Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 36 - novembro 2010

Meu amigo mestre

POR Nege Calil*

(Educação Corporativa)

Lá estava eu, sentado na plateia de um palestrante que se dispunha a revelar todos os segredos de educação nas empresas. Pouco mais de 20 minutos escutando a criatura, eu estava prestes a “sofrer uma sapituca”. O aventureiro dominava muito bem as artimanhas de uma oratória sedutora e se autointitulava exímio conhecedor de pessoas e educador corporativo.
Desesperado, notei que literalmente estava preso no auditório que, por não possuir um corredor no meio, não me permitia abandoná-lo sem incomodar dezenas de pessoas à direita ou à esquerda. Reprimi meus impulsos e me conformei em continuar ouvindo mais um oportunista que ganha fortunas em cima da desinformação de nossa população acerca de estudos sérios sobre gestão e educação nas empresas. De “educação corporativa” (tema proposto no convite do evento), ele não trouxe nada. Tratou do assunto de forma circense, sem a profundidade necessária para algo tão importante no mundo moderno dos negócios. Muitos estudiosos mereciam ser mais ouvidos que o fanfarrão que acabáramos de aplaudir.
Respeito muitos palestrantes. Eu mesmo contratei ou patrocinei autores, colecionando erros e acertos nessa empreitada. A grande maioria tratava-se de pessoas sérias que viveram ricas experiências sobre o que pregavam. Gosto de aprender assim, ouvindo gente que faz ou que fez. Tenho sérias críticas aos que nunca ou pouco viveram o mundo corporativo e vendem receitas prontas.
Conheci um desses artistas/cientistas raros. Anônimo até hoje, é apaixonado por educação nas organizações. Eu atuava numa filial de uma grande corporação e, diante de uma necessidade local, minha equipe criou um programa de treinamento. Erroneamente, só comuniquei ao corporativo essa proeza após sua aplicação. Com certa tensão ao telefone, expliquei:

- Assumi a região há poucos meses e endossei a iniciativa de minha equipe nesse treinamento para a área comercial. Sei que o correto seria pedir autorização primeiramente à matriz, mas era urgente a necessidade de trabalharmos esses quesitos! Garanto que tudo foi feito dentro das normas e diretrizes da companhia.
- Parceiro – ouvi surpreso – eu vi a programação que você passou por e-mail. Precisamos disso mesmo, de gente que treina e acredita na educação. Conte conosco sempre que precisar. Vamos trocar informações para podermos sugerir estratégias que enriquecerão o trabalho de vocês aí na filial.
Desliguei o telefone num misto de alívio por não ter sido repreendido e alegria por descobrir um aliado na matriz. Questionei um de meus analistas:
- Quem é esse cara lá no corporativo?
- É o Rodrigo! Gente fina pra caramba, apaixonado por treinamento. E entende muito do assunto, está sempre disposto a ajudar.
- Não me lembro de tê-lo conhecido na minha integração…
- Na próxima vez que você for à sede, procure por ele. Vocês têm muito em comum.
Meses depois, eu o conheci pessoalmente. Assustei-me: era mais feio que xingar a mãe na noite de Natal. Magro, de frente parecia estar de lado e de lado parecia ter ido embora. Olhos grandes por trás de óculos arcaicos. Tudo isso quebrado por um sorriso contagiante:
- Oi, mineirinho! – chamou-me carinhosamente. Que bom ter você aqui conosco!
Sua recepção era diferenciada, transpirava sinceridade em ouvir nossas experiências no campo e em repartir seus conhecimentos para fazermos cada vez melhor. Nos vários encontros que tivemos sucessivamente, constatei cada vez mais sua paixão por educar gente e multiplicar conhecimentos.

Com forte sotaque paranaense, jurava ter nascido do outro lado do rio, no interior de SP. Sua primeira escola foi a vida: criado com simplicidade, perdeu o pai ainda “piá”, como costumava dizer. Isso não lhe tirou, no entanto, o apego a valores essenciais como família, honestidade, amizade, vínculos afetivos. Casou errado na primeira vez, acertou na segunda. Já está experimentando as primeiras lições de ser avô!
Foi para a lida logo cedo, encostou a barriga em muito balcão pra fazer suas vendas. Amante dos livros, aprendia na poeira das ruas e no banco da faculdade, num esforço que lhe rendeu um mestrado pouco depois dos 30 anos. Tornou-se excelente professor e eterno aprendiz. Fala dos autores com intimidade e da prática na capacitação de pessoas com entusiasmo.
Fui transferido para a matriz e trabalhei lado a lado com esse mito. Andar com ele pelas dependências da empresa era uma tortura – parecia galho de árvore solto na enchente, pois se enroscava em todos os setores. Chamava os colegas pelo nome, brincava, ouvia, dava palpites, colocava-se à disposição. Era nítido como as pessoas se sentiam bem em sua presença e buscavam por ele. Nunca escutei uma alma se queixar dele. Pelo contrário, eram uníssonas as demonstrações de admiração e carinho pelo conhecimento dessa criatura.
Educadores não são produzidos em massa, eles nascem assim, como Rodrigo. São pessoas que souberam aprender com a vida e com as letras e carregam com naturalidade o desejo de repartir com os outros. Infelizmente, tenho encontrado colegas que mais parecem administradores de contratos de consultorias que verdadeiros arquitetos de um programa educacional perene e em consonância com as estratégias da empresa.
Rodrigo sabia fazer isso com maestria. Tinha autoridade para falar com a área comercial, seus principais clientes internos, pois tirou muitos pedidos e conhecia o negócio. Demonstrava sustentabilidade teórica, adquirida com muita leitura e trocas acadêmicas. Conquistara credibilidade, pois expressava convicção e endossava seu discurso com atitudes. Era querido, pois dominava como poucos a arte de se relacionar.
Cursos e palestras são apenas alguns instrumentos de repasse de dados e informações. Pena que ainda são interpretados como um fim em si mesmo. O verdadeiro conhecimento se transmite por atitudes que contaminam e despertam um grupo de pessoas a reinventar velhos hábitos. E isso só se consegue com profissionais apaixonados por gente, que leem livros e vivenciam diferentes situações.
Estudo e experiência – eis o antídoto para os espetáculos caros e vazios e que concedem a anônimos como Rodrigo o dom da análise e o poder da síntese.

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br