Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 40 - março 2011

As mulheres: na literatura e na política

POR Kenia Maria

O leitor já ouviu falar em Geraldo Ferraz? E em Carlos Franklin Paixão de Araújo? Mas, e em Patrícia Galvão – a Pagu – e em Dilma Rousseff? Pois é! Algumas mulheres conseguiram se sobressair de forma tão extraordinária em suas respectivas áreas que ofuscaram o nome de seus cônjuges ou ex-maridos. Ora, tal fato seria impensável há algum tempo. Lembro-me de que, na cidade do interior onde nasci, as pessoas tratavam as mulheres sempre como aquelas que pertenciam a um homem, a um marido. Sempre se dizia: a Dona Maria do Senhor Pedro, a Dona Aparecida do Senhor João, a Dona Fátima do Senhor Lúcio. E por aí vai. Mesmo que a Dona Fátima fosse uma excelente professora, ela era a Dona Fátima do Senhor Lúcio, ou a filha do Senhor Tomás. Nossa, vai longe este tempo… Mas a caminhada foi penosa para as primeiras mulheres que carregaram a bandeira da liberação feminina. Com certeza não é nada fácil ganhar identidade própria e.demarcar espaço.

Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas

Lembremos Patrícia Galvão, a Pagu. Antes mesmo que as mulheres pudessem sonhar em votar ou se candidatar para cargos públicos, Pagu, em 1930, foi a primeira mulher a filiar-se ao polêmico PCB, o Partido Comunista Brasileiro. Considerada subversiva e anarquista por ter participado e organizado uma greve dos estivadores em Santos, Pagu foi presa e torturada. Ela foi também uma das primeiras mulheres a ter coragem de acender um cigarro na rua. Suas baforadas quase lhe renderam um linchamento nas avenidas de São Paulo. Ela também viajou muito. Conheceu vários estados brasileiros, parte da América Latina e alguns países da Europa. Pagu não transgrediu apenas na vida pessoal e na política. Em 1933, publicou “Parque Industrial”, obra interessante e de estética inovadora, apimentada com ácidas críticas ao novo-rico e às futilidades das mulheres burguesas em contraposição às domésticas exploradas. Pagu militava até na literatura: “… as fêmeas da burguesia descem de Higienópolis e dos bairros ricos para as farras das garçonières e dos clubs, a criadagem humilhada, de touquinha e avental, conspira nas cozinhas e nos quintais dos palacetes. A massa explorada cansou e quer um mundo melhor!” (Patrícia Galvão – “Parque Industrial”).
Em 1939, Pagu, sempre munida de muita coragem e fibra, foi novamente presa como militante perigosa e subversiva. Na Casa de Detenção do Rio de Janeiro, escreveu a famosa “Carta de uma militante”, na qual expôs os motivos de sua ruptura com o stalinismo e sua adesão ao trotskismo. Vejamos um pequeno trecho: “Os sintomas da formação de uma burocracia soviética, depois da tomada do poder por Hitler, só se têm agravado, e hoje não é mais possível ignorar-se ou ficar-se indiferente ante os crimes e, o que é pior, os erros da casta governamental soviética. A sua existência pode ser constatada não só praticamente, mas também teoricamente, procurando-se as causas das sucessivas derrotas que tem sofrido o proletariado nestes últimos 10 anos em que as crises do capitalismo têm se mostrado mais graves”. (http://www.ler-qi.org/spip.php?article998).
Quando Patrícia Galvão morreu, em 1962, Dilma Rousseff tinha 15 anos de idade. Três anos depois, logo após o golpe militar de 1964, Dilma apresentou seus primeiros interesses pela política e, principalmente, pelos ideais socialistas. Iniciando na militância, foi guerrilheira e integrou organizações que defendiam a luta armada contra o regime militar. Com certeza, a essa altura ela também já tinha lido e estudado alguns textos da emblemática Pagu. E tal qual Patrícia Galvão, Dilma também foi presa e torturada.
Anos depois, Dilma participa do governo Lula. Vai para o Ministério de Minas e Energia e depois é nomeada Ministra-chefe da Casa Civil. Apoiada pelo presidente, é eleita em 2010 como a primeira mulher a presidir o Brasil.
Veja o leitor que uma mulher ser eleita presidente do nosso país é algo extraordinário. Recordemos que há bem pouco tempo uma mulher podia ser linchada se fumasse na rua. Uma moça “não valia nada” se não fosse virgem ou casada de “papel passado”. E mais: as mulheres só puderam votar pela primeira vez em 1932, e assim mesmo só as casadas e com a autorização do marido. Uma presidente mulher é algo muito importante, mas a grande maioria das pessoas ainda não conseguiu avaliar tal fato de forma apropriada. Será necessário o distanciamento histórico, a passagem de alguns anos para que compreendamos com mais densidade tal episódio.

Dilma Roussef, hoje presidente do Brasil, integrou organizações que defendiam a luta armada contra o Regime Militar, como o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares)

Uma das cenas que mais me marcaram neste ano de 2011 foi ver pela televisão a transmissão da posse de Dilma. Vi com espanto e também esperança uma ex-guerrilheira socialista com a faixa presidencial no peito, dando posse ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, o general-de-exército José Elito Carvalho Siqueira.
Quem poderia sonhar que um dia uma ex-guerrilheira iria dar posse a um general – de exército? E que essa imagem seria transmitida pela Rede Globo para milhões de telespectadores?
Também gostei da notícia divulgada em várias mídias de que Dilma, neste mês de março, mês dedicado a celebrar as conquistas da mulher, está pessoalmente empenhada em trazer da Argentina o famoso Abaporu, ícone da arte modernista da pintora Tarsila do Amaral, o qual deverá ficar no Brasil cerca de dois meses, em exposição no Palácio do Planalto.
Dilma não é poeta nem ficcionista como Pagu, mas está sempre antenada com as artes e a literatura. Seu discurso de posse revela autenticidade, firmeza e, por que não dizer, poeticidade, principalmente no que tange à presença da mulher no meio social. Vale a pena ler este trecho e refletir sobre ele: “E sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa desta ousadia do voto popular que, após levar à presidência um homem do povo, decide convocar uma mulher para dirigir os destinos do país. Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres também possam, no futuro, ser presidentes; e para que – no dia de hoje – todas as brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher”.
Para quem quiser ler o discurso da presidente na íntegra, acesse o site: http://www.presidencia.gov.br/noticias/ultimas_noticias/2011/01/leia-integra-do-discurso-de-posse-de-dilma-rousseff-no-congresso-1.
Recomendo ainda o belo filme “Eternamente Pagu”. Nele, o leitor pode conferir Carla Camurati no papel de Pagu e a requintada Estner Góes interpretando de forma brilhante Tarsila do Amaral.
Desejo a todos os meus leitores e leitoras um bom mês da mulher. E que mais portas sejam abertas para a mulherada!!!

Kenia Maria de Almeida Pereira – doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira, dentre eles, Machado de Assis: outras faces, publicado pela editora Aspecttus (kenia@triang.com.br)