Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 34 - setembro 2010

A Noiva de Maragogi

POR Nege Calil*

(Humor e Resultado)

Lá estava eu, estático, diante daquele clássico vestido de noiva de festas juninas. Na cama de meu colega de quarto, estava um vestido caipira e a mensagem foi compreendida – em pleno seminário da empresa, teríamos uma festa dos contrários (homens vestidos como mulheres e vice-versa).
- Ah, meu Pai! Exclamei num misto de espanto e indagação.
- Isso é coisa do Marcos, nosso diretor – retrucou meu companheiro.
- Chefe é como dentadura: demora, mas a gente acostuma! – brinquei.
- Ano passado foi a mesma coisa, e ele fez eu me vestir de “mulher maravilha”. Mas este ano, pelo jeito é você quem vai pagar o mico de se vestir de noiva! – gargalhou.
Seu riso o denunciou. “Meu modelito” era, na verdade, destinado a ele. Mas como chegou antes de mim ao dormitório, fez a troca. Custei a vestir a peça tamanho P, pois ele era bem mais franzino que eu. Entre ajustes da peça e novas piadas, um turbilhão de lembranças sacudiram minha cabeça.
Eu acabara de passar meus últimos sete anos em uma corporação de princípios rígidos, em que brincar não era bem visto. O bom humor típico de minha personalidade estava adormecido e, ali, diante do espelho, enquanto a maquiagem me transformava na “noiva”, peguei-me rindo de mim mesmo. Era um riso alegre, não pela tolice marcada pelo estereótipo da troca de papéis, mas pela possibilidade de expressarmos nossa humanidade sem os estigmas impostos pelo cargo de executivo.
Sou a favor da tese de que o bom-humor melhora resultados. Não me refiro a um humor hedonista, associado ao riso fácil e exagerado, que privilegie o prazer imediato em detrimento do aprendizado que obtemos com as pequenas derrotas da vida. Falo do humor que nos remete à compreensão e à arte de apreciarmos as situações do trabalho em conjunto como divertidas.
Ainda no começo da carreira, fui convidado a ministrar um treinamento sobre integração de equipes numa empresa de médio porte. Após dinâmicas, textos e reflexões, ambas as turmas manifestaram um ponto nevrálgico, que impedia a prática dos conceitos estudados – tratava-se de Dr. Gabriel, sócio majoritário. Saí pensativo da sala e, distraído pela urgência em esvaziar a bexiga, entrei em um banheiro que não havia frequentado antes naquela empresa.
Fui abordado por um senhor:
- Posso ajudá-lo?
- Não! Prefiro urinar sozinho – disse arrancando-lhe um sorriso misturado a uma indignação pela minha atitude.
- É que esse banheiro é destinado à diretoria…
- Eu não sabia! De qualquer modo, não consigo mais interromper. E acredito que não esteja fazendo nada que os diretores não fariam, não é mesmo?
Outro sorriso e, tão logo saímos, veio um convite para conversarmos em sua sala. Apresentei-me como o consultor contratado para o treinamento e descobri que ele era o tal Dr. Gabriel. Nada trivial permeou nosso diálogo, a partir de então. Confirmei sua rigidez de princípios e de atitudes. Em determinado momento, observei sobre sua mesa uma imagem que retratava a “A Balsa de Medusa”. Na tentativa de quebrar o gelo novamente, arrisquei:
- É você? – referindo-me a um dos personagens da pintura, de feição desanimada.
- Não sou tão carrancudo assim! – brincou. Conhece essa famosa tela de Gericault?
Após afirmar que sim, ouvi encantado suas teorias sobre a obra. Senti-me livre para expressar que ele era visto como carrancudo e que seus métodos formais não abriam caminho para a grande riqueza de conhecimento que ele possuía. Mostrei-lhe que processos e métodos são fundamentais para a organização de qualquer grupo humano, mas que o modo como os apresentamos é que azeita as relações.
Eram comuns os comentários de que eu havia feito bruxaria e de que “o homem tinha mudado”. Ele não mudou em nada seus conceitos e metas para a empresa – apenas adotou mais leveza no trato e passou a arriscar algumas piadas vez ou outra. Pouco a pouco, as resistências às suas diretrizes foram se esvaziando e, testemunhei, a empresa ganhou com isso.
Muito provavelmente, em outra circunstância, eu teria sido formal. Se eu soubesse quem era ele, antes do encontro no banheiro, não teria me exposto. O humor nos abriu caminho para ações que resultaram em muitos trabalhos proveitosos em conjunto.

Talvez a melhor tradução do que pretendo expressar esteja na máxima de Leon Eliachar: “Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros”. O humor na medida certa não dispersa, pelo contrário, aumenta a concentração. Desperta para a participação, para o ganho coletivo, para o prazer de fazer melhor. Bem administrado, o humor minimiza as tensões, substitui a coerção pelo estímulo à criatividade, propiciando que as atitudes profissionais migrem do “foco no problema” (busca frenética pelo culpado e lamentações acerca do fato) para o “foco na solução” (prazer em resolver).
As recentes tendências de gestão endossam sistemas mais abertos de comunicação e condutas mais flexíveis no relacionamento corporativo. Em tese, essas teorias deveriam resultar em um ambiente menos hostil nas organizações. Paradoxalmente, as mesmas tendências conduzem às pressões atuais por resultado e diferenciações, confundindo interlocutores e dificultando a mudança comportamental. Na ânsia de gerarmos resultados, nosso instinto primitivo de gestão (coerção e força) fala mais alto.
Quando consegui meu primeiro estágio numa grande corporação, passei pela apreensão típica da adaptação. Por mais receptivas que fossem as pessoas, havia certa formalidade no ar. O trabalho era mecânico, processual, raramente interrompido, a não ser por alguma oferta de cafezinho ou água.
Num determinado almoço, porém, nasceu uma nova perspectiva de relacionamento. As refeições eram servidas em bandejas de inox com divisões, ou seja, até o feijão e o arroz eram separados. Era um martírio reunir os alimentos para obter o sabor desejado. Ao cortar a carne, a pressão que exerci na faca disparou meu bife à bandeja de frente. O sujeito ali sentado era manobrista de trem, alto e forte. Distraído pela fome, simplesmente atirou seu garfo em “meu ex-bife” e o mordeu. A situação foi cômica – minha turma caçoava do ocorrido em risos contidos que explodiram tão logo terminamos e saímos do restaurante.
Aquilo foi motivo para eu mostrar meu lado “trapalhão” e abrir as portas de outras características, como pragmatismo, criatividade e ojeriza a processos muito detalhados. Pouco a pouco as pessoas se abriram, contando suas gafes e tornando nossas relações mais humanas, menos formais, sem perdermos o senso de urgência e profissionalismo. Pelo contrário, os resultados eram mensurados e melhor saboreados.
Voltando à noiva, ríamos naquela noite como crianças num cenário belíssimo à beira-mar. Antes que a festa terminasse, afastei-me do grupo e passei a observá-lo de longe.
Caminhei um pouco pela praia e, me comparando com a “Noiva de Copacabana”, ri comigo mesmo dessa “nova personagem” que marcou minha vida – a Noiva de Maragogi.
Reaprendi com ela a encarar o mundo corporativo, certo de que podemos produzir resultados com largos sorrisos na face. Nunca agradeci ao Marcos esse presente – a noiva me permitiu voltar a ser espontâneo e, com isso, abriu muitos caminhos em meu novo trabalho. Lá na praia, após tantas horas preso no seminário, sufocado por estatísticas e discussões teóricas acerca do desafio de RH, entendi finalmente a mensagem do novo diretor para nossa equipe – conquistar a alegria das pessoas para elas produzirem mais e melhor.

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br