Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 40 - março 2011

Rosa, a instrutora

POR Nege Calil*

(Educação Corporativa II)

Outro dia estava com um grupo de consultores numa roda de chope, discutindo quanto ainda temos que caminhar em nosso país no tocante ao investimento em educação e formação de pessoas. Coloquei pimenta na discussão, mencionando uma “pérola” que ouvi uma vez de um gestor de RH: “Se uma empresa quiser perder R$ 90 mil, basta investir R$ 100 mil em treinamentos. A maioria é inaproveitável”.
Minha amiga Cíntia espumou no canto da boca de tanta raiva que sentiu ao ouvir essa máxima. Antes que ela quebrasse um copo, externando sua indignação, intercedi:
- Assim que ouvi esse discurso gelei a espinha e o acusei de ignorante em meus pensamentos.
Discordo totalmente da posição desse gestor, há programas excelentes de formação profissional espalhados pelas empresas. Mas não posso deixar de contar um “causo” que aconteceu comigo, uma das experiências mais bizarras em treinamento que, em parte, reforça pensamentos errôneos como este.

Final da década de 1980, eu em começo de carreira na capital paulista. Meu gestor na época chamou-me à sua sala e me convocou para um treinamento:
- Cada área da empresa está enviando um representante. Como teremos outras turmas e todos no setor estão ocupados neste fim de mês, inscrevi os estagiários do setor. Ah, pediram para os participantes levarem um calção, pois haverá uma atividade ao ar livre.
- Ok! – respondi, desconfiado de que a agenda dos estagiários provavelmente não era bem percebida.
Era junho, época de muito frio em São Paulo. Mesmo assim, acatei a ordem de levar um calção, mesmo sem entender os motivos. Cheguei ao local e o grupo de participantes era extremamente heterogêneo. A grande maioria estava lá pelo mesmo motivo que eu: “meu chefe me mandou”, repetiam. Entre assuntos banais e curiosidade pelo que estava por vir, fomos surpreendidos por um colaborador do hotel que nos conduziu a uma sala confortável.
Um rapaz subiu ao palco, fez a propaganda da consultoria responsável pelo curso e desfilou elogios ao currículo da instrutora. Enfatizou por três vezes que ela era internacional, querendo valorizar o que estava por vir e aumentando a expectativa do público. Após um pequeno suspense provocado por luzes e música, surge Rosa num moletom azul e vermelho, gorro de lã e usando uma pochete que a deixava completamente ridícula. Argentina, com voz estridente e forte sotaque espanhol, tentava animar a plateia com jargões batidos.
Demonstrando cortesia, a plateia se entreolhou e, mesmo sem jeito, respondeu aos seus estímulos. Ela nos pedia para rir, bater palmas, nos abraçar, cantar músicas desconhecidas, sempre com o propósito de desenvolver o tema motivação. Entre slides e transparências de retroprojetor, repetia que tínhamos que ser felizes e levar essa atitude de alegria todos os dias de nossas vidas.
Animada, e talvez já com calor, retirou seu gorro e expôs uma cabeleira que me lembrou de imediato a Mafalda, personagem do cartunista Quino. Não me contive e comentei com uma colega:
- Nossa! Ela veio com a cabeça pra fora do avião!
Arranquei risos do grupo e, sem desconfiar de nada, ela nos estimulava a rir mais. O dia transcorreu com atividades desconexas, permeadas por mensagens soltas, algumas antagônicas entre si. Alguns colegas mais críticos tentaram, sem sucesso, aprofundar alguns temas com perguntas interessantes. Ela sabia, com maestria, dar respostas tão piegas que tornavam qualquer questão inválida.
Para selar todo esse trabalho, chamou-nos à cobertura do prédio e nos colocou ao redor de uma piscina. Finalmente entendi o propósito do calção e, entre um cochicho e outro, especulávamos se teríamos mesmo que trocar de roupa. Bingo! Saí do vestiário tentando me esconder do vento que fazia na cobertura do prédio. Vale lembrar que há 20 anos atrás eu estava 20 quilos mais magro e, vestido apenas com um calção no inverno paulista, eu tremia de frio.
Ela iniciou uma reflexão que não entendi muito bem. Fez uns rituais estranhos e nos convidou para, um a um, mergulharmos na piscina e encontrarmos nosso ego. Isso mesmo, o EGO!!
Como eu havia me posicionado em uma das pontas do semicírculo formado ao redor da piscina, todos me olhavam com aquela expressão de “pula logo pra gente ir embora”. Eu dependia da minha renda do estágio e, portanto, não tive escolha. Pulei na água gelada e mergulhei. Devo ter ficado uns 15 segundos que pareceram 15 dias. Saí roxo do outro lado, gemendo de frio. Confesso que só vi azulejos na piscina, mas diante da pergunta dela, não hesitei:
- Encontrei meu ego! E estou feliz!
Sob aplausos artificiais, me aqueci no primeiro roupão de banho que avistei e, atônito, vi outros colegas se aventurarem com a mesma insensatez. Em meus pensamentos eu implorava para que ela não pedisse para pular na água novamente. Saímos de lá com o compromisso de sermos felizes para sempre.
No dia seguinte, colhemos o primeiro saldo: dois colegas justificaram ausência alegando febre: eu com crise de sinusite e outro gripado. Com medo de represália, menti ao meu gestor:
- Foi muito bom! Todos deviam fazer!
Torcia diariamente para que ninguém soubesse dessa nossa conversa. Eu corria risco de vida, caso alguns colegas desconfiassem de minha sugestão. Felizmente os mais corajosos intercederam para que não investíssemos mais nessa loucura e, após a quarta turma, o curso foi suspenso.
Voltando à minha roda de chope, não preciso dizer que fui motivo de chacota. Entre um gole e outro, rimos muito. O mais intelectualizado da roda questionou-me:
- Que mensagem você tirou disso tudo?
- Foi ali que despertei para alguns preceitos que não podemos deixar de reforçar aos líderes das empresas. – respondi.
Num pequeno guardanapo, enumeramos os tópicos numa tentativa de enfatizar nossa crença coletiva:
1. Formação educacional nas empresas não é despesa, é investimento. Portanto, todo treinamento deve ter sua necessidade diagnosticada antes, ou seja, devemos deixar claro o porquê de investirmos.
2. Cursos, palestras, seminários, devem fazer parte de um propósito maior da organização e de um plano de educação. Nenhuma dessas atividades deve ser “um fim em si mesma”.
3. O público necessariamente precisa ser bem escolhido. Hoje entendo que uns 5% das mensagens de Rosa eram importantes, mesmo que fora de um contexto significativo. Mesmo assim, não tinha maturidade para ouvi-las.
4. Cuidado com modismos – uma palestra pode ser boa para um grupo e não necessariamente para outro. Problemas diferentes, remédios diferentes.
Havia outros tópicos anotados no papel, que foi descartado tão logo pagamos a conta. Obviamente, não menos importantes. Um, em especial, reforçava o cuidado que merecem atuações como a de Rosa, por fazerem parte daquelas exceções que marcam e que precisamos nos esforçar para não repassá-las de forma generalizada.
Quanto ao gestor de RH que suscitou a lembrança desse “causo”, nossa convivência ajudou-o a rever sua posição. Ele mesmo mencionou numa reunião, anos depois, a célebre frase atribuída a Benjamin Franklin: “Se você acha que a instrução é cara, experimente a ignorância”.

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br