Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 38 - janeiro 2011

Ana e o Rei

POR Nege Calil*

(A Arte de Liderar I)

Liderar é a capacidade de inspirar pessoas, trabalhar em equipe e encorajar atitudes éticas e focadas nos objetivos organizacionais. Fácil no conceito, difícil na prática; todavia, factível.
Trata-se de uma atividade perene, que passa pela arte e pela ciência de conduzir pessoas a bons resultados e à realização profissional, educando constantemente cada indivíduo e, concomitantemente, o grupo. Basta que um elemento saia ou entre e a dinâmica se torna outra. Afinal, seres humanos são assim: diante do mesmo ambiente e dos mesmos estímulos é perfeitamente possível nos depararmos com respostas diferentes. E cabe ao líder ser o ponto de equilíbrio desta seara!

Isso me lembra o “causo” de Ana e Henrique. Conheci ambos no início dos anos 90, quando ainda trabalhavam numa grande multinacional em São Paulo.
Ele, extremamente defensor dos interesses da empresa, focado em resultados a qualquer custo. Rapaz novo, com pouca experiência, trazia consigo a mensagem verbal e comportamental de total desconhecimento sobre como gente funciona.
Ela, também muito competente, costumava rir de seus próprios problemas, ironizando suas aflições como forma de atenuá-las. Bonita em sua juventude, exibia com orgulho as fotos de quando foi miss em sua  cidade natal, no interior de Minas. Vinte anos mais velha renderam-lhe vinte quilos a mais, que segundo a versão dela, tornaram-na uma “miss tura”. Por trás desse comportamento bonachão, reinava um poço de insegurança. Excelente profissional, era querida por muitos na empresa, fossem de seu departamento ou não. Seu líder anterior a Henrique sabia ler com precisão seu mecanismo funcional: eficaz nos resultados, leve nas relações, tinha necessidade constante de ser reconhecida para manter-se equilibrada. E com o apoio dele, ela progrediu muito na carreira.

Esse líder se aposentou no mesmo mês em que seu marido a abandonou. Tão logo Henrique assumiu a equipe, oriundo de outra filial, a mudança de cultura foi percebida como uma bomba. Dos quinze membros da equipe, apenas dois se identificaram rapidamente com o estilo dele. Três não se adaptaram e pediram demissão. Os demais lutaram bravamente para entender o novo contexto e manterem o emprego numa época de economia difícil.
Ana estava entre esses últimos e, curiosamente, seu comportamento mudou muito. Com nenhum feedback  sobre seu trabalho, sua insegurança transbordou em atitudes tensas e, por vezes, arredias. Angustiada por mostrar resultados, e com dificuldade de encarar seus problemas pessoais reforçados com a separação, tornou-se workaholic. Chegou a virar noites no escritório, defendendo a busca por uma perfeição imaginária.
Sua salvação veio através de uma situação inusitada. Esgotada fisicamente, ao entrar no banheiro para urinar, sentou-se no vaso sanitário, recostou a cabeça em uma das paredes laterais do reservado e adormeceu. Aos poucos foi deslizando para frente e ficou com a cabeça no canto entre a porta e a lateral. O sono se tornou pesado e seu ronco se misturou a gemidos agudos e intensos que assustaram algumas colegas de trabalho. As mais afoitas arrombaram a porta, convictas de que precisavam socorrê-la. Surpreendida pelo barulho, pela invasão e pela pancada na cabeça, aceitou de imediato a tese de que passara mal, a fim de diminuir o vexame que sentira. Feitos os primeiros socorros no ambulatório da empresa, sem qualquer indício de um mal estar físico, o médico foi taxativo: estresse. Ana foi afastada por alguns dias e a notícia foi o estopim das mudanças necessárias à liderança de Henrique.
Ele mostrou-se surpreso com o afastamento de Ana. Ao conversar com a analista de RH, elogiou o desempenho dela, afirmou categoricamente que ela estava entre os melhores profissionais com os quais trabalhou. A pergunta da analista deixou Henrique reflexivo por dias:
- Quantas vezes você disse isso a ela?
Henrique acreditava que isso era desnecessário. Seus dois únicos líderes lhe ensinaram que cada um deve buscar sua motivação e aperfeiçoamento e que o papel do líder é cobrar resultados. Correto este pensamento, mas muito incompleto! Pessoas são de fato responsáveis por suas carreiras, mas precisam de feedbacks que reforcem os bons desempenhos e orientem nas decisões erradas. Necessitam de ser tratadas conforme sua personalidade; alguns precisam de desafios, outros, de ordens, e Ana, de elogios.

O líder é aquele que deve entender qual o melhor estímulo para cada profissional de sua equipe, consciente de que o resultado é consequência dessa sua atitude. É o que ensina, mostra, acompanha, encaminha para estudos e treinos e vibra com os desempenhos. Precisa entender de gente, saber como funcionam as pessoas com as quais trabalha, compreender seus diferentes momentos e fases da vida.
Para sorte de Ana, Henrique se dispôs a aprender a liderar. Inteligente, percebeu que sua estratégia não iria gerar frutos por muito tempo. Ana foi o “primeiro parafuso que espanou” e, naturalmente, outros apresentariam problemas semelhantes cedo ou tarde.

Com o apoio da analista de RH, descobriu que seu apelido era “Henrique VIII”, numa alusão ao monarca inglês conhecido por seus atos absolutistas. Era percebido como um jovem mimado, que não se importava com ninguém, só com os números. Curiosamente, seu time começara a se moldar a esse formato. Descobriu que desde a sua vinda, sua equipe passou a ser percebida por outros setores como antipática, sisuda, contrariando os valores da empresa. O alto escalão já mostrava sinais de preocupação: os resultados estavam bons, mas a que preço?
Erroneamente, muitos líderes ainda se pautam na ideia de que o grupo deve se adaptar aos seus estilos. Quando isso não acontece, o primeiro impulso é trocar as pessoas, esquecendo-se de que demissão é caro para a empresa, tanto economica quanto emocionalmente. Muitas organizações perdem rios de dinheiro ao disponibilizarem seus talentos ao mercado por não saberem conduzi-los adequadamente. Desligamentos devem ser a última opção.

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br