Saúde

Revista Mercado Edição 41 - abril 2011

Lentes de contato só sob recomendação médica

POR Evaldo Pighini

Resolução do CFM (nº 1.965/2011) determina a realização de exames antes da compra e uso do produto a partir de agora

Agora, a compra de lentes de contato pode ser feita somente com recomendação médica específica. Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicada semana passada, determina que a indicação, a adaptação, os exames complementares e o controle das lentes sejam atividades exclusivas da categoria. A resolução foi feita depois de o conselho receber o relato do aumento de acidentes relacionados ao uso incorreto do produto, vendido muitas vezes em óticas sem recomendação do oftalmologista.
“Não basta a indicação do grau. É preciso que exames sejam realizados para verificar se não há impedimento para o uso do produto”, afirma Desiré Callegari, secretário do CFM.
Integrante do Departamento de Oftalmologia da Associação Médica Brasileira, Noé Luiz Demarchi afirma que o uso de lentes de contato nos últimos anos se vulgarizou. “A lente é extremamente útil. Mas precisa ser cercada de uma série de cuidados. Em muitos locais, bastava que o paciente fornecesse o grau e modelo da lente para que o produto fosse confeccionado.”

Perigo à vista

Conforme alerta da médica oftalmologista Emiliana Santos Valadares, do ISO Olhos Instituto de Saúde Ocular, de Uberlândia, são vários e graves os riscos do uso de lentes de contato inadequadas. “As lentes estão em íntimo contato com a córnea e outras estruturas oculares e, passíveis de contaminação que são, podem causar graves danos aos olhos, consequência do uso ou adaptação inadequados”, explica. Segundo ela, agentes agressivos ao olho, como depósitos de lipídios e de proteínas acumulados durante o uso, colônias de microrganismos oriundos do meio ambiente e as próprias substâncias empregadas em sua limpeza podem levar a reações alérgicas, tóxicas e infecciosas. O exame completo do olho, a perfeita adaptação, o acompanhamento oftalmológico e a obediência às orientações recebidas são condições indispensáveis para o uso confortável e seguro das lentes de contato a longo prazo.

Emiliana Valadares, oftalmologista do Iso Olhos: “As lentes estão em íntimo contato com a córnea e outras estruturas oculares (...) e podem causar graves danos aos olhos, consequência do uso ou adaptação inadequados”

A oftalmologista ratifica a importância da decisão do CFM, a qual classifica como alerta à população no sentido de preservar a saúde ocular das pessoas que, por algum motivo, fazem uso das lentes de contato.
Quanto às pessoas que usam lentes de contato apenas por estética – mudar a cor dos olhos -, Emiliana diz não ter nada contra, mas desde que o paciente passe por avaliação oftalmológica completa, esteja apto para a utilização de lentes de contato e que esta adaptação seja efetuada por um médico oftalmologista. “Não vejo contraindicação para uso dessas lentes cosméticas”, reitera.
Por outro lado, para quem utiliza qualquer tipo de lente sem a supervisão médica, a oftalmologista classifica o ato como meramente compra ou venda do produto. “Dizemos que a adaptação das lentes de contato é um ato médico por tratar-se de um procedimento no qual o oftalmologista examina o paciente, seleciona a lente adequada, realiza a adaptação propriamente dita bem como o controle médico periódico”, explica.

Até mesmo as lentes sem grau, na maioria dos casos as coloridas usadas apenas por questão de estética, devem ser adaptadas sob orientação médica

Com relação a pacientes que estariam fazendo uso de receitas dadas para óculos para compra de lentes de contato, a oftalmologista Emiliana Valadares diz desconhecer o fato. Segundo ela, a adaptação das lentes não consiste apenas em selecionar um grau, mas sim em avaliar se o olho é ou está adequado para receber a lente de contato, qual deve ser o material, o modelo, o desenho e demais parâmetros técnicos da lente a ser utilizada conforme a necessidade.

Corporativismo - Para muitas pessoas, a nova determinação do CFM pode ser considerada como corporativismo, mas para os oftalmologistas é uma questão séria de saúde.
Segundo levantamento realizado pelo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, em Campinas (SP), dois em cada dez usuários apresentam complicações oculares por conta do mau uso de lentes. Entre os principais problemas, está o uso abusivo – quando a pessoa utiliza o produto por mais tempo que deveria ou após o prazo de validade -, alergias, contaminação por manutenção e armazenamento inadequado.

O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto: “Dois em cada dez usuários apresentam complicações oculares por conta do mau uso de lentes”

Ele acrescenta ainda que uma em cada quatro adaptações é feita sem supervisão médica, sendo que a maioria ocorre no caso de pessoas que usam lentes com fins estéticos, para trocar a cor dos olhos. “Quando não são bem orientadas, as pessoas estão mais expostas a esses riscos”, diz Leôncio, confirmando a informação da oftalmologista do Iso Olhos, de Uberlândia.