Causos Empresariais

Revista Mercado Edição 35 - outubro 2010

A cueca voadora

POR Nege Calil*

(Seleção por competências)

Seleção de pessoas é um grande desafio, muitas vezes negligenciado e administrado por processos rotineiros, excessivamente metódicos. Geralmente os líderes e a turma do RH ficam mais preocupados com os preenchimentos de formulários de “requisição de vagas” do que com a verdadeira responsabilidade de trazer a pessoa certa para o time. Cansei de ver testes serem aplicados mecanicamente e conversas superficiais sobre o que está escrito no currículo serem chamadas erroneamente de entrevistas. Faltam análises, sobram palavras. Conheço muita gente que foi vítima de processos seletivos mal feitos, comprometendo seriamente suas carreiras.
Em compensação, tem um causo de um garoto que se deu muito bem, ao encontrar a selecionadora certa…
Encontrei Lauro pela primeira vez no fim dos anos 90! Olhos vivos, está sempre pensando e concluindo coisas rapidamente, envolvido num processo de criação de ideias que surpreende qualquer um. Inquieto, brincalhão, nunca o percebi se concentrando por mais de 20 minutos.
Lembro uma reunião de que participamos com a alta direção da empresa em que o discurso entediante de uma autoridade o levou a brincar com a caneta. Ora batia, ora desenhava, chegou até a imaginá-la como um foguete, ilustrando uma atitude infantil com um som característico de motores. Olhares repressivos inibiam seus gestos e por alguns minutos ele se atentava ao tema. Ou pelo menos fingia! Não tardou a transformar a caneta numa hélice, girando-a de forma que voou e caiu dentro do copo de chá do orador. O líquido derramou, papéis se molharam e a dispersão estava feita. Em meio a risos contidos, duas ou três pessoas se ofereceram para buscar materiais de limpeza. Reunião interrompida, Lauro também saiu da sala em busca de um pano ou coisa semelhante. Os colegas voltaram, ele não. Mais tarde justificou que parou na mesa da nova secretária, convidou-a para almoçar e se esqueceu de voltar.
Ele é assim! Disperso, nem um pouco metódico, não para em nenhum relacionamento. Chegou a esquecer uma namorada dentro do cinema. Saiu no meio do filme para comprar alguma guloseima, encontrou um amigo e foram juntos a uma loja de aeromodelismo. Lembrou da moça duas horas depois.
Por incrível que pareça, é profissional bem-sucedido. Contou-me como sua carreira começou: veio do interior para estudar na capital e, sustentado pelo pai, morava sozinho num pequeno apartamento. Numa tarde qualquer, bebia com os amigos quando se lembrou de que tinha uma entrevista de seleção. Saiu correndo, aflito, ciente de que não poderia perder essa chance por dois motivos: era um trabalho que desejava e estava sob ultimato do pai, que o ameaçara levar de volta ao interior para fazer carreira na loja da família.
Correu como um raio para casa e, tão logo entrou, tirou a roupa para um banho. Curiosamente, ele se livrou do jeans juntamente com a cueca, ficando essa peça presa na costura interna da calça. Mal se enxugou, vestiu uma camiseta e uma cueca limpa e usou o mesmo jeans sem se dar conta de que a cueca suja ficara dentro da calça.
No ônibus, a caminho de seu futuro emprego, sentiu algo incomodando, mas a tensão pela entrevista só lhe permitiu pequenos ajustes no vestuário. Chegou no horário exato, disfarçando a respiração ofegante por ter subido cinco andares a pé, devido à demora do elevador. A recepcionista, com ar de poucos amigos, logo o anunciou.
Sentado à frente de Janete, a mulher que viria a ser sua gerente, começou a responder às perguntas comuns de um começo de entrevista. Mais relaxado, a cueca voltou a incomodá-lo e disfarçadamente ele se remexia. Seus movimentos levaram a peça para sua coxa e, em meio ao diálogo, seus pensamentos paralelos tentavam descobrir o que poderia ser aquele volume. Como estavam separados por uma mesa de madeira larga, conseguiu cruzar as pernas e aos poucos enfiar a mão por dentro, começando pelo tornozelo.

Um de seus dedos tateou o tecido e, após algum esforço, conseguiu enganchar o elástico. Indignado consigo mesmo por não descobrir o que era aquilo no interior da calça, continuou firme em suas respostas, ao mesmo tempo adentrando mais ainda seu braço e obtendo mais firmeza ao forçar o elástico com as mãos.
O diálogo transcorria num misto de investigação acerca de seus conhecimentos técnicos e de suas atitudes de iniciativa. A gerente era incisiva em suas perguntas, tentava cercá-lo de todos os modos para certificar-se de que Lauro era mesmo criativo, condição indispensável para a vaga a que concorria. Num gesto súbito de força, a cueca se soltou e ele não evitou que ela voasse para cima de um porta-retrato cuidadosamente exposto sobre uma peça decorativa. De imediato, ele exclamou na maior “cara de pau”:
- Se for preciso, tiro a cueca sem tirar a calça! Garanto pra senhora que se um trabalho tem que ser feito, ele será feito!
Surpresa com a cena, a gerente encerrou a entrevista. Agradeceu a presença dele e prometeu um retorno, fosse positivo ou negativo. Lauro se levantou e, já próximo à saída, precisou ouvir:
- Moço! Pode levar sua cueca?
Dois dias depois, foi surpreendido com a notícia de que estava contratado.
Comemorou muito e deixou uma excelente obra nos seis anos em que prestou serviços para aquela organização. Saiu para uma oportunidade de ouro, na qual se encontra até hoje.
Conheci Janete numa festa promovida por Lauro. Rindo do episódio, convenceu-me de que a “cueca voadora” fora seu critério de desempate com outro candidato. Ali ela percebeu o seu grande poder criativo, sua rapidez de raciocínio e flexibilidade para sair de uma situação, no mínimo, vexatória.
Muitos selecionadores inexperientes provavelmente o reprovariam. Afinal, sua atitude foi contra tudo aquilo que se prega como comportamento adequado numa seleção. Roupas, posturas, verbalizações ensaiadas costumam cegar a busca pelas verdadeiras virtudes de um candidato. Além do método, a seleção exige dos entrevistadores uma percepção ímpar da situação, em que seja possível “enxergar o filme da vida profissional e dos talentos que o candidato reúne” e não apenas a “foto batida no momento”. Infelizmente isso não se ensina, é uma arte que se desenvolve com muita sensibilidade e conhecimento de como gente funciona.

Sorte de Lauro!

Mérito de Janete!

*Nege Calil é consultor e especialista em gestão de pessoas
negecalil@inthegrath.com.br