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Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

Mercado de trabalho: há vagas, faltam profissionais

POR Margareth Castro com agências e CNI

Empresários têm dificuldades para contratar devido à escassez de mão de obra qualificada em vários setores da economia. É o chamado apagão profissional

Basta uma volta pela cidade ou pelos shoppings para ver cartazes de “contrata-se”. A procura é por pedreiros, padeiros, costureiras, vendedores, garçons, operadores de máquinas. Mas, a necessidade é tanto de profissionais de nível médio quanto superior, pois também faltam engenheiros e médicos. Só no Sine, em Uberlândia, há duas mil vagas de emprego disponíveis, sendo a maioria para o setor de serviços, que envolve as áreas de telemarketing, logística, supermercado e outras.  Alguns postos estão sendo oferecidos há quase dois meses, sendo que, em 2009, o prazo para uma colocação era de, no máximo, 15 dias. Em síntese, a realidade atual do mercado de trabalho é uma só: empregos existem e pessoas interessadas também, o que falta são trabalhadores qualificados que se encaixem nas exigências das empresas.
Em fevereiro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu que a falta de mão de obra qualificada no Brasil é um dos grandes problemas que o país terá que enfrentar se quiser continuar crescendo. Para ele, a tarefa de preparar os trabalhadores para entrar no mercado de trabalho é tão importante quanto a de melhorar as contas do país com o exterior e resolver os problemas causados à indústria brasileira pelo dólar barato. “Um dos gargalos que podemos ter para a continuação do crescimento do país é a escassez de mão de obra com a qualificação adequada. Então, temos que juntar esforços e implantar no país um grande programa de qualificação de mão de obra”, falou.
No mês passado, em outra declaração, Mantega informou que o governo federal já estaria preparando um programa de qualificação de trabalhadores, que deverá ser anunciado em breve. Ele também voltou a admitir que a falta de mão de obra qualificada é uma das barreiras da economia do país e que o governo federal espera minimizar o problema investindo em formação universitária e em ensino profissionalizante.
O ministro afirmou ainda que esse tipo de investimento aumentou muito nos últimos anos, mas ele ainda não surtiu o resultado esperado, pois partiu de um patamar muito baixo.
E, após afirmar que a falta de mão de obra qualificada é um efeito colateral do crescimento econômico do país, Mantega procurou amenizar a situação ao dizer que esse problema é menor do que o do desemprego, enfrentado pelo Brasil anos atrás.
O certo é que vários setores da economia brasileira, entre eles a indústria, o comércio e a construção civil, reclamam da falta de profissionais qualificados. O desemprego nos menores níveis da história mostra que o cenário futuro é positivo, mas a qualificação do mercado de trabalho em geral ainda deixa a desejar.

Guido Mantega, ministro da Fazenda: “Temos que juntar esforços e implantar no país um grande programa de qualificação de mão de obra”

Realidade de Uberlândia reflete a do país

A diretora do Sine, em Uberlândia, Daisy Afonso, admite a dificuldade generalizada de se contratar profissionais, tendo em vista a maior oferta de vagas em relação ao número de trabalhadores disponíveis no mercado

Das atuais vagas disponíveis no Sine, em Uberlândia, cerca de 2 mil, 884 não exigem experiência nem escolaridade, o que poderia facilitar o preenchimento. Mas, na prática, isso não está acontecendo. De acordo com Daisy Afonso, diretora do Sine, há uma dificuldade generalizada em contratar, pois a oferta está maior do que a demanda de trabalhadores. Segundo ela, em função disso está ocorrendo uma espécie de “leilão”, ou seja, o trabalhador está escolhendo onde quer trabalhar e a opção não é só pelo cargo, mas pelo melhor salário, benefício e outras vantagens oferecidas pelas empresas.
A realidade de Uberlândia acompanha a do país. O principal motivo para o não preenchimento dos postos de trabalho é a falta de qualificação da mão de obra, o que compreende baixo nível de escolaridade, carência de preparo técnico e pouca experiência. Em função disso, especialistas em economia e em mercado de trabalho já falam no risco de apagão profissional.
E a falta de trabalhadores qualificados pode ser percebida pelos números. De janeiro a abril de 2009, o Sine Uberlândia tinha 5.647 vagas disponíveis e fez 3.243 colocações. No mesmo período em 2010, foram 8.733 vagas e 2.527 colocações. Ou seja, 54,64% mais vagas e uma queda de 22% nas colocações. Neste ano, de janeiro até o dia 18 de abril, foram ofertados 7.210 postos de trabalho e feitas 2.006 colocações. Deste total, 941 eram para a indústria da transformação, 3.070 para serviços, 1.550 para comércio e 1.122 para a construção civil.

Pesquisa CNI

Uma pesquisa divulgada no início de abril pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que sete em cada dez empresas industriais brasileiras enfrentam problemas de falta de trabalhador qualificado, e os empresários afirmam que a escassez de mão de obra especializada prejudica a competitividade. A pesquisa foi realizada entre os dias 3 e 26 de janeiro deste ano e ouviu 1.616 empresas, sendo 931 pequenas, 464 médias e 221 grandes.

A falta de trabalhador qualificado é um problema para sua empresa?

Participação das respostas

O gerente-executivo da Unidade de Pesquisa da CNI, Renato da Fonseca, afirma que a educação básica é o principal entrave para a qualificação dos trabalhadores da indústria. “Foi o tempo em que o trabalhador simplesmente apertava um parafuso. Hoje, em qualquer área tem tecnologia inserida. Isso demanda um conhecimento de lógica, interpretação e matemática bastante avançados”, disse. Ele acredita que em um longo prazo, se não houver um investimento em educação, o país vai enfrentar problemas de produção.

Renato Fonseca, gerente-executivo da CNI: “Hoje, em qualquer área tem tecnologia inserida. Isso demanda um conhecimento de lógica, interpretação e matemática bastante avançados”

Segundo a sondagem da CNI, 84% das empresas disseram ter dificuldades para capacitar os funcionários. Para 52% das indústrias ouvidas, a má qualidade da educação básica é a principal barreira para qualificar os trabalhadores. Outras 38% disseram que perder o trabalhador para o mercado, depois do período da qualificação, é um impedimento. O pouco interesse dos trabalhadores foi citado como dificuldade para 35% das empresas.
Como alternativa para compensar a falta de qualificação, 78% das companhias ouvidas pela CNI disseram ter capacitação na própria empresa para os funcionários. Outras 40% disseram ter uma política de retenção do trabalhador e 33% utilizam capacitação fora da empresa.
Em quatro dos 26 setores pesquisados – farmacêutico, indústrias diversas (ambos com 17%), bebidas (20%) e calçados (21%) -, as empresas disseram não ter mecanismos para compensar a falta de mão de obra. “No Brasil, há uma demanda por profissionais qualificados. Começa-se a mudar uma estrutura de ensino, mas isso demanda tempo e um custo maior para capacitar”, disse Renato da Fonseca.

A especialista em Gestão de Pessoas, Vianey Altafin, culpa a educação básica frágil e de má qualidade oferecida no país pela falta de mão de obra qualificada

Para a diretora da Inthegra e especialista em Gestão de Pessoas, Vianey Altafin, o problema da falta de mão de obra qualificada começa na educação básica oferecida no país, que é frágil e de má qualidade. Segundo ela, é preciso haver um compromisso e um comprometimento maior por parte da iniciativa pública, mas também é necessário que o profissional mude a sua cultura e busque uma educação continuada.
O impacto maior da falta da mão de obra capacitada dentro da empresa é na produção. Quase a totalidade das empresas (94%) registra dificuldades para encontrar operadores. E 82% encontram problemas para contratar técnicos. As indústrias também informaram ter dificuldades para contratar funcionários qualificados em vendas/marketing (71%), para a área administrativa (66%), gerentes e profissionais de pesquisa e desenvolvimento (62%) e engenheiros (61%).

Falta de trabalhadores qualificados por área/categoria profissional

Percentual sobre o total de empresas que tem problemas com a falta de trabalhadores qualificados

Em Uberlândia, segundo a especialista, o maior problema do apagão de talentos está na linha de produção. Segundo ela, faltam trabalhadores na indústria e para o setor de serviços, mais especificamente para call centers. “Vivemos em uma era tecnológica e os trabalhadores não têm base técnica”, disse Vianey.
Segundo ela, para tentar reverter a situação é preciso que haja uma mudança de comportamento por parte dos trabalhadores – que devem se interessar e se sentir motivados a se qualificar – e dos empresários – que têm que passar a ver o treinamento dos profissionais como um investimento. “Falta essa visão do empresário, que pode buscar apoio nos centros de formação governamental”, disse.
A diretora do Sine Uberlândia, Daisy Afonso, informa que os governos federal, estadual e municipal estão investindo em políticas voltadas para a formação profissional por meio de programas e projetos, como o Programa de Educação Profissional (PEP) – que em 2011 está com mais de 172,3 mil matriculados no estado de Minas Gerais e recebeu um investimento de quase R$ 200 mil – e a Usina do Trabalho. O projeto de qualificação social e profissional é idealizado e executado pelo Governo de Minas e adota como estratégia a articulação com diversos parceiros, tanto no segmento empresarial quanto em ações e programas do próprio governo.
Daisy cita ainda entidades como Sesi, Senai, Sest/Senat, Sesc e outras, que ajudam na formação e qualificação da mão de obra. Segundo ela, as empresas querem e até investem em seus trabalhadores, mas enfrentam problemas sérios, como a alta rotatividade, já que a oferta de vagas está maior que a demanda de trabalhadores.

Aluno do curso de Eletricidade Predial/Instalações Elétricas do Senai, instituição vinculada ao setor da indústria que oferece inúmeros cursos de qualificação profissional

O problema por setores

Panayotes Tsatsakis, do Sinduscon-TAP, diz que os sindicatos laborais precisam estimular a profissionalização dos trabalhadores, pois o patronal já tem feito a sua parte

A falta de trabalhador qualificado é disseminada por toda a indústria, mas é crítica em alguns setores. Os que se dizem mais afetados pelo problema são os segmentos de vestuário (84% das empresas), equipamentos de transporte (83%), limpeza e perfumaria (82%) e móveis (80%).
No segmento farmacêutico, de alimentos e bebidas e de indústrias diversas e calçados, no entanto, as dificuldades são maiores, conforme as empresas. Elas informaram não ter mecanismos para lidar com o problema. No farmacêutico e em indústrias diversas, 17% das empresas disseram não possuir qualquer forma de lidar internamente com a falta de trabalhador qualificado, no setor de alimentos e bebidas o percentual foi de 20%, enquanto em calçados, foi de 21%.
Os empresários e representantes dos sindicatos patronais dizem que a falta de mão de obra começou a ser percebida há uns dois anos, quando houve um aquecimento da economia nacional.  Segundo Panayotes Tsatsakis, vice-diretor de relações trabalhistas do Sindicato das Indústrias de Construção Civil do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Sinduscon-TAP), a falta de trabalhadores no setor é um processo que vem se desencadeando ao longo dos anos. “As pessoas não queriam trabalhar em obras, porque o salário não motivava. Mas o mercado sofreu uma mudança nos últimos dois anos e está mais atrativo”, disse.

Média dos impactos da falta de trabalhador qualificado nas diferentes áreas/categorias profissionais (por setor)*:

Setor %
Indicador de efeito (1 = afeta pouco e 4 = afeta muito)
Edição e Impressão 3,17
Calçados 3,08
Metalurgia Básica 2,99
Plástico 2,91
Bebidas 2,90
Farmacêuticos 2,90
Papel e Celulose 2,90
Máq. e Materiais Elétricos 2,87
Borracha 2,85
Material Eletrônico e de Comunicação 2,83
Equip. Hosp. e de Precisão 2,81
Refino de Petróleo 2,80
Móveis 2,79
Vestuário 2,79
Veículos Automotores 2,79
Limpeza e Perfumaria 2,79
Outros Equip. de Transporte 2,78
Indústria Geral 2,75
Alimentos 2,73
Industrias Extrativas 2,72
Têxteis 2,68
Química 2,68
Couros 2,64
Máquinas e Equipamentos 2,62
Minerais Não metálicos 2,60
Produtos de Metal 2,58
Madeira 2,44
Indústrias Diversas 2,37
* O indicador varia de 1 a 4. Quanto maior o indicador, maior o impacto. O indicador consolidado de cada setor é a média aritmética simples dos indicadores de cada área/categoria profissional do setor. O indicador da área/categoria do setor é a média das notas, de um (afeta pouco) a quatro(afeta muito), atribuídas pelos empresários do setor.

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Segundo Panayotes, o que falta agora é interesse em se profissionalizar, pois oportunidades são oferecidas pelas empresas e por centros de formação especializados, que em Minas são de 13 a 15. Ele diz ainda que o profissional não busca qualificação por uma questão cultural. “Os sindicatos laborais precisam estimular a profissionalização dos trabalhadores, pois o patronal já tem feito a sua parte”, afirmou.
Milton Inhaquiti, presidente do Sindicato da Indústria de Panificação (Sindipan), disse que o crescimento da economia gerou uma expectativa nos trabalhadores, que buscam se associar a empresas que oferecem melhores salários e benefícios. Em função disso, o setor enfrenta uma rotatividade grande.
Em Uberlândia, existem hoje 85 vagas abertas para padeiro, confeiteiro e salgadeiro. O salário varia de três a quatro salários mínimos, não é exigido escolaridade, apenas experiência no setor. Mesmo com esses critérios para seleção, as vagas não são preenchidas. Segundo Milton Inhaquiti, dois são os fatores responsáveis por essa situação: as pessoas que querem se profissionalizar têm acima de 30 anos, mas demonstram interesse em investir no próprio negócio, e os mais jovens, na faixa até 24 anos, querem trabalhar em outra área, como a de tecnologia da informação.
A falta de qualificação dos profissionais influencia na competitividade e na qualidade dos produtos e serviços oferecidos. Segundo a pesquisa da CNI, a busca de eficiência ou redução de desperdício, com consequente aumento da produtividade, é a atividade mais prejudicada nas empresas, de acordo com 70% dos pesquisados. A segunda atividade prejudicada mais apontada, com 63% de respostas, foi a garantia e a melhoria da qualidade dos produtos. A expansão da produção foi citada por 40% dos empresários e o gerenciamento da produção teve 28% de assinalações.

Minton Inhaquiti, do Sindipan, informa a existência de 85 vagas abertas em Uberlândia para padeiro, confeiteiro e salgadeiro, com salários entre três e quatro mínimos, sem necessidade de escolaridade, exigindo apenas experiência no setor. Mesmo assim, as vagas não são preenchidas

Mercado - Na avaliação do analista de Políticas e Indústria da CNI, Marcelo Azevedo, em alguns casos há um distanciamento entre a formação de profissionais e o que deseja o mercado. “É necessário que a academia, ao formar o engenheiro, por exemplo, atenda também a demanda da economia. Esse distanciamento é o que torna necessário, hoje, uma pós-graduação do profissional”, conclui.