Entrevista

Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

Sucesso em nome de Deus

Cantor, compositor e escritor, Padre Fábio de Melo é reconhecidamente um fenômeno da “evangelização pela arte”

De uns tempos para cá, o público tem assistido a uma verdadeira invasão da música gospel em praticamente todas as programações nacionais de rádios e TVs. Nesse embalo, desponta um fenômeno chamado Padre Fábio de Melo, que já vendeu mais de 2 milhões de cópias de CDs, além de arrastar multidões aos seus shows. O que muitos dos seus fãs não sabem é que, além de padre e músico, ele também escreve livros de auto-ajuda – tem mais de 500 mil livros vendidos -, compõe canções e ainda é apresentador de TV e rádio.
Graduado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Educação e mestre em Teologia, Fábio José de Melo Silva, popularmente conhecido como Padre Fábio de Melo, nasceu na cidade de Formiga, em Minas Gerais, no dia 3 de Abril de 1971. De família simples, ele é o caçula dos oito filhos de Dorinato Bias Silva e Ana Maria de Melo Silva -; seu pai (já falecido) era pedreiro e a mãe dona de casa.
Desde criança, sua vocação para a arte foi percebida e incentivada pelo pai violeiro. Aos 16 anos, já no seminário, colocou-a a serviço da fé.
O sacerdote Fábio de Melo possui uma consistente trajetória acadêmica: cursou duas faculdades, fez pós-graduação em Filosofia da Educação e mestrado em Antropologia Teológica, um conhecimento que, segundo ele, tem como único propósito evangelizar as pessoas. Porém, para alcançar esse objetivo, resolveu ir além do discurso de sacristia e se aproximar mais dos fiéis. Assim, virou cantor, compositor e escritor, tornando-se um fenômeno da “evangelização pela arte”.
O seu penúltimo CD, “Iluminar”, ultrapassa os limites da música religiosa e transforma o gênero. Além de sete músicas de sua autoria, esse 13º álbum de sua carreira prima pelas participações de grandes nomes da música brasileira – Zezé Di Camargo & Luciano, André Leonno, Elba Ramalho e Roupa Nova – em quatro das 15 faixas. “Novo Tempo”, composta por Ivan Lins e Vítor Martins, é um exemplo de como o repertório pretende transmitir mensagens positivas também através da música popular brasileira.
Na sua vida sacerdotal e espiritual, tem como referência os padres Zezinho, Joãozinho e Léo Tarcísio. Padre Fábio de Melo faz questão de ressaltar que tudo o que escreve e faz é naturalmente evangélico. Suas composições são poesias que trazem a linguagem da sensibilidade, com uma roupagem moderna e ritmos bem atuais. A mensagem de Jesus Cristo é o viés de suas composições. Em recente entrevista, ao falar de sua crença em Deus, Fábio de Melo disse: “Minha experiência de fé foi sempre muito cotidiana, daquilo que é ordinário na minha vida. Nunca vi um milagre, mas sempre tive essa certeza”.
Ele mesmo já se autodescreveu como um contador de histórias, que gosta de se aventurar no universo das palavras e acredita que escrever é uma forma de desvendar o mundo.
Sobre a sua carreira e sucesso, ele reclama do tratamento que vem recebendo da mídia, alegando que ela o expõe com um homem vaidoso, o que o faz se sentir reduzido a uma imagem. Talvez seja por isso que ele tem lutado para tentar consertar o que para ele é um “erro histórico” da humanidade: tratar a vaidade como pecado, segundo a Igreja Católica. Ele explica: “A vaidade é quando eu começo a viver em um processo de esquecer o mais importante. E cuidar de si não tem a ver com isso”.
Esse é o Padre Fábio de Melo, que no dia 6 de maio estará em Uberlândia, onde realiza show no Castelli Máster, às 21h. Antecipando a sua estada na cidade, ele concedeu entrevista à Revista MERCADO, em que fala da carreira, de Deus, da fé, do sucesso e de outras coisas mais.

Revista Mercado Uberlândia: Como descobriu a vocação para padre?
Padre Fábio de Melo – Sou de Formiga, Minas Gerais, cresci numa família humilde e muito religiosa. A figura do padre sempre esteve presente em minha criação, fazendo parte do meu contexto cultural. Eu via no padre uma pessoa feliz, realizada, fazendo o bem às pessoas e quis isso pra minha vida. Em 1987 fui conhecer o seminário de Lavras, e no ano seguinte já estava lá.

Revista Mercado Uberlândia: E como a sua família reagiu?
Meu pai e minha mãe contam que percebiam a vocação em mim desde criança. Por isso, sempre me incentivaram.

Revista Mercado Uberlândia: Como é sua rotina de padre?
Como a de qualquer um de nós. Nossa maior missão é evangelizar. Contudo, cada vez mais cresce a necessidade de que os padres estejam bem preparados. Não podemos nos acomodar depois que nos tornamos padres, pois a sociedade é muito crítica e é bom que seja.  Nos meus tempos livres me encontro com amigos, familiares, passeio e descanso.

Revista Mercado Uberlândia: Como o senhor convive com o celibato?
Com a naturalidade de quem aceita e assume essa condição por vontade própria. Costumo repetir que ninguém me obrigou. Não é um fardo, mas uma maneira de vivenciar em plenitude minha opção de ser padre.

Revista Mercado Uberlândia: O fato de não ter obrigatoriedade de aulas de religião nas escolas, em sua opinião, mudou o comportamento, a educação das pessoas ?
Eu creio que o discurso religioso se torna mais interessante à medida que cumpre a missão de aliviar a existência. Fé é experiência existencial, e por isso precisa mover a nossa vida. Reduzir a religiosidade ao cumprimento do rito é empobrecer a riqueza. Grande parte das pessoas que não são religiosas nasceram e cresceram na  religião das obrigações.

Revista Mercado Uberlândia: Num momento em que o mundo passa por tantos desastres naturais e disputas pelo poder, o senhor acredita que o mais importante é a humanidade acreditar em Deus, independente de sua crença? Por quê?
Acreditar em Deus é sempre saudável. A fé, quando experimentada com equilíbrio, provoca uma postura responsável diante da vida. Quando creio em Deus criador, creio, por desdobramento, que com a criação estou comprometido. Uma coisa não está dissociada da outra. A fé que professo gera uma atitude responsável. As religiões precisam ensinar que o amor a Deus consiste também em respeito à realidade criada.

Revista Mercado Uberlândia: Pelo fácil acesso às mídias (CD, televisão, rádio) nos dias de hoje, em sua opinião, a busca por Deus se tornou menos complexa?
Sim, precisamos aproveitar a oportunidade de fazer o trabalho acontecer com mais amplitude e qualidade. Creio no poder da comunicação religiosa e tento fazer com que essa comunicação seja ponte entre a Palavra de Deus e o coração dos homens.

Revista Mercado Uberlândia: Em seu site há o texto Pecados Públicos, em que o senhor aborda a falta de privacidade de maneira peculiar. Em um trecho, o senhor diz: “Quero apenas refletir sobre uma das inadequações que a vida moderna estabeleceu para a condição humana”. Nesse âmbito, acredita que a Internet seja um mal necessário?
Os meios modernos de comunicação quebraram as janelas de nossas casas. Hoje é muito difícil ter vida privada. Um acontecimento pequeno no outro lado do mundo pode repercutir imediatamente em todo o mundo. Isso é bom ou ruim? Depende do conteúdo que fazemos repercutir. Eu lamento que muitos deslizes pessoais, fatos comuns a todos nós, sejam frequentemente expostos de maneira tão cruel, banalizando a condição humana, expondo-a ao ridículo. Calúnias, mentiras, tudo pode ser livremente postado. O fato é que com tanta publicidade as pessoas ficam mais vulneráveis ao mal que a Internet pode provocar. Eu prefiro usá-la para fazer o bem.

Revista Mercado Uberlândia: O senhor já escreveu e publicou diversos livros. Qual foi o mais significativo? Por quê?
Todos têm um sabor próprio, refletindo as circunstâncias e o tempo no qual cada um foi escrito e lançado. Os temas são diversificados. Por isso fica difícil apontar um mais significativo do que outro. Gosto de todos.

Revista Mercado Uberlândia: Além dos livros, também têm inúmeras canções gravadas. Qual é a mais especial e por quê?
A resposta é a mesma. É difícil destacar uma canção quando cada uma delas cria uma emoção diferente, expressa uma ideia nova e gera uma energia única. Fico com o conjunto da obra.

Revista Mercado Uberlândia: Na hora de compor suas músicas, escrever suas poesias e livros, de onde vem sua inspiração?
O cotidiano é minha fonte. A vida humana é minha matéria. Ou porque vivi, ou porque vi de perto. Não tenho nada de extraordinário no meu dia a dia, mas a arte me permite enxergar a beleza velada de todas as realidades. Deus mora na simplicidade.

Revista Mercado Uberlândia: Em se falando de música, qual a principal mensagem do seu lançamento de maior sucesso, o DVD “Iluminar” ao vivo?
Iluminar é verbo de ação. De uma boa ação. Acender uma luz para que o outro enxergue, para que o outro possa se guiar. Essa é a principal mensagem do trabalho.

Revista Mercado Uberlândia: O senhor é um sucesso de público e de crítica, tendo estourado em todo o Brasil e agradado os mais diversos gostos, faixas etárias e classes. Acredita que a sua condição de padre, de alguma forma, contribuiu para esse sucesso?
Com certeza. Eu acho que o que me evidenciou foi o fato de ser padre. É o que eu tenho a dizer que me tornou uma pessoa conhecida. E ser padre nessa condição é ter a oportunidade de ter um veículo de comunicação para socializar a palavra de Deus, para fazer essa palavra chegar aos meios em que, talvez por um método convencional, eu não poderia chegar.

Revista Mercado Uberlândia: Após sucesso no mercado fonográfico, qual o seu principal desafio como um padre que se tornou referência dentro e fora das igrejas? Isso porque muitas pessoas que não vão à missa, por exemplo, assistem aos seus programas e encontram em suas palavras uma fonte de inspiração.
Meu principal desafio é exatamente quanto a ser referência. Quanto mais cresce meu trabalho, maior é a responsabilidade que ele acarreta. Eu estudo muito e quem quer trabalhar com comunicação tem que ter conteúdo. Minha principal missão é transmitir as palavras do evangelho. Faço tudo para que Deus seja sempre transparente em mim.

Revista Mercado Uberlândia: Segundo o portal de notícias Canção Nova, em 2009, o Papa Bento XVI condenou a Teologia da Libertação, representada no Brasil pelo teólogo, escritor e professor Leonardo Boff. Como o senhor interpreta essa condenação do Pontífice? E qual sua opinião sobre a Teologia da Libertação?
Como tudo o que é humano, a Teologia da Libertação foi ambígua. Acertou quando compreendeu que a esperança celeste precisa começar na história, mediante uma prática social evangélica, mas errou quando em alguns dos seus segmentos reduziu a esperança escatológica a um discurso sociológico. Eu continuo admirando muito alguns aspectos da reflexão de Leonardo Boff.

Revista Mercado Uberlândia: Recentemente, o cinema brasileiro tem dado atenção maior aos filmes que relatam, de alguma forma, a doutrina espírita. Como o senhor vê a presença desses filmes nas telas brasileiras?
A religiosidade sempre gera interesse. É natural que tudo isso seja explorado na produção cultural do país. Se não vejo porque creio, posso ver para compreender como o outro crê.

Revista Mercado Uberlândia: Em sua opinião, qual a passagem bíblica que melhor descreve o momento que a humanidade está vivendo?
O discurso sobre as bem-aventuranças. Nele, Jesus mostra a vida como um lugar de contradição. O desafio humano é compreender os avessos das questões, e com eles aprender.

Revista Mercado Uberlândia: Qual o maior bem e mal da humanidade no século XXI?
Um bem: a comunicação. Um mal: a miséria que ainda persiste em tantos lugares do mundo.