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Revista Mercado Edição 49 - março 2012

Um fantasma chamado câncer

Da Redação

O Câncer de mama é o tipo que mais mata mulheres no Brasil. No mundo todo surgem cerca de 1 milhão de novos casos anualmente

O Dia Nacional do Câncer, em 4 de fevereiro, é uma oportunidade para chamar a atenção para o crescimento vertiginoso da doença, que em 2030 deve se transformar na principal causa de morte no mundo, ultrapassando as doenças cardiovasculares. A doença é um fantasma que atormenta a vida de muita gente e mata cerca de 7,6 milhões de pessoas por ano

O Dia Mundial do Câncer, instituído em 2005 pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), é celebrado em 4 de fevereiro. A data tem como objetivo chamar a atenção das nações, líderes governamentais, gestores de saúde e do público em geral para o crescimento do câncer, que atingiu proporções catastróficas no mundo, tornando-se uma ameaça às futuras gerações. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 12,7 milhões de pessoas são diagnosticadas todo ano com câncer e 7,6 milhões de pessoas morrem vítimas da doença. A expectativa é que, em 2030, sejam 26 milhões de casos novos e 17 milhões de mortes por ano no mundo, sendo que 2/3 das vítimas ocorrerão em países em desenvolvimento.
“O câncer, hoje, é a segunda principal causa de morte em todo o mundo, atrás das doenças cardiovasculares. Com o envelhecimento da população, em 2030 passará a ocupar o primeiro posto”, afirma o oncologista Dr. Ricardo Caponero.
No Brasil, a situação não é diferente. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) prevê que pouco mais de 1 milhão de pessoas receberão, nos próximos dois anos, o diagnóstico da doença. Estima-se que os novos casos devam atingir 50,8% dos homens, sendo o câncer de próstata o mais comum entre eles. Nas mulheres, nas regiões Sul e Sudeste, o câncer de mama está em primeiro lugar, enquanto que nas populações mais carentes o de colo de útero lidera o ranking.
Mais eficazes e com menos efeitos colaterais – Se os prognósticos são avassaladores, a boa notícia fica por conta do avanço da medicina, que leva à cura ou garante maior qualidade e expectativa de vida do paciente.

O Instituto Nacional do Câncer (INCA) prevê que pouco mais de 1 milhão de pessoas receberão, nos próximos dois anos, o diagnóstico da doença

Ao receber o diagnóstico de câncer, os pacientes têm, na maioria das vezes, dois grandes temores. O primeiro é associá-lo a um “atestado de morte”, e o segundo são os efeitos colaterais provocados pela quimioterapia. Ambos os medos precisam ser reavaliados, na opinião do Dr. Enaldo Lima, ex-presidente da SBOC – Sociedade Brasileira de Oncologia.
“Nos últimos dez anos, o tratamento de câncer passou a ser domiciliar, muitas das drogas administradas em clínicas e hospitais hoje são orais, em cápsulas, aumentando exponencialmente a comodidade do paciente”, comentou o Dr. Lima. Além disso, segundo ele, os remédios atuais são mais brandos, com toxicidade inferior aos mais antigos. “Com relação à queda de cabelo, enjoos, fraqueza e vômitos, os medicamentos atuais apresentam menores efeitos colaterais e ao mesmo tempo contam com eficácia bem superior”.

Os casos do ex-presidente Lula (câncer na laringe) e do ator Reynaldo Gianecchini (câncer linfático) chamaram a atenção ainda mais para a incidência da doença no Brasil

Um dos aliados no tratamento do câncer na mulher é a substância doxorrubicina lipossomal peguilada (DLP) para tumores de mama e de ovário, caracterizada por sua eficácia na redução de efeitos colaterais como náuseas, vômitos, fraqueza e queda de cabelo. O fármaco está presente dentro de pequenas partículas – os lipossomos – que, por sua vez, liberam a medicação no local do tumor. “Isso confere maior segurança ao paciente, uma vez que a molécula não circula no organismo, diminuindo os efeitos colaterais como queda de cabelos e alterações da medula óssea”, acrescenta Dr. Caponero.
“A DLP apresenta boas taxas de resposta, mas sem dúvida, em termos de benefícios, o mais interessante é a menor toxidade, principalmente cardíaca”, reforça o oncologista Dr. Anderson Silvestrini, atual presidente da SBOC.
Mesmo aqueles tratamentos que não são realizados em casa contam com enormes vantagens. É o caso das drogas para o câncer de próstata que, a exemplo do primeiro, também conta com importantes recursos. Um deles é o acetato de leuprorrelina. Administrado por via subcutânea, com agulha mais curta e aplicado apenas trimestralmente, diferencia-se por ser menos dolorido e necessitar de menor volume injetável, além disso, contribui para aumentar a qualidade de vida do paciente. Isso sem falar nos medicamentos prestes a receber o registro, como é o caso da lenalidomida, que mudou no mundo a realidade do mieloma múltiplo (tipo de câncer da medula óssea). A droga, que há mais de dois anos aguarda liberação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), já é usada em mais de 70 países e aprovada desde 2006 pela Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos.

O ex-vice-presidente José Alencar, vítima de câncer no estômago, faleceu aos 79 anos, no dia 29 de março de 2011, após travar uma longa batalha contra a doença. Foram mais de 15 cirurgias em 13 anos. Na foto, ele aparece com a presidente Dilma Rousseff, poucos dias antes de sua morte

“Temos, cada vez mais, recursos para os pacientes recidivados e refratários com tratamentos de segunda linha. Além disso, haveria indicações de lenalidomida para a primeira linha e expectativa de que seja usada como tratamento de manutenção. Agora, essa droga, que beneficia milhares de pacientes no mundo inteiro, precisa ser urgentemente aprovada no Brasil”, reivindica a Dra. Vania Hungria, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Em qualquer que seja o tipo de câncer, é consensual que o diagnóstico não precisa ser associado à fatalidade. “Com as novas descobertas, tratamentos individualizados de acordo com a linha histológica e drogas cada vez mais avançadas e alvo-específicas, as taxas de remissão ou cura são hoje uma realidade incontestável, ao mesmo tempo em que a qualidade de vida do paciente é cada vez maior”, comenta Dr. Silvestrini.
Já se sabe, inclusive, que cerca de 30% a 40% dos cânceres podem ser evitados com bons hábitos. Seguem abaixo algumas dicas.

COMO PREVENIR O CÂNCER
Não fume – o cigarro é responsável por 30 % das mortes por câncer;
Matenha uma dieta equilibrada, rica em frutas e verduras; por outro lado, reduza a proteína animal do cardápio;
Procure ficar no seu peso ideal, evitando sobrepeso ou obesidade;
Quadros infecciosos, causados por vírus ou bactérias, estão relacionados com 17% de todos os cânceres;
É fundamental adotar um comportamento de sexo seguro; é importante, ainda, vacinar as adolescentes contra o HPV, antes do início da vida sexual.

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Mulheres

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama é o segundo tipo mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos novos a cada ano. Porém, se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente bom.
No Brasil, as taxas de mortalidade por câncer de mama continuam elevadas, muito provavelmente porque a doença ainda é diagnosticada em estágios avançados. Na população mundial, a sobrevida média após cinco anos é de 61%.

Câncer de mama/Brasil
Estimativa de novos casos: 52.680 (2012)
Número de mortes: 12.098, sendo 11.969 de mulheres e 129 de homens (2008)

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O câncer de mama, o mais comum entre as mulheres, se diagnosticado e tratado oportunamente, apresenta um prognóstico relativamente bom

Relativamente raro antes dos 35 anos, acima dessa faixa etária sua incidência cresce rápida e progressivamente. Estatísticas indicam aumento de sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nas décadas de 60 e 70 registrou-se um aumento de 10 vezes nas taxas de incidência ajustadas por idade nos Registros de Câncer de Base Populacional de diversos continentes.

Homens

A próstata é uma glândula que só o homem possui e que se localiza na parte baixa do abdômen. Ela é um órgão muito pequeno, tem a forma de uma maçã e se situa logo abaixo da bexiga e à frente do reto. A próstata envolve a porção inicial da uretra, tubo pelo qual a urina armazenada na bexiga é eliminada. A próstata produz parte do sêmen, líquido espesso que contém os espermatozóides, liberado durante o ato sexual.

Câncer de próstata/Brasil
Estimativa de novos casos: 60.180 (2012)
Número de mortes: 12.274 (2009)

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No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens (atrás apenas do câncer de pele não melanoma). Em valores absolutos, é o sexto tipo mais comum no mundo e o mais prevalente em homens, representando cerca de 10% do total de cânceres. Sua taxa de incidência é cerca de seis vezes maior nos países desenvolvidos em comparação aos países em desenvolvimento.

Mais do que qualquer outro tipo, é considerado um câncer da terceira idade, já que cerca de três quartos dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos. O aumento observado nas taxas de incidência no Brasil pode ser parcialmente justificado pela evolução dos métodos diagnósticos (exames), pela melhoria na qualidade dos sistemas de informação do país e pelo aumento na expectativa de vida.
Alguns desses tumores podem crescer de forma rápida, espalhando-se para outros órgãos e podendo levar à morte. A grande maioria, porém, cresce de forma tão lenta (leva cerca de 15 anos para atingir 1 cm³) que não chega a dar sinais durante a vida e nem a ameaçar a saúde do homem.

Câncer de pele

Não melanoma – É o câncer mais frequente no Brasil e corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados no país. Apresenta altos percentuais de cura, se for detectado precocemente. Entre os tumores de pele, o tipo não melanoma é o de maior incidência e mais baixa mortalidade.
O câncer de pele é mais comum em pessoas com mais de 40 anos, sendo relativamente raro em crianças e negros, com exceção daqueles já portadores de doenças cutâneas anteriores. Pessoas de pele clara, sensível à ação dos raios solares ou com doenças cutâneas prévias são as principais vítimas.

O câncer de pele, o não melanoma, é o mais frequente e corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados no Brasil

Como a pele – maior órgão do corpo humano – é heterogênea, o câncer de pele não melanoma pode apresentar tumores de diferentes linhagens. Os mais frequentes são o carcinoma basocelular, responsável por 70% dos diagnósticos, e o carcinoma epidermóide, que representa 25% dos casos. O carcinoma basocelular, apesar de mais incidente, é também o menos agressivo.

Câncer de pele não melanoma/Brasil
Estimativa de novos casos: 134.170, sendo 62.680 de homens e 71.490 de mulheres (2012)
Número de mortes: nada consta

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Melanoma – O melanoma cutâneo é um tipo de câncer de pele que tem origem nos melanócitos (células produtoras de melanina, substância que determina a cor da pele) e predominância em adultos brancos. Embora o câncer de pele seja o mais frequente no Brasil e corresponda a 25% de todos os tumores malignos registrados no país, o melanoma representa apenas 4% das neoplasias malignas do órgão, apesar de ser o mais grave devido à sua alta possibilidade de metástase.
O prognóstico desse tipo de câncer pode ser considerado bom, se detectado nos estágios iniciais. Nos últimos anos, houve uma grande melhora na sobrevida dos pacientes com melanoma, principalmente devido à detecção precoce do tumor.

Câncer de pele melanoma/Brasil
Estimativa de novos casos: 6.230, sendo 3.170 de homens e 3.060 de mulheres (2012)
Número de mortes: 1.392, sendo 827 de homens e 565 de mulheres (2009)

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Presente e futuro no Brasil não são nada animadores

No Brasil, as estimativas para o ano de 2012 serão válidas também para o ano de 2013 e apontam a ocorrência de aproximadamente 518.510 casos novos de câncer, incluindo os casos de pele não melanoma, reforçando a magnitude do problema do câncer no país. Sem os casos de câncer da pele não melanoma, estima-se um total de 385 mil casos novos. Os tipos mais incidentes serão os cânceres de pele não melanoma, próstata, pulmão, cólon e reto e estômago para o sexo masculino; e os cânceres de pele não melanoma, mama, colo do útero, cólon e reto e glândula tireóide para o sexo feminino.
São esperados um total de 257.870 casos novos para o sexo masculino e 260.640 para o sexo feminino. Confirma-se a estimativa de que o câncer de pele do tipo não melanoma (134 mil casos novos) será o mais incidente na população brasileira, seguido pelos tumores de próstata (60 mil), mama feminina (53 mil), cólon e reto (30 mil), pulmão (27 mil), estômago (20 mil) e colo do útero (18 mil).
Os 5 tumores mais incidentes para o sexo masculino serão o câncer de pele não melanoma (63 mil casos novos), próstata (60 mil), pulmão (17 mil), cólon e reto (14 mil) e estômago (13 mil). Para o sexo feminino, destacam-se, entre os 5 mais incidentes, os tumores de pele não melanoma (71 mil casos novos), mama (53 mil), colo do útero (18 mil), cólon e reto (16 mil) e pulmão (10 mil) – (ver Figuras 1 e 2, no final da reportagem).
Diante do quadro que se apresenta, de acordo com o Inca, para o enfrentamento do câncer, são necessárias ações que incluam: educação em saúde em todos os níveis da sociedade; promoção e prevenção orientadas a indivíduos e grupos (não esquecendo da ênfase em ambientes de trabalho e nas escolas); geração de opinião pública; apoio e estímulo à formulação de leis que permitam monitorar a ocorrência de casos.
E, finalmente, para que essas ações sejam bem-sucedidas, será necessário ter como base as propostas em informações oportunas e de qualidade (consolidadas, atualizadas e representativas) e análises epidemiológicas a partir dos sistemas de informação e vigilância disponíveis.

Figura 1

Estimativas para o ano de 2012 das taxas brutas de incidência por 100 mil habitantes e de número de casos novos por câncer, segundo sexo e localização primária*

Figura 2

Distribuição proporcional dos dez tipos de câncer mais incidentes estimados para 2012 por sexo, exceto pele não melanoma*