Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 42 - maio 2011

Ligia

POR Nege Calil*

A arte de liderar II (*)

Fui à casa de Ligia pela primeira vez há pouco mais de um ano. Trabalhamos juntos por um bom tempo, mas nunca havia tido a oportunidade. Baixinha, agitada, recebeu-me com um abraço gostoso, daqueles aconchegantes. Um largo sorriso e entramos. A casa linda, com muitos cômodos, sem perder a simplicidade que trazia um toque de receptividade. Cães e gatos exerceram o papel de uma governanta e me receberam com desconfiança, latidos, cheiros e uma festa sutil.
Tão logo fui apresentado à sua mãe, irmã e uma amiga, instalamo-nos na cozinha. Entre bate-papos triviais, servimo-nos primeiramente de batata frita, amendoins e outros salgadinhos semelhantes com café. Em seguida, Ligia abriu um frisante acompanhado de bomba de chocolate e outros doces. Esse “kit azia”, como traduziu sua irmã, é a cara da Ligia – não importa o que se come, desde que comamos juntos e estejamos em diversão comunitária.
Porém, assim que veio a oferta de pedirmos pizza com groselha, recusei. Era melhor continuarmos apenas a conversar…
Ligia é assim, informal, sorridente, meio “mãezona”. Agitada, mistura temas, confunde-se com datas, personagens, mas sabe sustentar uma boa prosa. Foi minha líder por pouco tempo, mas o suficiente para eu aprender na prática alguns quesitos fundamentais na arte de liderar. Ela sabe como poucos reunir talentos diferentes em torno de si e dar apoio e orientação na medida certa. Sob sua gestão, trabalhei no melhor time composto em minha vida profissional. Éramos gerentes regionais espalhados pelo país e ela sabia nos reunir com graça, aproveitar as diferentes competências e torná-las complementares, além de nos manter unidos apesar das distâncias geográficas. Quando nos víamos pessoalmente, parecia que nos conhecíamos há anos. Os “follow-ups” eram verdadeiros aprendizados e sempre rolava uma festinha depois. Liderar passa por essa perspectiva de organizar um grupo em torno de uma causa, fazer com que todos os seus integrantes realmente se sintam parte de um propósito e vivenciem os valores que a sustentam.
Ligia foi mestra em obter isso de nossa equipe, com graça, leveza, tudo conforme a conduta de uma verdadeira assertividade. Nós conhecemos um ao outro na entrevista de seleção. De cara, gostei da informalidade:
- Muito prazer! Vou ali fumar esse cigarro e já volto.
Ainda mantém esse vício, fuma igual a uma caipora. Cumpriu a promessa, entramos numa sala fechada e conversamos por mais ou menos uma hora. Ouvia-me com atenção e fazia perguntas pertinentes, sabia de fato entrevistar. Deixou-me à vontade para ser transparente a meu respeito, de forma que saí confiante. Logo minha premonição se confirmou e a vaga era minha. Nos meus quinze dias de integração ela quase me deixou doido com os desafios iniciais. Um dos mais difíceis era averiguar anomalias numa de minhas unidades e, se necessário, demitir o coordenador.
Tão logo pisei na unidade, liguei para ela:
- O coordenador é feio, pobre e mora longe. Não pode ser incompetente.
Ela riu e me ganhou definitivamente:
- Você é o líder, confio em você. O que você decidir, eu endosso.
Um dos tópicos de que tratamos exaustivamente em cursos de liderança se realizou nesse momento – confiar no time. Em mais de duas décadas de profissão, colecionei chefes de todos os tipos, alguns que admiro até hoje e que merecem outros “causos”. Outros com quem aprendi o que não se deve fazer. Enfim, todos me influenciaram de alguma forma, mas Ligia reforçou em mim, com seu jeito de agir, duas características de uma boa liderança: apoio e confiança.

Voltei com meu veredicto:
- Preciso trabalhar nele algumas atitudes. No entanto, não houve negligência ou leviandade que justificassem a pena sumária de demissão. Só que ouvi dizer que querem a cabeça dele na matriz.
Aí veio o apoio:
- Deixa comigo! – falou com firmeza.
Dizem que todo baixinho é invocado e fiquei imaginando a reunião: ela riscando, ciscando, beliscando e fazendo valer nossa decisão.
Os “feedbacks” eram constantes, informais:
- Queria ter mais quatro de você para pôr um em cada unidade da sua região.
Vou te clonar!
- Não faça isso! Clonagem traz os defeitos também. – ríamos e brincávamos com os desafios, sem deixarmos de lado a seriedade deles.
Ligia tem a capacidade de tornar os problemas mais leves, com uma sapiência digna de admiração.  Acredito que desenvolveu essa característica por faltar-lhe organização e método.  A maior prova disso foi numa ocasião em que voltávamos de um evento de Atibaia para São Paulo. Com seu jeito desatento, dirigia, fumava, chupava bala, bebia água, falava da empresa, fumava, ouvia o rádio, conversava informalmente, fumava mais um pouco… Abastecemos quando ela percebeu que estávamos com o tanque praticamente vazio. Deu mais uma pitadinha e chegamos à capital. Com o trânsito típico da cidade, ela foi pegando desvios na tentativa, em vão, de sair do caos daquelas vias. Estranhei algumas iniciativas, mas fiquei “na minha”.
Pensei: “ela deve saber o que está fazendo”.
Não sabia! Subitamente parou o carro e interrompeu meu discurso:
- Onde estamos? – perguntou completamente perdida.
- Eu não sei como você conseguiu, mas viemos parar na zona leste.  – retruquei.
- Nunca estive aqui! – riu.
Sem qualquer risco de perder o emprego, só me restava rir dela!  Ainda tirei uma casquinha:
- Precisei vir de Minas Gerais pra te ensinar a chegar em casa.
Morei 20 anos em São Paulo e sabia o caminho para zona sul. Por sorte, meu voo para Uberlândia seria apenas na madrugada seguinte. Chegamos sãos e salvos, apenas com alguns litros a menos de combustível.
Como diz minha avó, Ligia é do tipo “avoada”, mas tem um coração que não é dela. Acho que o segredo de sua liderança mora nessa simplicidade, nessa forma de levar a vida com leveza. Nesse jeitinho de reunir as pessoas, orientar, apoiar, cobrar com sutileza.
Longe daquelas fotos montadas que ilustram cursos de liderança, e que mostram lideres austeros, centrados, Ligia antagoniza com essa figura hollywoodiana. Mas é a prova viva de como também se forma um líder.  Ela sabe conduzir o time, sem deixar de ser autêntica. B

(*) A arte de liderar I
Edição 38/janeiro 2011

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br