Entrevista

Revista Mercado Edição 40 - março 2011

O médico e o empreendedor

POR Por Analú Guimarães e Anderson Silva

Daniel Barros é ortopedista e fundador do Hospital Orthomed Center em Uberlândia

Ele ignorou críticas, acreditou num sonho e conseguiu construir um dos poucos hospitais exclusivamente especializados em ortopedia e traumatologia do estado de Minas Gerais. Esse “empreendedor” é Daniel Barros Pereira, médico ortopedista, que conduziu como poucos empreendedores a construção do Orthomed Center, hospital bastante conceituado na região. São mais de 80 funcionários, cinco consultórios, pronto-socorro, área de esterilização, almoxarifado, oito leitos, sala de reuniões, sala de informática, bloco cirúrgico, farmácia e administração.
Recentemente, após oito anos de inauguração e quatro mil cirurgias realizadas, o Hospital Orthomed Center tornou-se o primeiro de toda a rede privada de Uberlândia, cidade do Triângulo Mineiro, a conquistar o certificado de acreditação hospitalar.
Mas o médico Daniel Barros quer mais e já prepara uma nova ampliação do hospital – que já passou por uma depois de inaugurado. Essa outra reforma está prevista em comemoração aos dez anos do Orthomed Center e prevê uma estrutura que passará a contar com 25 leitos, seis salas cirúrgicas, aumento do pronto-socorro e ainda a implantação de uma UTI especializada. Um investimento previsto de R$ 4 milhões.
Nesta entrevista exclusiva à MERCADO, o médico – por que não empresário? – Daniel Barros fala sobre o começo, as dificuldades e como conseguiu forças para erguer o hospital. Empreendedor por natureza, Daniel não pretende pendurar o jaleco tão cedo, ele quer continuar na administração até colocar o Orthomed Center entre o dez hospitais mais conceituados do Brasil.
Será?! Quem o conhece de perto não duvida de que consiga atingir esse objetivo.

Revista Mercado Uberlândia: Na época, como as pessoas próximas encararam sua decisão?
Elas duvidaram. Se isso aconteceu, imagine o restante. Para ser franco, não me recordo de palavras animadoras e positivas. Por isso mesmo nunca pedia opinião. Apenas seguia em frente. Já estava determinado e sabia o que queria.

Revista Mercado Uberlândia: Por que deixar a carreira solo e partir para um empreendimento que envolve várias pessoas?
A carreira solo em medicina é interessante até certo momento. Depois você fica limitado. A melhoria profissional depende necessariamente de crescimento em todos os sentidos, e como nossa profissão é uma das mais nobres, já que lidamos com seres humanos, somente e através de um hospital próprio, poderia aumentar meu envolvimento com gente, tanto com os pacientes quanto com meus colaboradores.

Revista Mercado Uberlândia: E como foi passar de médico a empreendedor e hoje empresário que conseguiu colocar esse projeto em prática?
No início foi muito difícil – por estar desacreditado por quase todos os colegas da classe médica – e penoso para minha esposa e filhos. Hoje, continuo sentindo o prazer de ainda estar batalhando e com objetivos e metas de crescer ainda mais. O projeto ainda não terminou. Ainda farei muito mais.

Revista Mercado Uberlândia: Como é exercer estes dois lados, uma vez que o senhor administra o negócio e também continua atendendo seus pacientes?
Não vejo problema em ser empresário da área de saúde e exercer a profissão ao mesmo tempo. Aliás, sinto que posso ajudar as pessoas com muito mais competência, ética e qualidade. Como médico entendo a prioridade de meus pacientes e, dessa forma, organizo a empresa para oferecer um serviço voltado para a excelência de resultados.

Revista Mercado Uberlândia: Quais foram as maiores dificuldades encontradas para colocar o plano em prática?
Dificuldade financeira. Como, felizmente, faço parte da população que “rala” muito para ter o que precisa e de forma lícita, foi muito difícil conseguir financiamento dos órgãos competentes, o que somente aconteceu depois de muito tempo e sem ajuda política.

Revista Mercado Uberlândia: E quais as dificuldades para manter o negócio? O senhor acha que existe alguma diferença por ser um negócio relacionado à saúde?
Infelizmente, no Brasil, saúde e educação não são prioridades dos nossos governantes; estas apenas são lembradas durante campanhas políticas. Sendo assim, a população recebe pouca ou nenhuma assistência, restando aos hospitais particulares a incumbência de oferecer medicina de melhor qualidade. Com isso, os pacientes são obrigados a fazer planos de saúde para ter acesso a melhores tratamentos. Entretanto, medicina de melhor padrão tem custo mais elevado. Como sofremos controle rigoroso de preços, temos mais dificuldade para administrar o negócio. No final, ninguém está feliz com o atual sistema. Nem o paciente, que se preocupa com a qualidade do tratamento; nem os médicos, com rendimentos reduzidos, mal remunerados pelos planos de saúde e sobrecarregados de trabalho; nem os planos de saúde e, tampouco, os fornecedores de medicamentos e outros materiais, como também o governo, que não consegue controlar o orçamento. Portanto, de uma forma geral, a saúde mundial está na UTI. O sistema de saúde nos Estados Unidos deixou de ser orgulho nacional e hoje é uma das maiores preocupações daquele país, que gasta quase US$ 2 trilhões anuais com assistência à saúde. O Brasil, com a economia melhorando, está caminhando para uma situação parecida. As partes envolvidas dentro do sistema de saúde têm muitos interesses conflitantes e não conseguem trabalhar para atingir um propósito comum. De acordo com um dos maiores estrategistas da atualidade (Michael E. Porter), devemos repensar a saúde com estratégias para melhorar a qualidade e reduzir os custos. No caso do Orthomed Center, como nosso foco principal é ortopedia e traumatologia, trabalhamos para oferecer o melhor tratamento possível e atingir todas as expectativas dos pacientes: atendimento com excelência do hospital e equipe médica, menor custo e resultado final atingido com resolução das patologias.

Revista Mercado Uberlândia: Praticamente em 100% dos negócios hoje se fala em falta de profissionais qualificados. Isto também é uma carência para vocês? Como fazem para transpor essa deficiência?
Temos uma estrutura muito bem organizada e com protocolos muito bem definidos em que, apesar da falta de gente qualificada, a máquina continua trabalhando corretamente. Estimulamos nossos colaboradores a fazerem cursos específicos em cada área de atuação, damos incentivo financeiro para cursarem faculdade e, no geral, mostramos que trabalhar em nosso hospital é fazer parte de uma família que tem uma meta bem definida: qualidade de atendimento e resolução de problemas de saúde. Quem não se ajusta não fica. Com relação à equipe médica, todos são ortopedistas e traumatologistas, porém, trabalhando e sempre se reciclando em áreas de atuações específicas. Fazemos cursos de reciclagem anualmente no Brasil e exterior. Nosso atendimento médico é feito exclusivamente por profissionais que fazem parte do corpo clínico, tanto nos consultórios quanto no pronto atendimento. Portanto, qualificação não é problema importante. No Orthomed Center as pessoas se qualificam muito rápido e com mais facilidade devido ao nosso protocolo.

Revista Mercado Uberlândia: Quais os requisito, básicos na hora de contratar os profissionais? Que características não podem faltar?
Em primeiro lugar gostar daquilo que faz. Fazer o melhor possível. Ser metacompetente, ou seja, fazer além e melhor do que foi contratado para fazer. Nem sempre o melhor profissional é aquele que tem mais diplomas. Preferimos aquele que tem maior facilidade para superar problemas.
Temos empresa contratada de RH responsável para auxiliar na contratação do pessoal.

Revista Mercado Uberlândia: Apesar dos problemas, a medicina evoluiu e continua evoluindo a cada dia. O senhor concorda com essa afirmação ou ainda temos muito a percorrer? O que o paciente pode esperar hoje dessa evolução?
A medicina nunca para de evoluir e diariamente são feitos estudos em todo o mundo para buscar a resolução deste ou daquele problema. Entretanto, lidamos com seres humanos e com sistema orgânico hiper complexo, onde transformações também acontecem a cada dia. Estamos sujeitos a fatores extrínsecos nocivos à saúde e quando entram em conflito com fatores genéticos, surge uma nova doença. Acredito que os problemas que a própria raça humana tem gerado desde que pisou no planeta terra estão se voltando agora contra seus mentores. Por isso, não adianta cobrar somente daqueles que procuram encontrar a cura das doenças. Devemos fazer nossa parte com boa educação alimentar, exercícios físicos frequentes, ser mais racionais ao tratar nossos problemas e cuidar da mãe natureza.

Revista Mercado Uberlândia: E falando do relacionamento médico/paciente, há alguma mudança importante que pode ser considerada de alguns anos para cá?
O médico moderno não pode mais pensar em fazer somente o que aprendeu na faculdade. O diagnóstico, que é o objetivo principal da consulta, pode necessitar de conhecimentos que nenhuma escola ou faculdade tem condições de oferecer. O paciente pode apresentar problema que não é da área de atuação do médico e, mesmo assim, devemos saber como identificar as causas e encaminhar ou tratar as patologias de forma correta. Relacionar-se com pacientes não se aprende em pouco tempo. Adquire-se com o passar do tempo e a curva de aprendizagem é muito longa. Às vezes, somente aprendemos quando já não temos muito cabelo ou estes se tornam grisalhos. Os pacientes, por sua vez, têm informações de sua doença através do acesso à internet e, frequentemente, nos procuram com diagnóstico pronto e sabendo de tudo sobre seu problema. Por isso, necessitamos de nos reciclar diariamente e aproveitar a medicina globalizada através de sites oficiais e específicos na internet. Se você trabalha confortavelmente, gosta daquilo que faz, tem metacompetência e qualidade de atendimento, o relacionamento médico/paciente não é problema.

Revista Mercado Uberlândia: Que lições o senhor tira do exercício diário da medicina?
Sempre estou aprendendo com meus pacientes. A vantagem de ser médico é que cada paciente tem um problema específico e nosso local de trabalho é como se fosse um grande livro que contém várias histórias de vida. Todo médico tem um fardo para carregar. Faz parte de nossa vida. Temos obrigação de ajudar àqueles mais necessitados e permitir acesso à medicina bem feita e com qualidade. A maturidade profissional somente é atingida quando o médico consegue ver seu paciente como paciente e não como negócio. Não acho errado agir como Robin Hood, ou seja, cobrar mais de quem pode mais. Por outro lado, vejo algumas operadoras de saúde que visam apenas ao próprio crescimento, dificultando o trabalho dos médicos e hospitais, sendo que no final de tudo quem sai perdendo é o paciente. É possível fazer medicina bem feita, ganhando o suficiente para viver bem com trabalho digno e fazendo bem às pessoas. Enfim, nunca deixamos de aprender com a medicina.

Revista Mercado Uberlândia: O curso de Medicina sempre foi um dos mais concorridos nas diversas universidades do país. Como o senhor considera a qualidade do ensino da Medicina hoje? Sempre se ouve falar de erros médicos e de outros problemas relacionados a esse universo. Como ter uma medicina 100% segura?
O Brasil não necessita de mais escolas de medicina. Ainda assim, novas faculdades são abertas graças às facilidades e ao “jeitinho” brasileiro em que a política novamente entra em cena. Com isso, formam-se profissionais sem condições de trabalho e que visam somente a lucrar com a profissão e têm o paciente apenas como negócio. A maioria dos médicos que se formam preferem ficar na região sudeste, onde a qualidade de vida é melhor. Em nossa região já temos problemas de mau uso da profissão e profissionais incapazes, imagine no restante do país. A gestão do sistema de saúde em geral está errada e, com isso, a medicina bem feita está se deteriorando cada vez mais. Estamos caminhando para um verdadeiro caos e nada tem sido feito. O paciente será o maior perdedor.

Revista Mercado Uberlândia: O Orthomed Center acaba de receber um selo de segurança e qualidade, chamado de Acreditação Hospitalar, sendo o primeiro e único da rede privada de Uberlândia a conseguir isso. Por que resolveram buscar essa certificação? O que muda no atendimento ao cliente e no hospital como um todo?
Acreditação hospitalar é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) fator estratégico para o desenvolvimento da qualidade da saúde na América Latina. Em hospitais na Europa e nos Estados Unidos, a população tem maior predileção por hospital com selo de acreditação. Por isso, resolvemos partir para ACREDITAÇÃO hospitalar, certificando dessa forma a qualidade no atendimento e melhor gestão de instituição de saúde. Como somos vigiados constantemente pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), somos obrigados a cumprir normas, protocolos e metas voltados para o melhor cuidado dos pacientes e à gestão de serviços. Consequentemente, temos mais qualidade em todos os setores e muito menor incidência de complicações para o paciente. Todos saem ganhando.

Revista Mercado Uberlândia: A pretensão é estar entre os dez melhores hospitais do Brasil. Como o senhor avalia o seu negócio para os próximos anos e quais os principais desafios para alcançar essa meta?
Sempre gostei de desafios. Meu sonho era ter uma clínica e hoje tenho um hospital. Meus filhos optaram por fazer medicina por desejo próprio. Nunca interferi na decisão deles. Já que resolveram seguir a profissão médica, tenho que continuar meu negócio e deixar o patrimônio para eles. Nada melhor que deixar como patrimônio condições para continuarem a mais nobre das profissões, que é cuidar do ser humano, vivenciar o dia a dia e os problemas de saúde das pessoas, poder ajudar e ter o privilégio de ser iluminado por Deus para tratar dos doentes. Isso tudo ninguém pode tirar. Patrimônio em dinheiro pode acabar um dia. O diploma de medicina ninguém lhe toma. Basta saber trabalhar bem, com competência e dignidade. O restante é consequência. Sendo assim, e por isso tudo, queremos ampliar o hospital ainda este ano e a ampliação será em todos os sentidos: fisicamente e continuando com a mesma qualidade para chegar a ser um dos dez principais hospitais especializados em ortopedia e traumatologia dos país. O caminho já foi traçado há oito anos. Basta continuar fazendo bem feito.

Revista Mercado Uberlândia: Vocês agora vão investir cerca de R$ 4 milhões no projeto de expansão. Existe mercado para isso?
Tomara que fique somente nesse valor. A população de pacientes idosos tem aumentado bastante graças ao aumento da expectativa de vida. Mesmo assim, independente de idade, todos buscam melhor qualidade de vida e a procura por serviços médicos é muito grande, tanto para prevenção como para tratamento das patologias. Além disso, Uberlândia é considerada importante centro médico na região, no estado e no país. O progresso e o constante crescimento atraem investidores e gente disposta a trabalhar. O retorno para serviços médicos de qualidade e especializados é certo e há oito anos iniciamos nossa jornada. Basta continuar trabalhando e acreditar sempre.

Revista Mercado Uberlândia: Como vocês vêem a reciclagem profissional? O corpo clínico e demais colaboradores passam por atualizações constantes?
A reciclagem profissional é obrigatória no hospital e realizada pelos gerentes de setores e com frequentes reuniões com todo pessoal colaborador. Com relação à equipe médica, sempre participa de eventos, congressos e jornadas no Brasil e exterior. Há oito anos fazemos reunião clínica semanalmente com aulas e discussões de casos clínicos, sempre procurando exercer a melhor medicina possível, e baseados em evidências.

Revista Mercado Uberlândia: Que conselho o senhor deixa para quem tem vontade de começar um negócio próprio?
No meu caso tudo aconteceu sem planejamento. Apenas pela vontade de realizar um sonho. Por isso, no início recebi críticas e fui muito desacreditado por todos. Felizmente deu certo. Agora, para a ampliação, estamos com uma consultoria para entender melhor o mercado e tudo está sendo realizado com planejamento. Para quem quer começar um negócio, além de gostar do que faz, é importante ter vocação natural, analisar previamente o mercado e ter coragem para enfrentar as adversidades que acontecem em qualquer negócio.

Revista Mercado Uberlândia: E para quem pretende cursar Medicina, o que é preciso ter em mente? Quais conselhos daria?
Em primeiro lugar ter vocação. Saber que o fato de trabalhar com seres humanos e com patologias exigirá dedicação e muito estudo. Reconhecer que todo médico tem um fardo para carregar e ajudar pessoas mais necessitadas faz parte da profissão. A entrega deve ser total. Amar ou largar.