Agricultura

Revista Mercado Edição 43 - julho 2011

Produção sustentável contra a miséria

DA Redação com Agência

A paisagem do Vale do Urucuia, no Noroeste de Minas, está se transformando graças à união de pequenos produtores rurais da região

Cooperativa melhora condições de vida de pequenos agricultores do Vale do Urucuia (MG)

Produtores rurais do Vale do Urucuia, Noroeste de Minas Gerais, estão mudando a realidade de uma das regiões com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Eles conseguiram aumentar a produtividade e a renda por meio da cooperação. Juntos eles também realizam projetos sociais e desenvolvem ações de preservação ambiental das veredas que serviram de inspiração para a obra de Guimarães Rosa.
Tudo começou há sete anos, quando os produtores participaram do projeto de Desenvolvimento Territorial do Vale do Urucuia realizado pela Agência de Desenvolvimento do Vale do Rio Urucuia em parceria com a Fundação Banco do Brasil e o Sebrae-MG. À época, o Sebrae-MG ofereceu aos produtores capacitações gerenciais e estimulou a união dos agricultores. “Estimulamos o espírito de liderança e a busca por conhecimento, para que eles fossem capazes de encontrar soluções em conjunto”, afirma o analista do Sebrae-MG, Emerson Gonçalves.
Quatro anos depois, os produtores sentiram a necessidade de serem mais independentes. O objetivo era criar canais de comercialização e aumentar a renda do grupo. A iniciativa resultou na formação da Cooperativa da Agricultura Familiar Sustentável com Base na Economia Solidária (Copabase), que continuou tendo o apoio financeiro da Fundação do Banco do Brasil e do Sebrae-MG em treinamentos e missões empresariais.
A Copabase atende 250 produtores rurais de oito municípios que atuam em atividades agrícolas e artesanato. Os atendimentos são feitos por 13 agentes de desenvolvimento e uma engenheira agrônoma que orienta sobre plantio, manejo, adubação e combate de pragas com inseticidas naturais.
Com as orientações dos técnicos do projeto, o produtor Reginaldo Rezende Aquino aumentou a produção em 200%, de 200 quilos para 600 quilos semanais. “Antes levava toda a produção de bicicleta, 10 km de ida e 10 km de volta. Hoje consigo pagar um frete para entregar a mercadoria”, conta Reginaldo, que produz hortaliças, jiló, quiabo, pimentão e melancia.

Reginaldo Rezende: produtor conseguiu aumentar sua produção em 200%

A cooperativa, que nos seis primeiros meses comercializava R$ 100 por mês, agora chega a vender R$ 11 mil. Produtos como mel, polpas de frutas tropicais e do cerrado, óleo de pequi, farinha de mandioca e castanha de caju são vendidos para o comércio local e, principalmente, para os governos municipais e estadual para a merenda escolar. “A cooperativa tem um contrato de garantia do recebimento de no mínimo 50% da produção anual de cada cooperado”, afirma a gerente da cooperativa Dionete Figueiredo.
Os custos com embalagem, rótulos, articulação de venda e distribuição do produto são pagos pela cooperativa, ainda com recursos de convênios com a FBB.  “Pagamos ao cooperado um preço acima do mercado. O mel, por exemplo, é encontrado até a R$ 2,80 o quilo, mas nós pagamos R$ 4,00”, diz o presidente da Copabase, Paulo Estácio.

“Iremos trabalhar para que o mel da região do Urucuia seja produzido com qualidade e higiene e se torne referência no mercado”

(Emerson Gonçalves, analista do Sebrae-MG)

A Copabase busca agora a certificação do Ministério da Agricultura, necessária para comercializar o mel e as polpas para outros estados e também para exportação.  No caso do mel, o Sebrae-MG irá promover o Programa Alimento Seguro (PAS), para que os empresários sejam capacitados em boas práticas de produção. “Iremos trabalhar para que o mel da região do Urucuia seja produzido com qualidade e higiene e se torne referência no mercado”, explica Emerson Gonçalves, analista do Sebrae-MG.

Novos produtos

Em fevereiro deste ano, a cooperativa ofereceu aos produtores coletores de pólen uma espécie de tela que é colocada na entrada da colmeia. Os furos são tão estreitos que, para passar, as abelhas são obrigadas a derrubar o pólen que é retirado das flores. “Chego a recolher 200 gramas de pólen por dia”, contabiliza o produtor Jehovane Luiz da Silva.
Os pólens são pequenas bolinhas, de cores amarela e branca, que ficam presas às patas das abelhas. O produto tem proteínas e vitaminas A, C e E, que combatem as doenças do envelhecimento. O pólen é tão valorizado no mercado que chega a custar três vezes mais o valor do mel, entre R$ 20 e R$ 30 o quilo.

Sustentabilidade

A preocupação da Copabase não é somente com a questão econômica , mas também social e ambiental. Em 2009, cerca de 535  produtores que não sabiam ler nem escrever foram alfabetizados . Este ano, mais de 500 estão nas salas de aula.

Viveiro implantado na comunidade Vereda Grande, no município de Urucuia, com a participação da Copabase

Para evitar que rios e lagos da região sequem, os produtores cercaram 89 nascentes com arame farpado. A iniciativa evita que a pastagem do gado destrua os córregos de água da região.
Outra iniciativa foi a criação de viveiros de plantas nativas da região. A cooperativa doa os saquinhos e telas de proteção e os produtores coletam sementes e cuidam das mudas até que estejam prontas para o plantio. Já foram criados 33 viveiros, cada um com mais de cinco mil mudas.