Entrevista

Revista Mercado Edição 55 - fevereiro 2013

Vidas em jogo

Por Jacqueline Oliveira (Serifa) Fotos Evaldo Pighini

Sara Vargas, idealizadora da ONG Pontes de Amor, em Uberlândia, que surgiu com o propósito de assumir junto a casais os desafios e as burocracias para adoção de crianças e adolescentes

Seres humanos precisam de afeto e vínculos familiares na construção de suas identidades pessoal, social, cultural, e isso não se encontra numa instituição, por melhor que ela seja, mas sim, num lar, no seio de uma família

Conforme o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), das 5,4 mil crianças e jovens disponíveis para adoção no Brasil, cerca de 4,3 mil (80%) estão na faixa etária acima de 9 anos, número que desfavorece o processo no Brasil. Nesse contexto, uma análise do Departamento de Pesquisas Judiciárias (DPJ) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que 56% dos adotantes preferem crianças com até 3 anos, porém, apenas 3% das crianças e adolescentes inscritos no CNA estão dentro dessa faixa etária. Além disso, como se não bastasse a questão da idade, o perfil mais desejado pelos casais interessados em adotar engloba ainda cor (branca) e sexo (femino). Assim, tudo isso acabam por se constituírem em fatores que limitam muito o processo de adoção.
Essa é uma realidade que preocupa e que deveria demandar cada vez mais o envolvimento de instituições e pessoas interessadas em ajudar a atenuar as diferenças e preconceitos que ainda emperram o processo de adoção no Brasil, afinal, são vidas que estão em jogo, são seres humanos. Em Uberlândia, por exemplo, a cidade acaba de ter consolidada a primeira organização de suporte à adoção de crianças. Trata-se da ONG Pontes de Amor, idealizada pelo casal Rodrigo Rangel e Sara Vargas, que para desempenhar os seus propósitos atua com diversas parcerias, incluindo a Vara da Infância e Juventude, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outros profissionais ligados à área da saúde, jurídica e da comunicação.
Quem conta à Revista Mercado detalhes do surgimento da Pontes de Amor – que partiu de uma experiência pessoal do próprio casal Sara e Rodrigo -, os desafios do projeto, processos e burocracias na adoção de crianças e adolescentes é a idealizadora Sara Vargas.

Mercado – No Brasil existem cerca de 5,2 mil crianças e jovens que aguardam por uma adoção. Por que tantas crianças estão sem família?

Sara Vargas – São crianças que por proteção foram retiradas judicialmente do convívio familiar, outras foram abandonadas. Após a tentativa frustrada de reintegração familiar, as crianças e adolescentes são encaminhadas para adoção. Infelizmente, muitas dessas não atendem às características exigidas pela maioria dos pretendentes à adoção: ser menina, com até 3 anos de idade, de cor branca e sem problemas de saúde ou irmãos. Há muito mais pretendentes à adoção do que crianças a serem adotadas, mas precisamos levar estes pretendentes a refletir um pouco mais sobre sua motivação à parentalidade e o perfil da criança desejado. Afinal, quando engravidamos não sabemos se o nosso filho biológico irá se parecer conosco ou com um tataravô distante, nem se será privilegiado com saúde perfeita.

O que é necessário para entrar com um pedido legal de adoção?

Sara Vargas – Procurar a secretaria da Vara da Infância e da Juventude do Fórum de sua cidade de residência munido de documentos pessoais. Lá o proponente responderá um formulário e receberá uma lista de certidões que deverão ser providenciadas. O serviço técnico irá fazer um estudo social da família, que será encaminhado ao juiz, que deferirá ou não a habilitação para adoção. Após habilitado, o nome do pretendente segue para o Cadastro Nacional da Adoção.

Em média, quanto tempo demora a adoção de uma criança ou adolescente?

Sara Vargas – Varia muito. Não é possível precisar um período. O perfil da criança desejada também é um fator determinante quanto ao tempo. É muito comum os pretendentes à adoção portarem grande ansiedade quanto ao tempo. No entanto, mesmo filhos biológicos podem ser fruto de longas esperas e processos de tratamento e tentativas.

“Precisamos levar estes pretendentes a refletir um pouco mais sobre sua motivação à parentalidade e o perfil da criança desejado”

Como você avalia a legislação que rege o processo adotivo no Brasil?

Sara Vargas - A legislação é coerente, mas infelizmente nem tudo que a ela prevê é cumprido. Os prazos judiciais, por exemplo, muitas vezes, por excesso de processos e falta de pessoal no Judiciário não são cumpridos da maneira devida.

Com base no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), é possível perceber que a preferência dos inscritos é por crianças do sexo feminino, de cor branca e com faixa etária de até três anos. Em sua opinião, estas exigências dificultam o processo?

Sara Vargas – Sim, os casais que abrem o perfil para crianças maiores, de todas as raças, sem estabelecer gênero, já ampliam as possibilidades, aproximam o perfil desejado ao perfil de crianças disponíveis à adoção e, consequentemente, o processo tende a ser mais rápido.

É sabido que o conceito de família mudou. É comum vermos pai ou mãe “solteiros”. Entre os pré-requisitos para adoção é necessário comprovar união estável?

Sara Vargas – Não. Não é necessário ser um casal para adotar.

Quais as exigências pedidas?

Sara Vargas – Podem adotar homens e mulheres, não importa o estado civil, desde que sejam maiores de 18 anos de idade, sejam 16 anos mais velhos do que o adotado e ofereçam um ambiente familiar considerado adequado. A avaliação do ambiente familiar é feita por psicólogos e assistentes sociais indicados pela Justiça.

Em quais parâmetros a Vara da Infância e da Juventude se baseia para declarar se uma criança ou adolescente está apto a receber uma nova família?

Sara Vargas – Quando encerrarem todas as tentativas de reinserção dessa criança ou adolescente à sua família biológica e averiguada a impossibilidade do retorno ao convívio dessa família é desfeito este vínculo por meio da destituição do poder familiar. Isso ocorre por meio de decisão judicial após um processo, que corre em segredo de justiça.

Agora falando sobre a Pontes de Amor. Como surgiu a ideia de criar uma organização de apoio à adoção em Uberlândia?

Sara Vargas – O Projeto “Pontes de Amor” nasceu do desejo de promover reflexões relevantes ao processo do gerar no coração a vontade da adoção. Meu esposo, Rodrigo Rangel e Pereira, e eu percebemos no decorrer de nossas experiências pessoais, no processo de gerar filhos do coração, a necessidade e importância de um Grupo de Apoio à Adoção em Uberlândia e sonhávamos com isso há cerca de oito anos. Temos quatro filhos do coração, sendo um biológico e três por adoção. Experimentamos a adoção tardia (adoção de crianças com mais de três anos) e inter racial. Vivemos um processo jurídico muito rápido e outro extremamente longo. Experimentamos as alegrias e os desafios trazidos pelos filhos. Percebemos a importância de apoio para aprender a superar e vencer estas dificuldades.

Quais as maiores dificuldades encontradas para colocar o plano em prática?

Sara Vargas – Na verdade não tem sido difícil, mas sim trabalhoso. Creio que o maior desafio no primeiro momento é de envolver as pessoas na ação. Todos acham o projeto lindo e até se emocionam, mas ainda são poucos os que realmente se dispõem a “pôr a mão na massa” ou no bolso.

E as dificuldades para continuar a ONG? O poder público está envolvido e contribui efetivamente?

Sara Vargas - Temos percebido “ventos” muito favoráveis. O Poder Público tem sido parceiro, as portas têm sido abertas e as parcerias desenvolvidas. Sabemos que toda a rede envolvida nas questões das garantias de direitos das crianças e adolescentes precisa trabalhar cada vez mais em unidade de pensamento e objetivos, no bom exercício de cada parte e exercendo um papel complementar em seu funcionamento. Sabemos que na medida em que esta unidade e complementaridade crescerem, isso repercutirá em resultados favoráveis a estas crianças e adolescentes.

Atualmente, cerca de 30 voluntários estão envolvidos neste projeto. Qual papel estas pessoas desempenham?

Sara Vargas - Na verdade, já somos mais de 30 voluntários trabalhando de forma eficaz, cada um segundo o seu potencial e utilizando suas habilidades. Temos administradores, publicitários, jornalistas, artistas gráficos, fotógrafos, psicopedagogos, psicólogos, conselheiras tutelares, coaches, arquitetos, advogados, comerciantes, pais por adoção e outros. Cada um contribui com o que sabe fazer. Tem trabalho para todos.

A Pontes de Amor carece de novos voluntários? Qual o perfil exigido?

Sara Vargas – Sim. O perfil exigido é de pessoas que sejam cidadãos do bem, comprometidos com o desenvolvimento humano e os direitos das crianças e adolescentes. Precisamos de todos. Mas há necessidades especiais de profissionais das áreas de psicologia, pedagogia, psicopedagogia, assistência social e direito.

Além do voluntariado, existem outras formas de contribuir?

Sara Vargas - Sim. Nosso voluntariado passa por cinco caminhos. Entendemos que podemos ser “pontes”: Ponte de Ação – envolvendo-se no grupo de trabalho; Ponte Intercomunicante – divulgando o Pontes de Amor à sua rede; Ponte de Interligação – facilitando parcerias relevantes (com empresas, faculdades, instituições…); Ponte Entre o Céu e a Terra – intercedendo pelo projeto; Ponte Objetiva – investindo recursos financeiros e outros recursos em projetos e ações específicas da ONG.

Até onde a Pontes de Amor, em parceria com outras instituições, pode colaborar para adoção de crianças na cidade e região?

Sara Vargas – Nosso compromisso é de promover adoção e convivência familiar e comunitária por meio de algumas ações como auxiliar, orientar e favorecer troca de experiências; oferecer suporte no antes, durante e pós adoção; promover reflexões a respeito da adoção tardia, inter-racial, de portadores de doenças, de crianças e adolescentes com irmãos; acompanhar as mães que entregam seus filhos para adoção; promover ações que beneficiem as crianças e adolescentes em acolhimento institucional; contribuir para que a sociedade tenha uma nova consciência sobre adoção; promover estudos, rede de relacionamentos e compartilhar informações e experiências relativas à adoção, entre outras.

: “já somos mais de 30 voluntários trabalhando de forma eficaz, cada um segundo o seu potencial e utilizando suas habilidades. (...) Cada um contribui com o que sabe fazer. Tem trabalho para todos”

Quais os próximos objetivos da Pontes de Amor? Onde pretendem chegar com este projeto?

Sara Vargas – Queremos que todas as crianças e adolescentes de Uberlândia desfrutem do cumprimento do direito legal de viver em família e desfrutar de convivência social. Para isso, estamos trabalhando por meio de reuniões mensais com profissionais especializados e capazes de agregar valor, conhecimento e co-construir com os pais por adoção e pretendentes à adoção um caminho mais saudável e funcional, capacitando-os a lidar com possíveis crises, reduzindo o número de devolução de menores e encorajando, quando possível, a adoção de crianças normalmente rejeitadas pelo perfil dos pretendentes à adoção. Em 2013, desejamos construir e fortalecer vínculos afetivos entre alunos de ensino médio e crianças e adolescentes acolhidos em instituições para troca de experiências, tecer redes sociais, proporcionar convivência comunitária, responsabilidade social, combater o preconceito e possibilitar a troca de conhecimentos (música, reforço escolar, língua estrangeira, dentre outros). Temos objetivo ainda de oferecer acompanhamento terapêutico, psicológico e psicopedagógico às famílias e crianças no pré e pós-adoção, auxiliando as crianças e adolescentes a processarem suas perdas (família biológica, instituição) para que se abram e construam novos vínculos, entre outras ações que fazem parte do nosso planejamento.

A senhora é mãe de quatro filhos, sendo um biológico e três adotivos. Conte-nos sobre esta experiência. As crianças se relacionam bem entre si e toda a família?

Sara Vargas – É uma longa, desafiante e linda história, com momentos muito difíceis que foram e têm sido superados pelo amor, persistência, fé, esperança e amizade. São quatro irmãos que se amam, que brincam, que brigam, que competem, que choram, que riem, que obedecem e desobedecem, que se abraçam, que se beijam, que se “ pegam”, mas que acima de tudo não sabem viver um sem o outro. Estou inclusive escrevendo um livro sobre nossa história, associado a conceitos teóricos e práticos relativos à adoção e a formação de vínculos. Espero conseguir lançá-lo em 2013.

Para finalizar, qual a mensagem você deixa para as pessoas que sonham em adotar uma criança?

Sara Vargas – Não existem famílias perfeitas, existem famílias vencedoras. Não existem histórias perfeitas, mas existem histórias de superação, de conquista. “Um sonho que sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é realidade”, já dizia Raul Seixas.

Então, não sonhe só, una-se a pessoas que possam colaborar com o êxito de seus sonhos. Nós do Pontes de Amor estamos comprometidos em desenvolver novas amizades e colaborar com o tracejar de lindas histórias de amor. O que é muito precioso custa. Não desista nunca dos seus sonhos. Se está difícil ou demorando, paciência, é porque o que vem deve ser de muito valor.