ela nos surpreende com frases como esta: “Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas”.
Igualmente, para a desafiadora poeta Hilda Hilst, escrever é também trabalho penoso, intricado, já que nos dizeres desta autora “literatura não é distração, entretenimento. É uma coisa séria, que você vai adquirindo. É dificílimo”.
Mas, talvez, mais difícil que escrever, reescrever e cortar palavras, complicado mesmo seja adquirir  o poder de observação do mundo. O bom cronista deve estar munido de uma lupa que o fará enxergar pequenos detalhes da alma humana que quase sempre escapam ao olhar apressado e não poético do cotidiano.  E quem melhor traduz essa lição da sensibilidade para enxergar poesia no mundo é o admirável Fernando Sabino, que em um dado momento de seu belo texto “A última crônica”, resume, de forma lúcida, os difíceis embates entre a emoção de ver e a razão ao escrever:

“Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança:
‘assim eu queria o meu último poema’. Não sou um poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”

Escrever é também um jogo, uma brincadeira de gente grande, muitos plantam verbos e colhem liberdades. Mesmo encarando a escritura como objeto lúdico, cabe ao autor escolher as peças e desmontar esse afortunado passatempo da escrita, como se pode ver em Manoel de Barros, quando ele anuncia prazeroso:

“Não gosto de palavra acostumada. Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria”

Há ainda outra questão que incomoda o cronista. Por que escrevemos? Com qual finalidade? Qual seria o motivo que moveria o artista da palavra a gastar preciosas horas a conjugar verbos, escolher substantivos, cortar adjetivos, entremear vírgulas? Novamente é Clarice Lispector quem vem em nosso socorro, tentando dar uma resposta plausível à nossa angústia: “escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar no mundo para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ver ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias”.

Assim, tal qual Clarice e Xerazade, para não morrermos todos os dias, continuamos a inventar histórias, a recontar o cotidiano, a fazer rir e a fazer chorar. Inventamos personagens, causos, tragédias e comédias. Também rimamos e damos o tom. Brincamos e sofremos. Emprestamos ritmos e música às palavras sonolentas do cotidiano cinza. Deve ser por isso que é cada dia mais difícil, mas também prazeroso, fazer uma crônica.
Amigo leitor, desconfio de que, finalmente, mais uma vez escrevi uma crônica.

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)