Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

João, o vigia!

POR Nege Calil*

(Capital Intelectual)

- Manda embora! – esbravejou Lourenço, o novo diretor de Logística!
- Coitado, seu Lourenço! Ele tá aqui há 23 anos… – argumentou a secretária.
- Não estamos aqui pra ter dó de ninguém, dona Magnólia! Decisão tomada! Encaminhe ao RH!
Magnólia saiu apreensiva, correu ao telefone e ligou pra Lurdes:
- Dona Lurdinha, bom-dia!
- Bom-dia! Que voz é essa, mulher? Tá ansiosa?
- Demais! A senhora não vai acreditar! O seu Lourenço mandou demitir o seu João, o zelador!
- Seu João? Por quê? – perguntou surpresa.
A história era longa, e Magnólia contou detalhe a detalhe. Era feriado prolongado, de 4 dias. Lourenço, cansado das últimas semanas, saiu em viagem com a família. No caminho foi abordado pelo vigia, desesperado, que não conseguia desativar o alarme recém-instalado em um dos depósitos da empresa. A guarda monitorada pressionava do lado de fora pela senha e João, assustado, ligou para o diretor:
- Que senha é essa, Dr.?
- Deixe que falo com eles, seu João! – retrucou Lourenço, ainda com paciência.
Dita a senha, Lourenço seguiu viagem. Meia hora depois, novo disparo, novo telefonema.
- Os homens tão aqui de novo, Dr.!
- Que foi, seu João? – com uma leve irritação.
- A maquininha disparou de novo… Tá um barulho dos infernos aqui!
Lourenço falou novamente a senha à segurança. Questionou a João o porquê dos disparos e a explicação foi:
- Cada vez que entro numa sala, a maquininha faz uns barulhos. Eu digito a senha, mas ela continua a fazer barulho e dispara.
- Seu João! – explicou Lourenço pacientemente – cada vez que entrar num ambiente, o sensor dispara um som que indica sua presença. Um som contínuo. Nessa hora, o senhor digita a senha. Aí ele solta outro som “tu tu tu” que indica que está desarmado. Se o senhor digitar a senha de novo, ele arma novamente. Entendeu? Por isso que dispara!
- Não tem esse “tu tu tu” não senhor! – afirmou João com veemência.
Com medo de algum defeito no sistema, Lourenço abortou a viagem sob protestos da família. Retornou o mais rápido que pôde, pois o sistema não podia falhar num depósito com milhões em mercadoria. Irritado, Lourenço fez a rota com João, instruindo-o passo a passo.
- Tá ouvindo esse barulho, seu João?
- Tô! “Pi pi pi”. O senhor falou “tu tu tu”…
Lourenço urrou por dentro! Queria voar no pescoço do velhinho que insistia na onomatopeia certa – “pi pi pi”.
Apesar da seriedade, Lurdinha não conteve o riso ao ouvir a história de Magnólia.
- É sério, Dona Lurdinha! Não ri não!
- Calma, Magnólia! Deixe que eu resolvo com o Lourenço.
Nora do fundador, Lurdinha precisava honrar seu compromisso, como diretora de RH, de profissionalizar a empresa. Contratou consultoria especializada, afastou boa parte da família da gestão, e Lourenço estava entre os novos diretores de maior competência e com excelentes promessas de reverter resultados. Ou seja, não podia desautorizá-lo, com risco, inclusive, de perdê-lo para o mercado. Seu João, por outro lado, já estava com 73 anos e gozava de muito prestígio junto à família, principalmente junto a seu marido (membro do conselho) e a seu falecido sogro. Demiti-lo seria uma afronta à memória do fundador, que repetia inúmeras vezes que colaboradores como João só sairiam de lá quando quisessem.
Armou-se de argumentos e foi falar com Lourenço.
- Bom-dia!
- Bom-dia! – respondeu ainda com um sorriso estampado.
- Preciso falar com você sobre seu João! Tem dez minutos?
- Decisão tomada! Na minha entrevista de seleção, você me garantiu autonomia! Não quero alguém na equipe com tamanha incompetência.
- Longe de mim querer desautorizá-lo. – retrucou como boa negociadora que era. Vim apenas trazer mais dados para balizarmos essa decisão. Afinal, 23 anos de casa tornam seu João um dos colaboradores com maior capital intelectual e que respeita nossos valores.
- Capital intelectual?! – ironizou Lourenço.
- Partindo do conceito que capital intelectual é o conjunto de conhecimentos que agregam valor a um produto ou serviço, é sim. Ele está entre os que mais representam nossa cultura, nossa filosofia.
- Estou ouvindo! – disse Lourenço, mostrando um pouco mais de atenção.
- Como você se somou ao nosso time há apenas 4 meses, é natural que conheça pouco da história do seu João.
Lurdinha discorreu sobre inúmeros exemplos. Comentou sobre o primeiro episódio de seu João na empresa, ainda com três dias no novo emprego. Como não conhecia o fundador, barrou a entrada dele por não estar com crachá.
- Desculpa, moço! Qualquer um pode chegar aqui e dizer que é o seu Antônio! Sem crachá, não entra!
- Eu sou o presidente, o dono! – insistiu.
- Vou ligar pro chefe de segurança. Se ele liberar…
O supervisor desceu quatro andares de escada em oito passos. Chegou aflito à portaria.
- Desculpa, seu Antônio! O vigia é novo!
Mais tarde o supervisor sugeriu que demitiria seu João. Antônio interveio, chamou seu João e, diante de um pequeno grupo de gestores e outros colaboradores, elogiou o vigia por sua atitude:
- Obrigado por tomar conta de meu patrimônio. São funcionários como o senhor que essa empresa valoriza. Não me conhecia, eu estou sem crachá, quebrando um procedimento da empresa. Errado estava eu, certo o senhor.
Nasceu assim a lenda do vigia João. Conta-se que numa véspera de Natal, ele trancava a empresa quando o portão principal quebrou. Na época, não encontrou uma alma disposta a consertar o portão. Celulares eram raros, não encontrou nenhum gerente da empresa para pedir socorro. Decidiu que passaria o Natal ali mesmo, vigiando o estoque. Ligou para a família, que levou o cachorro da raça fila e alguns pedaços da ave que o RH distribuía todo fim de ano.
Ele e o animal ficaram até a manhã do dia 26, para garantir que ninguém se aproveitaria do portão quebrado para roubar algo. Isso lhe rendeu um almoço com seu Antônio e respectivas famílias, com direito à fotografia que se encontra exposta até hoje em cima da TV na sala.
Em outra ocasião, numa das crises financeiras da empresa, o fundador assumiu pessoalmente algumas gestões. Não eram raras as noites em que o vigia, mesmo fora de seu turno, aguardava-o sair para garantir a segurança do local. Sob ameaça de que não ganharia hora extra, simplesmente respondia que aquela fase ia passar e era assim que sabia ajudar.
Essas e outras histórias convenceram Lourenço:
- Ok, ele fica! Porém, garanta que será treinado com o sistema de alarme.
- Tá garantido! – retrucou Lurdinha. Treiná-lo no sistema é fácil, difícil é encontrar outro “seu João” no mercado com atitudes tão comprometidas. Isso vale ouro, é um capital humano raro.
- Tem razão! Ele sabe ser vigia. Você me convenceu de que, para o papel para o qual foi contratado, sabe fazer muito bem o trabalho. Esse é o capital intelectual dele e, concordo contigo, tem grande valor.
- Obrigada por me ouvir! – agradeceu.
Lurdinha se levantou serena, aliviada por ter resolvido o conflito. Bem-humorada como ela só, já com meio corpo para fora da sala, não perdeu a chance de provocar o colega:
- Mas, cá entre nós, Lourenço! De onde você tirou o “tu tu tu”? Todo alarme faz “pi pi pi”!! Riu e saiu. Os que estavam do lado de fora juram que ouviram o barulho de um objeto pesado bater na porta, tão logo foi fechada.

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br