Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

A festa de fim de ano

POR Nege Calil*

(Conhecendo pessoas)

Esta quem me contou foi Marlene, uma das profissionais que mais respeito no mercado. Recém-contratada, foi de imediato convidada para a festa de fim de ano da empresa. Participar de tais festas exige preparo emocional, pois, equivocadamente, líderes e profissionais de RH acreditam que estas têm o poder de integrar a equipe. Na verdade, se a equipe está integrada, esses eventos selam o bom relacionamento. Caso contrário, tudo não passa de comportamentos politicamente corretos.
Minha amiga percebeu que foi convidada mais por cortesia que por real espírito natalino. Ainda era uma estranha no grupo e o fato de estar desacompanhada alimentou seus sentimentos de desconforto com a situação. A festa seria na casa do diretor e os convidados eram uma mescla de familiares dele com pouco mais de uma dúzia de funcionários acompanhados de seus respectivos cônjuges. Estava ciente, ainda, de que seu nome não estaria no amigo secreto, pois chegara à empresa após o sorteio. Em suma, poderia ter inventado uma desculpa qualquer, ficar em sua zona de conforto e não enfrentar a situação. Teimosa como ela só, fez tudo ao contrário: aceitou o convite.

Com um sorriso estampado no rosto, foi cordialmente atendida pelo anfitrião tão logo tirou o dedo da campainha:
- Nossa, chegou cedo!
- Não havíamos combinado meio-dia? – respondeu Marlene, querendo cavar um buraco no chão envergonhada com sua pontualidade.
- Fique à vontade. Você não se importa que eu te deixe só para cuidar dos comes e bebes, né?
Durante os 15 minutos mais longos de sua vida, olhou para os muros do quintal, acompanhada de uma bebida qualquer e dos sorrisos esporádicos da babá de uma menina mimada, que até hoje não descobriu quem era. Chegaram os primeiros convidados. “Que alívio”, pensou. Tratava-se de um casal de amigos do dono da casa que, até hoje, Marlene não entendeu porque haviam se casado. Ele saiu por um motivo qualquer e Marlene insistiu em acompanhá-la:
- Detesto Natal! – disse a mulher, antes mesmo de dizer o nome.
- Por quê? – perguntou Marlene por educação, pois na verdade não estava interessada em sua conversa depressiva.

Curioso como muitos se entristecem com o Natal. Acredito que isto ocorra porque os verdadeiros motivos desse ritual exigem de nós uma predisposição a abrirmos o coração e repensarmos valores e modo de vida.
A moça respondeu, em meio a lágrimas contidas, os porquês de sua tristeza. Referiu-se a uma festa típica ocorrida há anos em que teve um problema específico.
- Você ainda vive aquela festa e deixou de aproveitar muitas outras que a sucederam, inclusive esta. Tem certeza de que vale a pena? – respondeu Marlene, tirando inspiração sabe-se Deus de onde.
A tal moça sorriu e agradeceu. Marlene soube depois que ela a elogiou, pois havia salvado o Natal dela. Minha amiga não fez nada, apenas não alimentou a autopiedade daquela criatura. Incrível como os melhores presentes são os que menos esperamos. No dia a dia das empresas, pequenas atitudes como essa são as que mais causam impacto. Mais importante que grandes eventos motivacionais, muitas vezes luxuosos e com gurus caríssimos, cuidar do bem-estar diário dos colaboradores é o que de fato faz a diferença.

Outros convidados preencheram a festa. Marlene foi apresentada a muitos e, ao contrário do que imaginou, pôde aproveitar algumas conversas. Riu, refletiu, trocou ideias e conhecimentos. Claro que outros tipos estranhos também surgiram, mas ela atesta que aprendeu muito com eles.
Uma senhora, leitora assídua de revistas de fofoca, provocou-a. Insistia em querer conversar sobre a vida dos artistas. Marlene mal acompanhava as novelas, que dirá saber quem fica com quem na vida real. E a tal senhora parecia um quindim falando, numa alusão ao seu biotipo associado à vestimenta, monocromaticamente amarela. Enquanto respondia com monossílabos, Marlene se distraiu observando seus exagerados colares e brincos. Antes que a confundisse com a árvore de Natal, e na tentativa de se livrar da interlocutora, resolveu arriscar um palpite leviano:

- A maioria de nossos artistas sai do anonimato para a vida pública em questão de dias. E não é fácil lidar com a fama.
Surpresa, Marlene recebeu uma aula de sociologia artística. Engoliu seu preconceito junto com um pedaço de peru. Incrível como alguns estereótipos nos impedem de reconhecermos talentos. Aquela senhora se mostrou uma grande comunicóloga, conhecedora de aspectos do comportamento social que explicariam muitas dúvidas de executivos. No cotidiano das empresas, não é incomum criarmos paradigmas acerca dos profissionais, impedindo-os de se expressarem. Quanto capital intelectual fica desperdiçado, pelo simples fato de não criarmos oportunidades de redes de relacionamento e de ouvirmos a todos.
Marlene já se sentia parte da festa quando começou a reparar na decoração. Os enfeites eram muitos, parecia mais carnaval. Aos seus ouvidos chegava uma música que em nada lembrava as tradicionais canções natalinas. Fizeram o amigo secreto, abraços cheios de ternura se misturaram a outros meramente sociais. Confidenciou-me, mais tarde, que chegou a sentir o clima de fraternidade no ambiente, o que propiciou o alívio de problemas que foram deixados para trás.
Mesmo ela, costumeiramente desatenta, observou o quanto esses momentos trazem indicadores interessantes acerca de relacionamentos. Conseguiu se divertir, sem deixar de se emocionar diante de pequenas alegrias proporcionadas por uma brincadeira simples formatada pela troca de presentes. Por trás daqueles pequenos gestos, havia um desejo real, mesmo que contido e não expresso, de que todos se harmonizassem.
Já a caminho de casa, ainda solitária, Marlene percebeu o quanto somos semelhantes em nossas carências e que nossa integração depende de pequenos gestos. Emocionada, calada, mas com pensamento firme, desejou sinceramente que todos aqueles viventes que brevemente passaram por sua vida tivessem realmente um feliz Natal!

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br