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Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Uma cidade chamada UFU

POR Margareth Castro FOTOS Milton Santos

Com orçamento superior ao de muitas cidades do Triângulo Mineiro, de Minas e do Brasil, a Universidade Federal de Uberlândia está entre as 15 mais do ensino superior do país

Entrada principal de um dos vários campi da UFU, o Campus Santa Mônica

Com um orçamento de aproximadamente R$ 800 milhões – valor de 2010 – e uma população estimada em 25 mil pessoas, entre estudantes e servidores, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) pode ser comparada a muitas cidades brasileiras. Na região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, por exemplo, Tupaciguara, Estrela do Sul, Monte Alegre de Minas e Campina Verde possuem menos habitantes e investimentos muito inferiores ao que contempla a verba orçamentária anual da UFU. Outro bom exemplo do tamanho do orçamento dessa Universidade uberlandense pode ser medido num comparativo com o do município de Uberaba, que para 2011 é de R$ 860 milhões (aprovado pela Câmara de Vereadores no dia 9 de dezembro), ou seja, apenas R$ 60 milhões mais que o da UFU deste ano que se encerra. Outra comparação relevante pode ser feita entre os orçamentos da UFU e o do próprio município onde está sediada: Uberlândia, cujo valor “reestimado” para 2009 foi de aproximadamente R$ 910 milhões, portanto, também números muito próximos. Essas comparações servem de parâmetro para dimensionar a grandeza da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e, por que não, equiparar a sua administração à de uma cidade.

Há ainda outros números da Universidade Federal de Uberlândia que impressionam e que expõem bem a grandeza da instituição. Abrangendo uma área total de 22.421.609.99 metros quadrados em terrenos, a UFU tem 221.094,59 metros quadrados de área construída, dividida em quatro campi (Santa Mônica, Umuarama, Educação Física e Pontal, em Ituiutaba). Com apenas 40 anos de existência – foi federalizada em 1976 -, já está entre a 13ª e 14ª das 56 universidades do país, não só em termos de tamanho, sendo considerada de porte médio, mas, principalmente, pela qualidade dos cursos e da assistência. Em termos de abrangência, a UFU possui intercâmbio com mais de 100 universidades no Brasil e no mundo.

Assim como uma cidade, a UFU também possui uma administração subdividida, semelhante ao que ocorre nos governos municipais que, no caso da Universidade, englobando reitoria, pró-reitoria, colegiados, prefeitura, coordenação de cursos e outros. De acordo com o reitor da Universidade Federal de Uberlândia, Alfredo Júlio Fernandes Neto, é uma administração colegiada. Ele explica que os recursos são oriundos dos governos federal – maior parte -, estadual e também municipal, especificamente no Hospital de Clínicas, que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Vista parcial dos três campi da UFU, em Uberlândia: Santa Mônica, Umuarama e Educação Física

O reitor Alfredo Júlio Neto tem sob a sua administração um orçamento de mais de R$ 800 milhões (valor de 2010), maior que muitas cidades brasileiras, quase o mesmo de uma cidade como Uberaba (para 2011 é de R$ 860 milhões), com seus quase 300 mil habitantes, por exemplo

Alfredo Júlio norteia a UFU de uma maneira objetiva e simples, mas com a propriedade de quem conhece, e bem, a instituição que administra. “A UFU é uma instituição de educação e aprendizagem. Sabemos que a Universidade não ensina, mas os alunos que aprendem e nós temos que ser facilitadores e motivadores dessa aprendizagem”, ressaltou. Segundo ele, a UFU não é a Universidade Federal de Uberlândia, mas a Universidade Federal em Uberlândia.

A UFU em números
Campi: 4
Faculdades: 17
Institutos: 11
Bibliotecas: 5
Laboratórios: 384
Hospitais: 4
Fazendas Experimentais: 4
Restaurantes Universitários: 4
Anfiteatros: 15
Emissora TV: 1
Emissora Rádio: 1
Imprensa: 1
Incubadora: 1
Reserva Ecológica: 1
Centros de Convivência: 2

Economia

O orçamento milionário da Universidade Federal de Uberlândia faz muito bem para a economia de Uberlândia e também da região. Além dos empregos gerados, a instituição possui mais de 20 mil alunos (graduação e pós-graduação), sendo que 80% são oriundos de outras cidades e estados, que vêm para Uberlândia estudar, trabalhar e viver. No município, essas pessoas gastam com moradia, saúde, alimentação, transporte e no comércio em geral.
Por outro lado, a maior parte do orçamento da UFU é aplicada em pessoal. Só a folha de pagamento mensal é superior a R$ 45 milhões, dinheiro que ajuda e muito na movimentação da economia local.  “É difícil imaginar o que seria de Uberlândia hoje sem a Universidade. É todo esse contingente movimentando a economia, promovendo arte e cultura na cidade”, ressalta o reitor Alfredo Júlio.
Porém, o maior investimento é feito na área de ensino, como salas de aula, equipamentos, infraestrutura (água, energia e telefone) e ainda no apoio estudantil para os alunos de baixa renda, por meio das bolsas moradia, transporte e alimentação e ainda na saúde dos estudantes.
Na distribuição dos recursos, o curso de Medicina é o mais oneroso para a UFU. Segundo o reitor, o investimento se faz necessário por causa do Hospital de Clínicas. Segundo ele, se a estrutura fosse apenas para formar os alunos, ou seja, realmente funcionasse como um hospital escola, ele seria a metade do que é hoje, com 200 leitos. “No entanto, nosso hospital não é mais só para formar médicos, já que a própria faculdade de Medicina tem três cursos (Medicina, Enfermagem e Nutrição), mas toda a área de saúde. Além do quê, o nosso hospital é o único hospital SUS da região e que, portanto, desempenha papel de atenção à saúde e extrapola a função fundamental e isso aumenta a necessidade de investimentos”, explica.

O Hospital de Clínicas da UFU e o único hospital público de referência para média e alta complexidade da região, prestando atendimento para uma população de quase três milhões de pessoas de 86 municípios do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba, Centro Oeste e Sul Goiano. Com 503 leitos e 3.385 funcionários, o hospital realiza por dia uma média de 2.650 atendimentos, sendo o maior hospital prestador de serviço pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de Minas Gerais

Laboratório da estatal Petrobras, uma das empresas parceiras da UFU

As parcerias firmadas com empresas e órgãos federais ajudam a preparar a mão de obra para o mercado e a fomentar as pesquisas. De acordo com o reitor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alfredo Júlio Neto, as oportunidades de parcerias vêm por meio dos órgãos de fomento à pesquisa, como o Caps, CNPq e Finep, que publicam editais de pesquisas em determinadas áreas. Segundo ele, as empresas públicas e privadas sabem que nas universidades estão as inteligências e encontrar mão de obra (pesquisadores) é mais fácil.
Uma das parcerias da Universidade é com a Petrobras. A empresa possui na UFU o Laboratório de Tecnologia em Atrito e Desgaste (LTAD), voltado para o desenvolvimento de soluções tecnológicas para a área de petróleo e gás. Entre as atividades realizadas no novo laboratório, que pertence ao conjunto de laboratórios da Faculdade de Engenharia Mecânica, estão a avaliação de corrosão/erosão em componentes utilizados na exploração e produção de petróleo e o desenvolvimento de tecnologias e equipamentos para avaliação de propriedades mecânicas in situ.

“Além da Petrobras, a UFU também tem parceria com a Embraer para desenvolver  projetos de pesquisa. Também é voltada para o curso de Engenharia”

“Aqui na UFU já são dois laboratórios da Petrobras. A empresa constrói e entrega aos nossos pesquisadores para que eles desenvolvam suas pesquisas”, disse o reitor, Alfredo Júlio. Além da Petrobras, a UFU também tem parceria com a Embraer para desenvolver projetos de pesquisa. Também é voltada para o curso de Engenharia.
O reitor conta que a UFU está com um projeto de parceria em andamento com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo ele, o processo está bem adiantado, mas com as mudanças de direção, foi preciso retomar as negociações do começo. A ideia é fazer a certificação de vários produtos que estão no mercado.  “Temos condições, em Uberlândia, de testar vários medicamentos e também na área de sementes. A Agronomia tem expertise para avaliar sementes, fertilizantes. Na área odontológica, podemos avaliar os implantes”, adiantou.

Incubadoras

“Nosso sonho é cada dia fortalecer mais as incubadoras. Na Universidade são produzidas muitas pesquisas e teses, e elas têm gerado poucos produtos na prática”, disse Alfredo Júlio.
Na UFU, alguns projetos já saíram da incubadora, viraram produtos e já estão no mercado. Os pesquisadores acompanham a evolução do processo, que vira patente e royalties. “Queremos acabar com a timidez e melhorar a relação universidade/empresa. O papel da Universidade é pesquisar, e da indústria é produzir”, reforçou o reitor.

Números da Educação
Mais de 20 mil alunos
1,2 mil mestrandos
518 doutorandos
1,5 mil produções científicas

em 2010

A Agência Intelecto é a responsável pelo acompanhamento e divulgação do processo de criação dos produtos e do contato com os empreendedores. Segundo Alfredo Júlio, essa é uma forma de divulgar o trabalho. O reitor diz que na área de eletrônica há vários produtos sendo desenvolvidos e um deles é o projeto Guarda Costas. “É um projeto de segurança eletrônica que está sendo desenvolvido na Universidade com o apoio da Finep, com financiamento de R$ 5 milhões e uma empresa da cidade, que coincidentemente é uma empresa de ex-alunos da Universidade”, contou.

Expansão: UFU ultrapassa os limites de Uberlândia

Obras do Campus Pontal da UFU. Esse campus, que por enquanto funciona em instalações terceirizadas, foi inaugurado em 2007, na cidade de Ituitaba-MG, a 130 km de Uberlândia

Levar a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) a outros municípios da região e para além das fronteiras da cidade é um fato marcante para o reitor Alfredo Júlio Neto. Ele conta que a cidade teve três momentos que marcaram sua história: a instalação de cursos superiores, como Direito e Ciências Econômicas; a criação do Distrito Industrial; e a captação da água de Sucupira. “Esses fatos definiram o que Uberlândia é hoje. E avaliando a população local, percebe-se que a maioria é de fora e veio por causa da Universidade”, disse.
Segundo o reitor, as cidades de onde vieram essas pessoas, especificamente alunos, perderam suas inteligências. “Nada mais justo hoje do que a Universidade, por meio de um desses fatores que determinaram o desenvolvimento de Uberlândia, devolver a essas cidades vizinhas a oportunidade de serem grandes cidades. Com a Universidade em Ituiutaba, Patos de Minas e Monte Carmelo, os jovens não vão mais deixar suas cidades para levar conhecimento, desenvolvimento e empreendedorismo para outros municípios”, explicou.

“Nada mais justo hoje do que a UFU, por meio de um desses fatores que determinaram o desenvolvimento de Uberlândia, devolver a essas cidades vizinhas a oportunidade de serem grandes cidades”, diz o reitor

Campus Pontal – O Campus do Pontal, em Ituiutaba, no Pontal do Triângulo Mineiro, foi inaugurado em 2007.  No início eram nove cursos e agora já são 11, nas áreas de Humanas e de Engenharia voltados para a licenciatura.
A inauguração do Campus deve ocorrer entre março e abril do ano que vem. Atualmente, a Universidade funciona em uma área alugada.

Campos Patos de Minas e Monte Carmelo – A primeira fase do primeiro vestibular dos campi de Patos de Minas e de Monte Carmelo aconteceu agora em dezembro e a segunda fase será realizada em janeiro. Cada cidade oferece três cursos, sendo em Patos: Engenharia Elétrica, Engenharia de Alimentos e Biotecnologia, e em Monte Carmelo: Agronomia, Sistema de Informação e Engenharia de Agrimensura e Cartográfica.
De acordo com o reitor da UFU, a demanda pelos cursos oferecidos foi muito grande. “Há cursos com mais de 12 candidatos/vaga. A média/vaga em Monte Carmelo foi de 7.99 candidatos/vaga e 8.78 em Patos de Minas.
Os campi funcionam em prédios das prefeituras, mas a UFU já tem as áreas para construção de instalações próprias. Alfredo Júlio diz que as obras devem iniciar ainda no primeiro semestre. O investimento será de R$ 12 milhões só para a construção, sem contar a aquisição de equipamentos.
Campus do Glória – O Campus do Glória será o maior da UFU, com 3 milhões de metros quadrados (seis vezes maior do que os três atuais campi juntos: Santa Mônica, Umuarama e Educação Física) e as obras devem começar já no início de 2011. A verba liberada pelo Ministério da Educação (MEC) é de R$ 16 milhões.

Estrutura dos campi
Santa Mônica: 140 salas e

9 anfiteatros

Umuarama: 60 salas e

5 anfiteatros

Educação Física: 9 salas e

1 anfiteatro

Pontal: 36 salas

Vista aérea (áreas delineadas) de onde será construído o Campus do Glória, que agregará à Universidade Federal de Uberlândia mais 3 milhões de metros quadrados: obras têm previsão para começar no início de 2011 O primeiro curso a ser instalado será o de Engenharia Aeronáutica, em 2012. A fazenda do Glória foi doada para a UFU em 1973. A área para a construção de quatro blocos será em um descampado na BR-365, no final da avenida João Naves de Ávila, à direita, após cruzamento com a BR-050.

Ensino a Distância (EAD) – O Ensino a Distância da Universidade Federal de Uberlândia (EAD/UFU) já conta com mais de seis mil alunos. São oferecidos mais de 10 cursos de graduação e pós-graduação. Para o reitor Alfredo Júlio Neto, a EAD é a oportunidade de realizar sonhos e certificar competências.

Benefícios: obras que não param

Além do que já foi mencionado, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) é um verdadeiro canteiro de obras. Por todos os campi percebem-se obras sendo executadas. No Umuarama, por exemplo, ao retornarem às aulas, os alunos encontrarão um novo Restaurante Universitário (RU), em um prédio próximo a biblioteca. O local está sendo reformado e é uma necessidade antiga, já que os estudantes hoje utilizam o restaurante do Hospital de Clínicas.

Obras preliminares da Moradia Estudantil que encontra-se em construção no bairro Tibery, em lotes próprios da UFU, que possui ainda vários outros terrenos em diversos bairros como reservas para futuras ampliações

Outra novidade para o próximo ano é a construção de uma moradia estudantil, que será dividida em dois prédios, em um terreno de 1.960 metros quadrados. Serão 176 apartamentos duplos para 152 estudantes, entre eles oito com necessidades especiais.  O prédio está em construção no bairro Tibery, na rua Venezuela, e deve ficar pronto até meados de 2011.  Os apartamentos terão três quartos e serão entregues aos alunos com toda a infraestrutura.
A moradia estudantil servirá de hospedagem para alunos que atenderem certas exigências, como baixa renda. Eles deverão estar inscritos em um dos programas sociais do governo federal. Segundo o reitor, as normas serão elaboradas no início do próximo ano, juntamente com os alunos e representantes dos diretórios. “Estamos atendendo reivindicações antigas que a Universidade tinha e não eram resolvidas,” ressaltou.

Perfil do Reitor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Nome: Alfredo Júlio Fernandes Neto
Naturalidade: Uberlândia (MG)
Estado civil: Casado e pai de dois filhos
Formação:

Odontologia (UFU)

Pós-graduação: mestrado na USP de Bauru e doutorado na USP de Ribeirão Preto

Trabalhos: Coordenador do curso de Odontologia por cinco mandatos, diretor da faculdade de Odontologia por dois mandatos, chefe do gabinete do reitor por duas vezes e várias vezes chefe de departamento. Hoje é um dos pesquisadores da pós-graduação de Odontologia da UFU
Mandato: 4 anos (2008/2012)