Coluna Literatura

Revista Mercado Edição 44 - agosto 2011

As boas histórias que minha avó contava

Por Kenia Maria*

Cascudo foi professor, folclorista, diretor de escola, secretário do Tribunal de Justiça, jornalista, antropólogo, historiador e... brasileiro

Todo povo tem seu acervo de “causos” extraordinários, fábulas maravilhosas, narrativas orais fantásticas. Com o povo brasileiro não é diferente. Câmara Cascudo, em seu importante “Dicionário do Folclore Brasileiro”, reuniu centenas de narrativas da tradição oral brasileira, registrando assim a rica memória de nosso folclore. Aliás, um dia destes, folheando gostosamente tal dicionário constatei várias lendas que minha avó me contava quando eu era pequena. Um destes bons “causos” que ela sempre evocava, principalmente à noite, em volta de um fogãozinho à lenha, enquanto a gente comia broa de milho com leite quente, era o estranho conto da jibóia astuta.
Antigamente, na roça, quando uma mulher dormia amamentando seu bebê ao colo, podia acordar surpresa, pois no lugar da criança, à vezes, se deparava com uma enorme jibóia sugando seu seio. Para o bebê não chorar, a danada da cobra enfiava seu rabo na boquinha dele. Com este estratagema, a famigerada passava a noite sossegada a nutrir-se do leite materno. “Depois, era uma gritaria danada, até alguém aparecer no quarto e matar a caninana maldita”.
Outra história, que também está lá no “Dicionário do Folclore Brasileiro” e que minha avó gostava de me contar, é o “causo” do homem do pé de bode. Antigamente, quando aconteciam os bailes na roça, as moças deveriam ficar atentas aos pés dos rapazes. Tinham que observar bem, se aparecesse algum sedutor muito bonito com os pés redondos, Vigem Santíssima, todos faziam o nome do pai três vezes e o danado se desfazia no ar. Era o Tinhoso, o Dito-cujo, o Coisa-ruim ou o Homem dos pés de bode. “Os pés, os pés, vocês devem observar bem os pés dos moços antes de aceitar dançar com eles”.
Essas coisas me impressionavam tanto na infância que até hoje tais lendas acompanham-me e me causam arrepios, tanto que nunca deixo de mirar para baixo antes de sair bailando nos braços de um belo rapaz.
Também o folclore, envolvendo “causos” sobre onça, deixava-me extasiada. Minha avó contava dezenas de fábulas relacionadas à pintada. Eu guardo algumas ainda bem vivas na memória, como por exemplo, a onça que sabia imitar o grito de qualquer macaco, afim de atraí-los para junto de si e devorá-los. Lembrei-me agora também da Onça Borges, ou a estranha lenda de um vaqueiro que, em noite de lua cheia, metamorfoseava-se em um felino para atacar com ferocidade o gado e os cães das fazendas. Como era uma jaguatirica encantada, ninguém conseguia matá-la.
Os mineiros gostam tanto de narrativas sobre onça que Guimarães Rosa criou o belo conto “Meu Tio, o Iauaretê”, com certeza, inspirado nesta tradição dos felinos encantados.  Um caçador de onças, depois de anos matando pintadas, resolveu protegê-las e ampará-las. De tanto conviver e amar estes bichos, o ex-caçador se “oncifica”: passa a emitir grunhidos, a andar e a agir como se fora uma suçuarana. Quem quiser saber mais é só ir direto á fonte ou ao livro, intitulado “Estas Estórias”, e ler o conto na íntegra.
Fico pensando na época em que as crianças tinham avós que conviviam bem próximas a elas, contando “causos” assombrosos de nosso folclore.  Qual menino hoje pode se dar ao luxo de ter um avô, uma avó, um tio que narra suas memórias? Qual a criança hoje que tem avós narradores? Tive sorte de ter vivido numa época em que os pais e avós faziam uma criança sonhar, atiçavam sua imaginação, narrando para ela contos e lendas fantásticas. Penso que, quem tem a oportunidade de ouvir boas histórias, tem mais chance de se tornar também um bom leitor. Meus queridos leitores e leitoras, contem histórias para seus filhos, alunos, netos, sobrinhos. Narrem suas memórias, contem para eles as boas fábulas que vocês ouviram de seus avós.
Aliás, essas lendas, contadas por nossos antepassados, fazem parte do patrimônio imaterial e da cultura oral popular brasileira. Câmara Cascudo e Mário de Andrade são os dois nomes mais importantes na coleta e divulgação desta tradição oral do Brasil. Ambos sabiam da importância de preservar, registrando em livros, este rico patrimônio para que não se perdesse com as gerações futuras. É valiosa a iniciativa da Editora Global ao colocar de novo em circulação grande parte da obra de Câmara Cascudo. Toda família com criança e adolescentes deveria ter em casa algumas jóias deste escritor, como por exemplo, “Geografia dos mitos brasileiros”, “Histórias de nossos Gestos”, “Dicionário do Folclore Brasileiro”, “Contos tradicionais do Brasil”. Já de Mário de Andrade, o legal é adquirir pela Editora Itatiaia, Danças Dramáticas do Brasil, além, claro, do delicioso “Macunaíma”, com sua profusão de lendas e mitos indígenas obrigatórios para quem quer se divertir e também compreender um pouco mais o imaginário do povo brasileiro.

*Kenia Maria de Almeida Pereira é doutora em Literatura Brasileira pela Unesp/São José do Rio Preto-SP e professora colaboradora do Mestrado em Teoria Literária da Universidade Federal de Uberlândia-MG. Autora de artigos científicos e livros sobre literatura brasileira (kenia@triang.com.br)

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