Educação

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Trabalho de crianças da periferia ganha as telas em Uberlândia

POR Michele Borges (Ciclo) FOTOS Ricardo Borges

O lançamento “Crônicas Animadas 2010” leva ao cinema 360 alunos de escolas da periferia de Uberlândia, que foram assistir ao trabalho feito pelos próprios colegas

Que tal um cineminha? Para muitos um “sim” a essa pergunta pode ser fácil e comum, mas para outros não. Foi o que aconteceu – para alguns pela primeira vez – para cerca de 360 alunos de escolas públicas da periferia de Uberlândia que lotaram uma sala de cinema para assistirem ao lançamento do livro e do DVD “Crônicas Animadas Edição 2010”. O mais interessante é que o filme exibido – animações digitais – foi obra de alguns dos próprios alunos presentes, que são participantes do projeto social “Crônicas Animadas: arte e tecnologia na escola”. O fato aconteceu no final de novembro e para tanto foram necessários nove ônibus, que saíram lotados das escolas municipais Professora Stella Saraiva Peano, Odilon Custódio Pereira, Professora Olga Del Fávero, Bairro Shopping Park e Algar Transforma até os cinemas, no Center Shopping, local da exibição.

Sala lotada para assistir à apresentação do Crônicas Animadas 2010

O projeto “Crônicas Animadas: arte e tecnologia na escola” acontece desde 2006 e atende alunos do 6º ao 9º ano das escolas da Rede Municipal de Ensino Fundamental, numa iniciativa do Sesc/MG de Uberlândia em parceria com a Secretaria Municipal de Educação/Cemepe/ Núcleo de Tecnologia e Educação e apoio do Instituto Algar. Tudo por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Uberlândia e da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. O projeto, segundo a diretora do Sesc de Uberlândia, Roseane Cence Lopes, já atendeu 300 alunos e 100 professores de 14 escolas municipais de Uberlândia. “Queremos atender todas as 60 escolas existentes na cidade”, informou Roseane.
Nesta edição 2010 do Crônicas Animadas, 60 alunos estiveram envolvidos participando durante meses de oficinas de literatura, desenho, interpretação de voz, gravações de áudio e animação digital. “O nosso maior objetivo é desenvolver o gosto desses alunos pela leitura através da criação de textos e desenhos”, afirmou a diretora.

O cartunista Fernando Duarte conversa com aluno envolvido no projeto

“O Crônicas Animadas trabalha com crianças que têm pouco acesso a formas de expressão. No começo, elas ficam tímidas, distantes, mas logo se envolvem e revelam que têm muita criatividade e histórias pra contar”, disse o cartunista Fernando Duarte, instrutor da oficina de animação, ao comentar o que mais lhe chama a atenção no projeto.
Outro aspecto relevante para Fernando é o fato de o seu envolvimento acabar contribuindo para elevar o nível de desempenho escolar do aluno. “Conhecemos histórias de alunos que melhoraram o seu desempenho e ainda o comportamento, mesmo que isso não seja o principal objetivo do Crônicas Animadas”, avaliou.

Maria Isabel, professora de Português em uma das escolas envolvidas no projeto, demonstra entusiasmo com os resultados

A professora de Língua Portuguesa, Maria Isabel Vieira e Silva, da escola Odilon Custódio Pereira, ratificou a ideia de Fernando. “Quando eles têm a oportunidade de se expressar de forma diferente do que estão acostumados no cotidiano, a motivação e o empenho são maiores”, disse.

Os estudantes Joaquim Eurípedes e Lauriene Marques, os dois com 12 anos, foram os responsáveis pela animação “Eleições 2010” – trabalho desenvolvido no projeto. Eles afirmaram que ir para a escola ficou mais interessante depois da chegada do projeto. “Assistir ao nosso desenho no cinema é mais legal ainda”, acrescentaram. A ideia de levá-los até o cinema é uma estratégia dos realizadores para a valorização do trabalho e elevação da autoestima dos alunos.

Os alunos Lauriene Marques e Joaquim Eurípedes, para quem assistir ao seu trabalho na telona é o máximo

Já a estudante do 5º ano da escola Stella Saraiva Peano, Fernanda Costa Lira, 10 anos, não participou diretamente do projeto, mas teve a oportunidade de ir ao cinema ver o resultado do trabalho dos colegas. Fernanda nunca havia estado em uma sala de cinema e relatou sua emoção: “Passei o sábado ansiosa, só desejava que o domingo chegasse logo. Hoje é um dia especial”, disse.

Fernanda Costa Lira (e) com a colega Katielly Martins Morais: o trabalho dos colegas propiciou à Fernanda a primeira oportunidade de ir a um cinema

Segundo Roseane Lopes, é importante medir a evolução do projeto Crônicas Animadas também pela sua atuação junto a professores de português, literatura, artes e informática das escolas atendidas, a quem são oferecidas atividades de formação. “A educação é um dos pilares em que se sustentam as ações que o Sesc promove em todo o país. Em Uberlândia, a entidade realiza diversas atividades ao longo do ano com o objetivo de oferecer às crianças acesso à cidadania”, relatou.

Prêmio - Para o aluno que participou do projeto Crônicas Animadas e deseja continuar se aperfeiçoando na arte da animação digital, como é o caso de Joaquim Eurípedes, a escola Veg oferece bolsa para cursos de informática realizados no próprio Sesc. “O que queremos com tudo isso é que essas crianças, que têm talento, tenham também oportunidades”, finalizou o coordenador de projetos culturais e educacionais do Sesc de Uberlândia, Rafael Tannús.

A equipe que está à frente do projeto Crônicas Animadas

Após a exibição das animações no cinema, cada aluno participante do projeto levou para casa um livro e um DVD do Crônicas Animadas Edição 2010. Agora, o Sesc vai encaminhas outros 500 livros a bibliotecas escolares da cidade e de outras regiões de Minas Gerais. As animações podem ser vistas no site www.cronicasanimadas.com.br.

A diretora do Sesc de Uberlândia, Roseane Lopes, durante entrega do material - livro/DVD - a uma aluna