Entrevista

Revista Mercado Edição 51 - maio 2012

O homem que mudou o conceito de boteco

Da Redação

Eduardo Maya, gastrônomo e idealizador do concurso Comida di Buteco

Até o final de década de 1990, a imagem do boteco estava normalmente associada a pequenos estabelecimentos comerciais, instalados em algum canto de rua, que subsistiam basicamente da venda de uma meia quantidade de bebidas, principalmente a “marvada pinga”, cigarros e alguns poucos salgados preservados em estufas, tudo servido no balcão. Mas a realidade não era bem essa. Muitos desses estabelecimentos serviam bebidas e drinks para os mais diversos gostos e uma infinidade de petiscos e tira-gostos que eram verdadeiros “manjares” para o paladar do cliente, além de contar com atendimento de mesa em mesa. Contudo, mesmo que alguns desses comércios fossem diferenciados, não despertavam a atenção necessária além da de seus frequentadores normais e, portanto, funcionavam meio que à margem da sociedade. Porém, tanto a rotulagem como a imagem do boteco começaram a mudar no início da década de 2000, graças à iniciativa do mineiro Eduardo Maya, que teve a “gostosa” ideia de criar um concurso para dar mais notoriedade e atrair a atenção do público para os botecos de Belo Horizonte, capital mineira. Nascia ali o concurso Comida di Buteco.
Como Maya próprio define: “Há séculos o boteco faz parte da paisagem de nossas cidades. Mas por ser um espaço de comércio popular, não despertava a atenção necessária e, portanto, vivia à margem da sociedade. Quando o Comida di Buteco começou em Belo Horizonte, foi como se colocássemos um holofote sobre toda a riqueza da culinária de raiz da nossa região e desses estabelecimentos que têm, em sua maioria, uma história familiar por trás”.
A primeira edição do Concurso, em 2000, teve 10 estabelecimentos participantes e, de cara, conquistou a excelência tanto de público quanto de critica. Na prática, o objetivo era eleger o melhor boteco, através de votos dos próprios clientes, nos quesitos tira-gosto, atendimento, higiene e temperatura das bebidas servidas pelos estabelecimentos participantes. Em 2005, o Comida di Buteco já era o maior concurso do gênero do Brasil. Em 2007, o evento foi citado no New York Times, conquistando não só os brasileiros, mas também os gringos. Em 2008, ganhou a associação dos executivos Ronaldo Perri e Flávia Rocha, que expandiram o evento para as cidades do Rio de Janeiro, Goiânia e Salvador. Em 2010 e 2011, o concurso ainda ganhou a participação das cidades de Ipatinga, Montes Claros, Poços de Caldas, Uberlândia, Ribeirão Preto, Rio Preto, Belém, Fortaleza, Juiz de Fora e Manaus.
Agora, em abril, pela terceira vez consecutiva, Uberlândia recebe o Comida di Buteco. Desta vez, com o status de maior e mais consagrado concurso gastronômico do Brasil. Em sua passagem pela cidade, o idealizador do concurso, Eduardo Maya, bateu um papo com a reportagem da revista MERCADO, abordando, entre outras questões, o evento e as novidades desta edição 2012.

MERCADO – Quando surgiu a ideia de montar um concurso gastronômico? Você percebeu que o público de boteco pedia por isso?
Eduardo Maya – Na realidade, o público estava acostumado com a falta de criatividade dos botecos. Os cardápios eram sempre os mesmos, ou seja, engessados. Foi quando tive a ideia de criar um concurso que valorizasse a culinária de raiz.

Você já parou para contar quantos botecos você já visitou desde a primeira edição do Comida di Buteco?
Passei por mais de sete mil botecos.

Qual a diferença entre jantar num renomado restaurante e em um boteco familiar? A diferença está apenas no bolso do consumidor?
São duas experiências fantásticas, porém distintas. A comida de boteco nos recorda a cozinha da nossa casa, é algo familiar. As porções, os petiscos falam sobre aquele determinado local e podem nos fazer recordar de nossa infância, de nossa terra natal. Para te dar um exemplo, um grupo de alemães migrou para os Estados Unidos e viveu por lá a vida toda. Mas durante todo esse tempo comeu apenas comida alemã.

“A comida de boteco nos recorda a cozinha da nossa casa, é algo familiar”

Todos sabem da sua busca pela culinária de raiz. A identidade gastronômica realmente valoriza uma determinada região?
Ela conta a história de uma região. Cria vínculos e identidade. Por isso, estamos homenageando Minas Gerais este ano. O Comida di Buteco definiu que nesta edição todas as cidades do estado participantes do concurso devem utilizar o queijo Minas nos pratos concorrentes. Esse produto é um símbolo mineiro. Quem não conhece ou não gosta do queijo Minas?!

É por isso que muitas pessoas viajam para localidades que possuem culinárias autênticas, por exemplo, para Minas Gerais, Bahia e Pará na busca de abandonar a dieta?
Claro. Para se ter ideia, no Comida di Buteco recebemos mais de 25 mil turistas. Só em Belo Horizonte foram mais de 17 mil pessoas.

Até onde o Comida di Buteco colabora para essa busca de identidade?
Essa é a nossa missão. Trabalhamos em função disso. Quando damos a oportunidade do botequeiro montar um prato típico de sua região, estamos colaborando totalmente para a identidade do local.

Você pode citar um exemplo de um boteco que optou por um prato “menos sofisticado”, vamos usar esse termo, e se tornou referência até mesmo depois de o concurso ter sido finalizado?
O Zito’s Bar. Antes era um estabelecimento bem simples, frequentado por caminhoneiros. Após o Comida di Buteco, o proprietário ampliou, modernizou e conquistou muitos clientes. Pouco tempo depois, comprou uma casa em frente ao seu boteco.

Com o cliente fidelizado as vendas sobem. Com o concurso, certamente, muitos estabelecimentos conseguem aumentar sua demanda. No geral, quanto o Comida di Buteco traz de retorno para os botecos participantes?
Os botecos vendem 30% mais.

Esses números representam apenas o período do concurso?
Sim. Caso o botequeiro consiga fidelizar o cliente, suas vendas vão subir cinco vezes mais.

Para vender tanto, os estabelecimentos precisam se preparar, principalmente com relação à mão de obra. O Comida di Buteco colabora de alguma forma com a gestão do boteco?
Organizamos reuniões e treinamentos através de parcerias como a do Senac, que oferece palestras sobre noções de higiene e atendimento. O foco é colocar na cabeça do proprietário a seguinte mensagem: fidelize seu cliente.

Quantos empregos são gerados durante o período do Comida di Buteco?
Diretamente são mais de mil. Posso citar o Bar do Zezé, tricampeão do Comida di Buteco em Belo Horizonte, que não tinha nenhum garçom e hoje possui uma equipe com 20. Antes do concurso, o boteco tinha apenas quatro mesas, atualmente são 40.

Assim como Uberlândia, em mais quinze cidades está acontecendo o mesmo evento, não é mesmo? Como é organizar isso tudo ao mesmo tempo?
Temos uma equipe que trabalha o ano todo. Temos um produtor local que elabora a lista de botecos para que eu possa definir depois. No mais são parceiros para serviços específicos.

Pela primeira vez, São Paulo recebe o concurso e logo entra no roteiro como a cidade com maior número de botecos participantes, 50, superando Belo Horizonte, com 41. Qual é a expectativa do Comida di Buteco para a capital econômica do país?
A melhor possível. Conseguimos parcerias com o Estadão e com a TV Globo. Vamos entrar como Napoleão invadiu a Rússia.

Por que o concurso demorou tanto para chegar até os paulistanos?
Foi por conta de um acordo de cavalheiros. Antes existia um evento parecido com o nosso e não era legal bater de frente.

Uberlândia já pode ser considerada uma das principais cidades do roteiro do Comida di Buteco? Como você percebe a evolução dos estabelecimentos com a permanência do evento na cidade? E do público participante?
Em Minas sim. Ainda temos um número de votos que não condiz com a cidade, o que é normal. Em Salvador e no Rio de Janeiro o evento também demorou um pouco para pegar. Este ano acredito que o Comida di Buteco vai entrar no gosto do uberlandense.

Já pensou em incluir uma cidade internacional no concurso, por exemplo, Buenos Aires?
Sim. Até fomos convidados a realizar o concurso em Salamanca (Espanha), Lisboa (Portugal), Miami (Estados Unidos) e Buenos Aires (Argentina). Mas ainda não é o momento. Vamos consolidar o Comida di Buteco em todo o Brasil primeiro, depois podemos sair.

Como você enxerga o atual momento da gastronomia brasileira? Estamos entre as referências mundiais?
Não estamos. Temos tudo para ser a bola da vez, mas ainda não somos. Por enquanto, na América Latina, é o Peru. O Brasil precisa entender a importância do turismo para que possamos nos tornar uma potência gastronômica. Estamos próximos de sediar os Jogos Olímpicos e uma Copa do Mundo de Futebol, podemos tirar bastante proveito disso.

Podemos afirmar que comida é um bom investimento? E qual receita o novo empreendedor da área precisa incluir em seu cardápio para alcançar o sucesso?
Comida é um excelente investimento. O sujeito não tem o que vestir, mas se ganhar um trocado ele opta por comer. Para conseguir o sucesso o segredo é não desistir.

Para encerrar, uma pergunta que não quer calar: qual o seu prato predileto?
Todos.

“O foco é colocar na cabeça do proprietário a seguinte mensagem: fidelize seu cliente”