Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 44 - agosto 2011

Entrevistas atrapalhadas

POR Nege Calil*

(Seleção por Competências II)

- E foi isso que aconteceu! – complementou Mauro, enquanto ríamos de sua história. Bastou dizer que tive uma noite de sonhos nos braços de Morfeu para aquela inculta soltar a pérola: “A empresa não aceita homossexuais em seu quadro”.
- Além de preconceituosa é burra!! – reforçou Cida. Custava essa anta estudar um pouquinho e aprender que Morfeu é o deus grego dos sonhos? Bastava associar à morfina, que herdou o nome dessa lenda!
- Ridículo é ela associar homossexualismo à incompetência! – esbravejou Mauro.
Início dos anos 1990. Estávamos numa roda de amigos num barzinho qualquer em São Paulo, relatando experiências próprias de entrevistas de emprego em que fracassamos. Incrível como, na maioria dos casos, os entrevistadores cometeram falhas, como falar mais que o entrevistado, questionar assuntos totalmente fora do perfil da vaga e manifestar explicitamente preconceitos dos mais diversos tipos.

Nossa amiga Josilene foi outra vítima, passando por situação semelhante à que ocorrera com Mauro que, diga-se de passagem, não é homossexual e ficou sem a vaga por conta da ignorância da analista que o entrevistou. Josilene estava obesa, em parte por sua constituição genética, em parte devido a problemas hormonais. A entrevistadora olhou fundo em seus olhos e foi taxativa:
- Meu bem! Seu currículo é ótimo, mas não podemos ficar com você! Uma pessoa que não cuida de si mesma não cuidará bem da nossa empresa.
- Como assim? – retrucou Josilene.
- Flor, seus quilinhos a mais mostram que você não se importa com você, com sua saúde. Você me entende?
- Não sou gorda porque quero!
Foi em vão sua reclamação. Perdeu a vaga. Fico imaginando, hoje, o que essa entrevistadora falaria a respeito de Jô Soares, Luiza Helena, dentre tantos outros gordinhos de sucesso.    Faustão, hoje visivelmente mais magro, construiu uma carreira sólida como apresentador quando ainda tinha os “quilinhos a mais” que ela citou.
Mais bebidas e aperitivos, alguém lembrou da  Valquíria. Carinhosamente a tratávamos por Val. Ela estava desempregada há três meses. Sua antiga empregadora passara por uma reestruturação, pouco depois do plano Collor. Muita gente foi desligada e ela estava no mercado.
- Vamos torcer por ela! – comentou alguém. Eu a convidei para nos encontrar aqui, tão logo saia de uma entrevista.
Acabamos de brindar a ela, torcendo por seu sucesso, e eis que Val surgiu com uma expressão que denunciava o insucesso.
- Que houve, amiga? – perguntou Josilene receptiva, mostrando apoio.
- Vocês não vão acreditar! – respondeu Val.
- Que aconteceu? – perguntei preocupado e oferecendo uma cadeira para que se sentasse à mesa.
Ela se juntou a nós e contou o ocorrido. Assim que chegou à empresa, a recepcionista mascava chicletes e fazia a unha:
- Pois não!
- Vim para uma entrevista com Dona Maristela! Ela deve estar me aguardando.
- Pode subir, fofa. São dois lances de escada, ela fica no segundo andar.
Val, assim como Josilene, também estava com uns quilinhos a mais. Mas ser chamada de fofa fez com que seu sangue começasse a ferver. Relevou e subiu. Dona Maristela a recepcionou, com voz estridente, maquiagem exagerada, cabelo despenteado e umas pulseiras que faziam um barulho ensurdecedor.
- Entra, fofa!
“De novo!” – pensou. Mesmo assim conseguiu sorrir e cumprimentou a criatura escalafobética.
- Boa-tarde!
- Lindinha – complementou a entrevistadora – vou ali buscar uma água e já volto. Senta e me espera!
Val olhou o ambiente, que não a agradou muito. Mas não estava em situação de escolher, precisava do emprego. Suspirou e soltou o corpanzil num sofá.
Imediatamente escutou um choro canino e a tal Maristela, que entrava na sala nesse instante, gritou:
- Maria Eduarda!
- Não, meu nome é Valquíria!
- Levanta! Levanta! – gritava desesperada. Você sentou em cima da Maria Eduarda.

Val ainda levou alguns segundos para perceber que estava sufocando uma cadelinha pinscher de pouco mais de 3 quilos. Levantou-se assustada enquanto a dona pegava a cachorrinha e a afagava:
- Que foi, meu bem? A moça má te machucou?
- Desculpe, foi sem querer! – disse, ainda engolindo o “moça má”. Não vi que ela estava no sofá.
- Ela dorme aí nesse cantinho! – complementou Maristela. Coitadinha! Foi só um susto, neném!
Maristela ainda falou com a cadela que tremeu assustada por uns cinco minutos. Quando ambas se acalmaram, voltou-se para Val.
- Então, menina! Conta tudo! Que carreira maravilhosa é essa que vi no seu currículo?
Val começou a falar da carreira e, em menos de 30 segundos, foi interrompida:
- Essa cachorrinha é minha vida! Tão esperta, você precisa ver. Quer ver uma coisa?
Amassou um pedaço de papel e jogou. A cadela latiu, correu atrás da bola de papel e jogou no cesto de lixo.
- Viu como é inteligente?
- De fato! – concordou Val.
A cena se repetiu mais três ou quatro vezes, até que Val suspirou, indicando que estava ali para ser entrevistada.
- Desculpa! Eu me empolgo com ela. Me conta, você estava falando…
- Eu dizia que… – Val continuou a falar de sua carreira, quando foi interrompida de novo:
- Ai, menina! Você quer um café?
- Aceito! – disse Val, tentando ser cortês e controlando os nervos para ter a chance de finalmente falar de si.
- Vou lá embaixo pedir para a secretária trazer para nós.
Val não podia acreditar! Maristela desceu gritando pelas escadas, chamando pela secretária. Nisso, resolveu relaxar para não se dar mal na entrevista. Repetiu alguns mantras consigo mesma, enquanto abria a bolsa e pegava uma bala de menta.
Ao colocar a bala na boca, atirou o papel tentando acertar o cesto. No entanto, sua força foi excessiva e o papel voou pela janela. Junto com o papel, foi Maria Eduarda que, seguindo seus instintos, conseguiu apanhá-lo com a boca, mas esquecera-se que estava no segundo andar.
Maristela nem subiu! Berrava desesperada temendo pela morte da cadela. Val pegou seus pertences e desceu desesperada para ver o estrago que fizera. Felizmente foram somente duas patas quebradas, como pôde constatar com a secretária. Mas a dona da cachorra, sem nem olhar pra trás, saiu correndo rumo a um veterinário. A entrevista, que nem começara, acabara ali.
Não contivemos o riso! Sabíamos que Val estava triste, mas era impossível segurar as gargalhadas diante do fato. Mauro fechou com classe:
- Val, você pode ter perdido a vaga, mas ganhou medalha de ouro nas histórias dessa noite!

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br