Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Da necessidade dos palhaços, dos bobos da corte e dos “tiriricas”

POR Kenia Maria

O palhaço Tiririca foi o deputado federal mais votado no Brasil nas eleições de 2010. Mais de 1,3 milhão de pessoas o elegeram para representar o povo por quatro anos no Congresso Nacional. Muita gente se assustou, ficou indignada, vociferou: Um palhaço? Um bobo da corte? Um fanfarrão? Onde vamos parar?
Ora, tais acontecimentos são fruto da grandeza da democracia em que todos podem experimentar o gostinho e os dissabores do poder. Do fabricante de sapatos ao engraxate, do grande latifundiário ao boia-fria, do industrial ao torneiro mecânico, todos, sem exceção, podem legislar, propor e revogar leis. Assim, nesse espaço democrático, felizmente não só o rei tem o direito de sentar-se no trono, o bobo da corte também.
Impossível falar de Tiririca e não nos lembrarmos dos palhaços que fizeram a nossa alegria no período da infância. Todos queriam ir ao circo para gargalhar com as molecagens e piruetas desse burlesco personagem. Onde já se viu um circo que não tenha essa figura com seus sapatos compridos, roupas de bolinhas coloridas, um nariz redondo avermelhado, uma peruca exuberante? Quando minha mãe estava de saco cheio do choro e das brigas de meus irmãos, lá íamos nós para o circo aliviar as tensões, rir um pouco, dar uma trégua nas labutas familiares. Os circos, nas pequeninas cidades do interior, com seus palhaços atrevidos, representam um oásis em meio ao tédio e à secura cultural de nossa terra.

Tiririca

Mais tarde, na adolescência, quando conheci as peças teatrais de Shakespeare, o que mais me encantou foram os clows ou os bobos da corte. Shakespeare fez de seu teatro um espaço democrático, multicultural e polifônico. Em suas peças ouve-se de forma equilibrada tanto as vozes dos reis e dos poderosos como as dos simples soldados, dos mercadores, das prostitutas, dos casais burgueses apaixonados e, claro, o discurso debochado e gaiato do palhaço, do bufão. É, minha gente, Shakespeare, sabia das coisas… Não é por acaso que é considerado um dos mais importantes escritores do mundo ocidental.
Mas, às vezes, eu me pergunto. Por qual motivo Shakespeare fazia tanta questão de colocar em quase todas as suas peças teatrais um truão, um bobo da corte? Para o estudioso Bakhtin, em seu clássico livro intitulado A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, o bobo é a figura carnavalizada, aquele que desmistifica o tom sério, o que burla o que é oficial, aquele que tem coragem de dizer aquilo que ninguém ousa, é aquele que vence pelo riso.

“Shakespeare fez de seu teatro um espaço democrático, multicultural e polifônico”

Lembrei-me agora da excelente tragédia Rei Lear. Um belo dia, o rei, certo de que já estava velho e precisava curtir melhor a vida sem grandes sobressaltos, resolve dividir seu reino entre suas três filhas. Como a filha mais jovem, Cordélia, não declara amor incondicional ao pai, é punida, ficando sem sua parte na herança. O trono é assim repartido entre as outras filhas, Goneril e Regane. Depois disso, o rei passa a ser odiado e menosprezado pelas duas mais velhas. Triste e desesperado, Lear não compreende bem o porquê dessa hostilidade das filhas. Lear é então alertado pelo seu Bobo de que ele agora não era mais rei, não era mais nada, nada tinha e suas filhas não suportavam sua pobreza. Durante toda a peça, o Bobo é talvez o único personagem que, mesmo com suas piruetas e frases disparatadas, mantém-se lúcido e coerente, alertando o rei de que sua atitude de dividir prematuramente o reino, além de ter excluído Cordélia da herança, foi uma atitude despropositada.
Sabemos que o bobo é o único personagem que pode dizer toda a verdade ao rei, por mais cruel que esta seja, e nem por isso o bufão será degolado. Os bobos são parentes espirituais dos loucos, dos poetas e das crianças. Eles têm licença poética para debochar da autoridade e tirar a máscara do poder.
Uma das falas mais interessantes do Bobo de Lear é aquela em que ele diz que queria saber mentir, que já estava cansado de dizer as verdades e nunca ser levado a sério.
Tiririca trocou o chapéu de guizos por uma peruca loira e gritou que “pior do que tá não fica”, depois trocou o picadeiro da televisão pelo ar condicionado de Brasília. Tomara que ele nunca seja censurado por seus protetores, um bobo não pode nunca ser silenciado. O papel do bobo é o de denunciar, o de escancarar as tramoias e a corrupção. Desejo que Tiririca, tal qual o Bobo de Lear, ou aquela criança da fábula de Christian Andersen, nunca seja proibido de gritar: “o rei está nu, o rei está nu.”
A literatura e as artes estão repletas desse personagem corajoso e carnavalizado. Para quem quiser se divertir e também refletir um pouco mais sobre a importância do riso e do deboche dos bobos a ajudar-nos a entender um pouco mais sobre nossa complicada condição humana e sobre nossa complexa sociedade, sugiro as seguintes obras artísticas: a tragédia Rei Lear, de Shakespeare; a comédia Guerras do Alecrim e da Mangerona, de Antônio José da Silva; o romance O bobo, de Alexandre Herculano; a ópera Rigolleto, de Verdi; o filme O bobo da corte; e o documentário Hotxuá – o palhaço sagrado, de Letícia Sabatela.

Em Rei Lear, de Shakespeare, o Bobo é talvez o único personagem que, mesmo com suas piruetas e frases disparatadas, mantém-se lúcido e coerente

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)