Trabalho

Revista Mercado Edição 36 - novembro 2010

Trabalho feito a partir de casa

POR Margareth Castro

O home office está se tornando uma tendência, e é cada vez maior o número de profissionais que deixam de ir às empresas para realizar suas atividades em casa

O velho conselho de que não se deve levar trabalho para casa ficou no passado. Agora, muitos profissionais estão transformando o próprio lar em escritório, o chamado home office. A modalidade, que está se tornando tendência, só não é mais popular por causa da legislação trabalhista, que determina que o trabalhador, para ter vínculos empregatícios, precisa passar cartão de ponto e cumprir jornada de pelo menos oito horas diárias. Mas o tradicionalismo começa a ceder diante do aumento da produtividade daqueles que optam ou têm a oportunidade de levar o trabalho para casa. Além de economia de tempo – não é preciso se deslocar até a empresa, há o ganho de qualidade de vida. De olho nessas vantagens, muitas empresas já estão aderindo e até incentivando o home office, entre as quais, Algar Tecnologia, Du Pont, Ernest&Young, HP, IBM, Merryl Linch, Natura, Shell, Symantec, Ticket (G. Accor) e GOL.
No caso da Algar Tecnologia, empresa do Grupo Algar, com sede em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a empresa fez o primeiro teste de home office nos meses de novembro e dezembro de 2008, colocando alguns associados (como denominam seus funcionários) para trabalhar em casa. A intenção era avaliar a produtividade e aspectos como disciplina, clima e motivação. De acordo com o diretor de operações, Luiz Fernando Scheliga, os resultados foram bons e em 2009 decidiram desenvolver o projeto em maior escala.

“Hoje temos 100 domicílios preparados para home office e o feedback positivo de clientes”, Luiz Fernando Scheliga

Neste ano, 60 associados estão no sistema e ficam pelo menos um dia da semana em casa, o que fez diminuir o número de posições instaladas na empresa. Os associados, maioria do staff e o restante do setor de operações de atendimento, são triados pela empresa e recebem toda infraestrutura necessária para desenvolver a atividade em casa, como mobiliário adequado e computador com internet banda larga e linha telefônica instalados. A gestão é feita pela empresa a distância, por meio de sistemas de tecnologia, mas é diária, como se o chefe estivesse presente. “Hoje temos 100 domicílios preparados para home office  e o feedback positivo de clientes”, contou Scheliga.
Adão Rodrigues de Paula, 44 anos, consegue economizar tempo e dinheiro. Diferente de muitos trabalhadores, ele não precisa pagar transporte ou perder tempo no trânsito para chegar ao trabalho. E não é porque ele mora perto da empresa não, é porque trabalha no conforto de sua casa. Há sete anos, ele é operador de telemarketing da Algar Tecnologia, mas só vai à empresa quando é convocado para reuniões ou para participar de alguma comemoração. “Apesar de trabalhar em casa, sinto-me totalmente vinculado à empresa. Não há diferença para o associado que fica em casa e o que está lá”, disse.

Adão de Paula diz que em casa também há rotinas de trabalho, regras a serem cumpridas e gestão, como se estivesse na empresa. Ele conta que a vantagem do home office é não ter que se deslocar, o que para ele é ainda mais complicado, já que é paraplégico desde os dois anos de idade, quando sofreu de poliomielite.

Adão Rodrigues de Paula é paraplégico e - trabalhando em casa - atendente de telemarketing da Algar Tecnologia, onde está há 7 anos

Como a jornada de trabalho na Algar Tecnologia é de seis horas diárias, Adão de Paula cumpre das 6h às 12h e, para complementar sua renda, das 12h30 às 18h30 trabalha, há nove anos, na Prefeitura. “Em um órgão público é diferente. Acredito que o home office é uma tendência que já deu certo e cada vez mais empresas vão adotar, mas ficará restrito às empresas privadas”, opinou.

Sine - A diretora do Sistema Nacional de Emprego (Sine) em Uberlândia, Daisy Afonso, compartilha da mesma opinião. Segundo ela, o home office é uma tendência, porque sai mais barato para o trabalhador, já que evita deslocamentos, e ainda é uma oportunidade para sair da ditadura do horário. “Há uma flexibilização das leis trabalhistas e isso é bom para a empresa e o trabalhador. Em Uberlândia, a Algar Tecnologia, uma das empresas que atendemos com seleção e recrutamento, já está buscando esse perfil. E a empresa já provou que dá certo trabalhar nesse sistema”, explicou.
Daisy Afonso diz ainda que as pessoas em Uberlândia têm resistência às tendências, mas o home office oferece oportunidades, qualidade de vida e ganho para as empresas e os trabalhadores.

HOME OFFICE
PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS
Ganho em qualidade de vida Distrações com TV e visitas fora de hora
Alta na qualidade do atendimento Excesso de trabalho (é preciso ter hora para começar e para encerrar o expediente, senão a vida acaba virando uma permanente hora-extra)
Mais pontualidade no cumprimento de horários, como as pausas -
Não absenteísmo -
Queda na taxa de desligamentos -
Aumento da produtividade -
Quebra de barreiras geográficas -
Reinclusão das pessoas no mercado de trabalho -

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Legislação trabalhista

Especificamente na Algar Tecnologia, o diretor de operações afirma nunca ter tido problemas trabalhistas por causa do home office. Segundo ele, a empresa encontrou na legislação argumentação que defende a legitimidade desse tipo de trabalho. “A empresa cercou-se de cuidados para que o associado tivesse rotina de trabalho”, disse.
De acordo com Scheliga, a flexibilização das leis trabalhistas aumentaria a prática de home office. “Antes não havia tecnologia, então não era possível imaginar pessoas trabalhando em casa, mas, conectadas à empresa, inclusive sendo acompanhadas e monitoradas por seus gestores”, justificou.
O advogado Liopino Neto, especialista em Processo Civil e Tributário, diz que qualquer função ou atividade, independentemente do local de trabalho, poderá gerar um vínculo trabalhista. Segundo ele, a lei não distingue entre a realização do trabalho efetuado na empresa ou na residência, mas é preciso que sejam caracterizados os requisitos da relação de emprego, como subordinação, não eventualidade, pessoalidade e recebimento de salários, para que o vínculo seja confirmado.

Liopino Neto: “Lei não distingue entre a realização do trabalho efetuado na empresa ou na residência, mas é preciso que sejam caracterizados os requisitos da relação de emprego”

Liopino Neto, que atua na área empresarial, explica que a empresa precisa ter alguns cuidados ao contratar um funcionário para trabalhar em casa. Segundo ele, se a empresa não pretender a formação de vínculo trabalhista, o ideal é que a pessoa a ser contratada realize os serviços por tarefa e desenvolva esta atividade para outras empresas. Porém, em caso de ser funcionário, ele alerta para o cumprimento da jornada de trabalho de 44 horas semanais, sendo oito horas diárias, com ao menos uma hora de intervalo.
“Em princípio, o correto é a empresa não contactar o funcionário fora do expediente normal de serviço. Mas tudo dependerá do tipo de serviço ou tarefa desejada pela empresa, pois serviços de natureza intelectual são realizados, às vezes, fora do expediente normal. Porém, para os serviços de telemarketing, já existem um horário preestabelecido entre as partes”, explicou.
Mesmo trabalhando no sistema home office, o funcionário pode se resguardar para ter os seus direitos trabalhistas respeitados. Liopino Neto explica que uma das formas é arquivar e manter um sistema de horas trabalhadas em favor da empresa, seja via emails, telefones ou comunicação virtual. “Hoje existem sistemas de controle que informam a quantidade de horas trabalhadas e qual o tipo de serviço executado”, diz.
Liopino Neto também acredita que o home office é uma tendência, já que economiza no deslocamento de pessoas e acomodações delas, o que encarece ao final do processo produtivo. Mas ele acredita que no momento esse tipo de relação é viável apenas para certas atividades, como confecção, telemarketing e áreas cuja produtividade seja de mais fácil controle. “A longo prazo, com a flexibilização das leis trabalhistas, com menos rigor sobre horas extras, noturnas, intervalos nas jornadas e quanto ao próprio vínculo laboral, outras atividades poderão ser inseridas neste sistema”, concluiu.

Tire dúvidas

Perguntas e respostas mais frequentes sobre home office

O que é home office?
Home office é um conceito de atividade profissional desempenhada fora do ambiente tradicional de uma empresa.
Quais os custos iniciais para montar um home office?
Como em qualquer atividade profissional, é essencial saber dosar os investimentos para garantir que a iniciativa seja sustentável. O desembolso total varia bastante, mas o que precisa ser feito é um bom orçamento. Alcançar um nível mínimo de conforto precisa ser uma meta, e por isso é importante reservar parte dos rendimentos da sua atividade para reinvestir no escritório doméstico.
Todo mundo pode trabalhar em home office?
Não. E é importante fazer uma boa análise situacional e de perfil antes de pensar em montar um. Nem toda atividade profissional pode ser desempenhada longe da equipe ou das instalações da empresa, e nem toda cultura organizacional está pronta para soltar as amarras da gestão presencial de seus profissionais.
Os horários são mais flexíveis? Quem trabalha em casa corre o risco de ficar mais preso ao trabalho por poder responder a qualquer hora do dia?
Os horários são tão flexíveis quanto o profissional desejar ou puder sustentar, e há risco nas duas extremidades: trabalhar pouco ou trabalhar demais. Algumas pessoas, por não ter controle externo, são levadas à procrastinação, tudo fica para a última hora, prazos são perdidos e a qualidade cai. Cada pessoa precisa avaliar se ela conseguirá se manter disciplinada, motivada trabalhando sem equipe, sem um chefe presente para direcionar, precisando se expor diretamente aos riscos da atividade e sem toda a estrutura de apoio da empresa.
É possível um home office com família e animais? Como administrar?
Sim, claro que é possível – e até bem comum! Acompanho vários casos de profissionais que trabalham na mesma casa em que convivem com suas famílias, sem maiores problemas. O desafio é saber separar os ambientes e os horários, e o ideal é ter isso bem definido, de forma a facilitar a percepção dos limites. Mas há um detalhe importante: se várias pessoas convivem na casa o dia inteiro e os ambientes se misturam, o impacto sobre a produtividade é inevitável.
Fonte: Augusto Campos – administrador e criador do blog efetividade.net (registro cerca de 30 mil acessos diários)