Entrevista

Revista Mercado Edição 37 - dezembro 2010

Moda, coisas e tal… Em foco: Alexandre Herchcovitch

POR Natália Nascimento (Prog. Aprimoramento Profissional)

Qual apaixonado por moda ainda não conhece a história de Alexandre Herchcovitch ou, no mínimo, já não ouviu falar dele? Para quem ainda não, esse paulistano é um dos nomes mais ilustres do mundo da moda no Brasil. Conhecido também internacionalmente, Herchcovitch já desfilou em cidades como New York, Londres, Paris, além do SPFW e Fashion Rio. Trabalhou na Ellus e na Zoomp, foi diretor de estilo da Cori, tem sua própria marca (Herchcovitch) e ainda é diretor de criação dos cursos de Design de Moda (estilismo e modelagem) do Senac de São Paulo.
Foi por influência de sua mãe, dona de uma microempresa de lingeries, que esse renomado estilista brasileiro decidiu colocar seus dotes “artísticos” em prática. Mas nada aconteceu de uma hora para outra. Antes, ele fez fotografia por dois anos, mas sem deixar a moda de lado, pois ainda achava tempo para acatar encomendas de amigos e desenhar roupas para sua mãe. Quando concluiu o ensino médio, como ainda não havia escolas de moda, Alexandre optou por estudar Artes Plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), mas logo percebeu que sua vocação não era exatamente produzir arte e, sim, fazer uso dela. Diante disso, quando surgiu a oportunidade, ele se transferiu para a Faculdade Santa Marcelina (FASM), onde fez Curso de Desenho de Moda até 1993.
Desde o início de sua carreira, o estilista Alexandre Herchcovitch sempre se destacou pela inovação, tanto na criação da moda que vai para as passarelas nacionais e internacionais como também na extensão desse trabalho. Sua assinatura está presente nos mais diversos produtos, além de roupas, também em roupa de cama, louça e até band-aid – só para citar alguns.
Nesta entrevista concedida durante visita a Uberlândia, em novembro, para participar do “6º Fórum de Moda com Ideias”, Herchcovitch falou de si, de criação, da moda, de coisas e tal.

Alexandre Herchcovitch

Revista Mercado Uberlândia: Como surge a ideia de uma coleção? Onde você busca inspiração para desenhar seus modelos?
A inspiração e toda a minha motivação vêm um pouco do próprio histórico da minha marca, de tudo aquilo que eu já fiz, e, às vezes, acabo refazendo coisas que fiz no passado, mas não explorei a fundo. Vem também de novas propostas, de novos desafios que encontro por aí e de novos temas que acabo introduzindo em minhas coleções e que fazem com que eu mostre sempre uma novidade.

Revista Mercado Uberlândia: O que mais te dá prazer no processo de criação?
Eu continuo gostando da construção da roupa. Então hoje, o meu contato com a costura e a modelagem é um pouco menor do que há alguns anos atrás por pura falta de tempo, e, também, por eu me dedicar a outros assuntos. Tenho uma equipe que trabalha em costura e modelagem, mas continuo no que acredito ser o mais importante para se ter uma coleção coerente: a correção da roupa. Eu presencio as provas de roupas da coleção, para que no final do processo elas fiquem perfeitas, como imaginei.

Revista Mercado Uberlândia: O que não pode faltar na sua coleção?
Isso é bastante relativo. Existem algumas características da marca que a gente persegue e repete sempre. Acho que a alfaiataria é um ponto superforte, tanto feminina quanto masculina; é algo que realmente, dentro de uma coleção e de uma confecção, é o mais difícil de se fazer. Então, considero a alfaiataria uma característica da marca. E estampas, cores… Daí por diante, depende do momento.

Revista Mercado Uberlândia: Você é eclético quando o assunto é criação. Já apresentou diversas criações diferentes, sofás, isqueiros, louças, band-aids, etc. Como é esse processo?
No caso dos isqueiros, fiz uma linha com a Bic alguns anos atrás; e a linha de band-aids criei com a Johnson & Johnson. Foram trabalhos esporádicos que tiveram duração específica dentro das lojas, um número limitado de vendas. São maneiras diferentes de usarmos nossa criatividade sem ser exatamente fazendo roupas. Obviamente existem diferenças no processo de criação, há limitações. Quando você vai criar um isqueiro, por exemplo, você tem aquela função, acender com seu próprio jeito, então o trabalho acaba sendo um pouco mais suave. Todos têm seu formato, então a criação ficou limitada em cima disso. Já quando crio a minha linha prêt-à-porter ou a jeans wear, tenho muito menos limitações do que em relação a outros produtos que já são previamente formatados.

Revista Mercado Uberlândia: Como você lida com a alternância de temas em seus desfiles, ou seja, partir de uma determinada coleção e, seis meses depois, estar apresentado outra totalmente diferente?
A cada seis meses você tem que criar novos produtos, e hoje, as minhas coleções têm em torno de 200 itens, fora todos os produtos licenciados que dão mais 500 itens por ano. É por isso que falo que a profissão é cruel. Você tem que inovar a cada coleção, não mostrando algo totalmente novo, mas uma nova maneira de enxergar o que a marca já é, permanecendo com sua personalidade, o DNA da marca. E se eu apresentar a mesma coisa e trabalhar em cima do mesmo tema, fatalmente as roupas ficarão parecidas. Então, o fato de escolher novos temas e trabalhar novas ideias me ajuda a criar novidades.

Revista Mercado Uberlândia: A caveira é a sua marca e também uma imagem que quase sempre aparece nas suas coleções. Qual é a mensagem por trás disso? Porque escolheu uma caveira para ser sua “marca registrada”? Existe alguma relação entre isso e aquela sua coleção de 2004, inspirada no “Zé do Caixão”?
Na verdade a caveira é um símbolo de que eu gosto desde criança, coleciono caveiras de brinquedo. Tenho memória de gostar de assuntos ligados à caveira, ao terror e tudo mais. A primeira peça que fiz e comercializei foi uma camiseta branca estampada de caveira. Acabou que essa camiseta existe até hoje, é um item que existe há quase 20 anos. Então acho que acabou sendo uma marca. Hoje, não mais marca registrada, ela se tornou só um ícone que as pessoas têm na cabeça, pois a utilizamos de uma maneira muito sutil, não em grande escala, aparecendo às vezes em coleções, porém quase sempre não na passarela. Mas é claro como esse universo é instigante para mim, e eu gosto. Por isso acabo me aproximando de assuntos que são parecidos, como o Zé do Caixão, como uma coleção de inverno que fiz há um ano atrás, em que os modelos foram pintados com crânio na cabeça. Isso acaba aparecendo, de uma maneira ou de outra, em coleções.

Revista Mercado Uberlândia: Saindo do Brasil, como foi levar o seu trabalho, a sua marca, para passarelas do exterior, para outro tipo de mercado? Foi um desafio?
Todo novo trabalho e nova realidade é um desafio. Na verdade, percebemos que as minhas criações podiam ser consumidas por qualquer pessoa e não só por pessoas do Brasil. Então, iniciamos um processo de internacionalização da marca em 1996, quando começamos a vender nos Estados Unidos e na Inglaterra; e, em 1998, decidimos desfilar fora do Brasil. Começamos desfilando em Londres, depois Paris e, agora, há nove coleções desfilamos em Nova Iorque.

Revista Mercado Uberlândia: Quem olha para o mundo da moda pensa logo em glamour… Mas, e nos bastidores, também há glamour?
O trabalho não combina com essa palavra, glamour. O meu mundo, pelo menos, é 100% do tempo voltado ao trabalho, à rigidez, à coerência, e o tal do glamour eu nem sei o que é. Então, na verdade, existe aquela imagem da passarela em que as mulheres estão bonitas, os homens também, e isso é muito ligado à estética e à beleza. Assim, quando as pessoas falam do glamour da moda, penso que elas estão falando de estética e beleza. Mas é um ramo e um mundo como qualquer outro. É uma indústria que requer muito trabalho, que é muito mais complexa de se fazer funcionar do que uma de parafusos, por exemplo, porque nessa você tem uma matéria-prima, uma matriz e nunca precisa mudar a forma. O parafuso é aquilo para o resto da vida. Agora roupas, de seis em seis meses temos que criar uma coleção nova, que vá seduzir o cliente para que ele volte novamente à loja. Então é um mundo muito cruel.

Revista Mercado Uberlândia: Pra quem está começando no ramo da moda, especificamente como estilista, que conselhos você daria e quais oportunidades essa pessoa deve buscar?
É bom observar que não existe somente a carreira de estilista. Existem outras profissões dentro do Mercado de moda. Primeiro, entender se é exatamente aquilo que a pessoa tem como vocação e se é aquilo que a pessoa quer fazer dentro da área de moda, levando em conta as diversas outras profissões que existem dentro dessa área. Assim que detectar aquilo que realmente quer, fazer uma pesquisa particular. Acho que quem quer ser estilista, trabalhar com roupa, mesmo que não vá costurar e modelar a vida inteira, tem que aprender a construir a roupa, para que na hora de pedir algo para a sua modelista, para a sua costureira, possa falar de igual para igual. Porque, se ela te fizer uma pergunta, você tem que saber responder claramente dizendo o que quer. Então é fundamental que entenda de construção, modelagem e costura.

Revista Mercado Uberlândia: Para quem o tem como exemplo, para ser um estilista completo é preciso de uma formação acadêmica?
Acho que precisa de uma formação acadêmica sim, mas só essa formação acadêmica ou só o autodidatismo não funcionam. Na verdade, se você é autodidata você está perdendo alguma coisa que a faculdade pode te dar, e se você fizer só faculdade e não fizer uma pesquisa particular sobre aquilo que você gosta e fizer o seu próprio repertório, você também não vai conseguir nada tendo somente a formação acadêmica. As duas coisas se completam. Mas, sem dúvida, a formação acadêmica no Brasil está cada vez mais forte. Por exemplo, quando me formei, em 1993, nenhum professor tinha vindo da área de moda, porque não existia ninguém formado ainda. E, hoje, os professores das faculdades de moda são formados no assunto, com mestrado e doutorado e tudo mais em moda.

Revista Mercado Uberlândia: Como é criar e gerir o próprio negócio?
Na verdade a gestão do meu negócio não é feita por mim. É feita por uma equipe do grupo Imbrand, que comprou minha marca. Então, hoje sou só o diretor de criação da marca, a gestão fica por conta de um outro grupo de pessoas.

Revista Mercado Uberlândia: O seu livro “Alexandre Herchcovitch: cartas a um jovem estilista. A moda como profissão”, traz a seguinte citação: “Vender moda muito além do mero vender roupas, ou seja, vender um estilo de vida”. O que você quer dizer com isso?
Quis dizer que quando as pessoas estão comprando roupa elas estão comprando muito além de uma peça que vai cobrir o corpo, ou abrigar do frio, cobrir alguma necessidade. Na verdade, as pessoas estão comprando uma expressão, estão comprando uma roupa através da qual elas vão se expressar para as outras pessoas e mostrar o seu modo de vida a partir dela. Foi isso que quis dizer.

Revista Mercado Uberlândia: Falando mais sobre você, como surgiu o seu interesse pela moda?
Falando um pouco do meu histórico, comecei a gostar de moda, ou pelo menos a entender que era aquilo que iria fazer dali pra frente quando era uma criança, um pré-adolescente. Eu ficava observando a minha mãe costurar em casa roupas para ela, além de costurar, modelar, cortar e mexer com tecido. E eu ficava fascinado com o poder que ela tinha de transformar um tecido em uma escultura, em uma roupa, em algo que era tridimensional. Então, pedi para ela me ensinar a costurar e a fazer tudo aquilo que eu a via fazendo. E foi aí que começou a minha paixão por roupa e por moda.

Revista Mercado Uberlândia: Além dela, outras pessoas te inspiraram?
Na verdade, quando eu comecei a fazer roupas, a minha preocupação não era que estilo a minha roupa iria ter, eu nem imaginava que teria uma marca. A minha preocupação era aprender a construir a roupa. Era aprender tudo aquilo que via a minha mãe fazendo. Muito mais tarde foi que vim a aperfeiçoar o meu estilo, até chegar hoje ao que é o estilo Alexandre Herchcovitch. Então, durante esse tempo todo, recebi influência de tudo o que você pode imaginar. E ainda recebo, porque trabalho de uma maneira muito livre, muito aberta, então observo muitas coisas que acontecem no mundo, e tudo pode acabar influenciando meu trabalho.

Revista Mercado Uberlândia: Qual foi o seu primeiro contato com o trabalho nesse setor?
Em uma confecção de lingerie que minha mãe abriu; comecei a trabalhar com ela nessa confecção informalmente, pois eu ainda era um adolescente… Estudava. Tive um contato muito próximo com materiais de lingerie, rendas, e todo esse universo do underwear que, hoje, em alguns dos meus trabalhos, isso aparece, essa influência aparece.

Revista Mercado Uberlândia: Teve algum momento muito difícil ao longo de sua carreira em que você tenha considerado desistir da moda?
Na verdade, nada é fácil. Acho que as únicas armas que eu sempre tive foram a coragem, a cara de pau mesmo, ao enfrentar todo mundo com aquilo que eu pensava, com aquilo que eu penso, e colocar a minha personalidade nas minhas criações. Então, a partir do momento em que tudo aquilo que eu faço é uma verdade, porque corresponde exatamente àquilo que gosto, àquilo que eu sou, as portas se abrem e tudo fica relativamente mais fácil de acontecer. Minha família é uma família de classe média normal. Eu sempre tive ajuda dos meus pais desde o começo dentro de casa. A primeira máquina de costura que tive, quem me deu de presente foi meu pai, então eu sempre tive muito apoio dentro da minha casa. E nunca sofri rejeição quanto à minha escolha, a escolha da minha profissão. Então, isso já me deu força para continuar a fazer tudo que faço até hoje. Eu nunca pensei em desistir. Em vez de pensar em desistir, eu penso sempre em fazer mais coisas.

Revista Mercado Uberlândia: Para finalizar, quem é Alexandre Herchcovitch? Como você se autodefine?
Uma pessoa como outra qualquer, que conseguiu através do trabalho se realizar.