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Revista Mercado Edição 54 - outubro 2012

Jeito mineiro de administrar

Por Evaldo Pighini

Calmo, fala mansa, crente em Deus e determinado são algumas das particularidades do empresário Sérgio Cavalieri que, com o seu jeito mineiro de ser, preside o Grupo Asamar, holding que controla nove empresas, fatura R$ 10 bilhões por ano e emprega 24 mil trabalhadores

Embora seja paulista de nascimento, foi em Minas Gerais que o empresário Sérgio Cavalieri se criou, formou e chegou à presidência do Grupo Asamar, holding sediada em Belo Horizonte, que atualmente incorpora nove empresas, fatura R$ 10 bilhões por ano e emprega 24 mil trabalhadores diretos e indiretos. O jeito calmo e manso ao falar, e ao mesmo tempo determinado, não deixa dúvida quanto à origem de Cavalieri, que é filho de pais mineiros e tira dos seus princípios cristãos as diretrizes para conduzir os negócios da família, que foram passados de geração em geração – ele faz parte da terceira.
Além do peculiar jeito mineiro e da religiosidade presentes na administração de Sérgio Cavalieri à frente do Grupo Asamar, a inovação é outra característica presente no DNA desse empresário, uma herança que ele procura sempre destacar e que veio dos fundadores da holding (o avô e dois tios-avôs), pioneiros em várias áreas como mineração, siderurgia e construção. “Temos um princípio que diz: preferimos os erros dos que procuram inovar do que a mesmice dos acomodados”, costuma dizer Cavalieri. Em sua opinião, a empresa que para no tempo corre risco de morte, portanto, segundo ele, com esse espírito de estar sempre em frente, o erro pode vir a acontecer justamente por causa da busca por algo melhor, que nada mais é que o fruto da inovação ou da ousadia.
Um exemplo da inovação defendida pelo empresário ficou evidenciado na Ativas Data Center S/A, uma das empresas do Grupo Asamar, fundada em 2009, em Belo Horizonte, e onde, em 2011, foi implantado o mais moderno sistema de data center da América do Sul, que passou a funcionar com avançadas tecnologias, até então inéditas no país – a Ativas foi a única do seu segmento com a certificação Tier III, do Up Time Institute, empresa certificada dos Estados Unidos. Além da Ativas, a Codeme Engenharia S/A, outra empresa da holding Asamar, que trabalha com projetos, fabricação e montagem de estruturas em aço, é considerada a empresa mais inovadora em sua área de atuação, em função de seus constantes investimentos e desenvolvimento de processos construtivos em convênio com instituições de pesquisa no Brasil e exterior.

Sede do Grupo Asamar, em Belo Horizonte

Além do tempo dedicado aos negócios da família, Sérgio Cavalieri ainda encontra disposição para envolvimento em causas sociais, como sair por aí participando de eventos e proferindo palestras sobre sustentabilidade ou ocupar a presidência da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE), instituição cujo desafio é levar a doutrina social cristã para o dia a dia das empresas.
A ACDE foi fundada em 1932, por iniciativa de empresários europeus, e chegou ao Brasil na década de 1960. Atualmente, reúne mais de 1.000 empresários brasileiros, dos quais 130 mineiros. Valores como ética, transparência, sustentabilidade, responsabilidade social e valorização do capital humano norteiam a ideologia que essa entidade se propôs a disseminar no mundo empresarial. E por isso, por ter abraçado essa causa, Sérgio Cavalieri afirma que “o sucesso das empresas depende da adoção de uma gestão que valoriza acima de tudo o homem”. Para ele, “o capitalismo é voraz, privilegia o lucro”. Cavalieri também garante que, com quase 80 anos de atividades empresariais ininterruptas, a preocupação socioambiental sempre veio em primeiro lugar, antes mesmo do lucro, como característica principal do Grupo Asamar, o que, convenhamos, não é tarefa fácil para quem atua em áreas da mineração e exploração de petróleo, tidas como nocivas ao meio ambiente.
Com relação à Sustentabilidade, foi esse o motivo que deslocou Sérgio Cavalieri da cidade onde trabalha e mora – Belo Horizonte – até Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para proferir palestra a um grupo de empresários na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) – Regional Vale do Paranaíba. Aliás, foi nessa oportunidade que a Revista MERCADO iniciou os primeiros contatos com o empresário para esta reportagem. O tema abordado por Cavalieri em sua apresentação foi “Futuro Sustentável e o Equilíbrio do Desenvolvimento”. Durante a palestra, foi possível à reportagem da MERCADO perceber a ênfase em frases como “Uma empresa só funciona hoje, porque a sociedade dá a ela uma autorização, uma licença social para funcionar”, ou: “O dinheiro não é tudo, e o capitalismo do jeito que foi concebido está com os dias contados”. Questionado se emprega as máximas que prega na administração de suas empresas, Sérgio Cavalieri respondeu que o Grupo Asamar é orientado para as pessoas, sejam elas funcionários, clientes, fornecedores, comunidade ou a sociedade como um todo. Isso, porém, não significa a exclusão da busca por resultados econômico-financeiros. Entretanto, ele ressalta que o diferencial do grupo é colocar as pessoas em primeiro lugar. “Trabalhamos de forma a criar riqueza social e ao mesmo tempo econômica. Buscamos o lucro, mas não é de qualquer forma. Deve ser um lucro qualificado, saudável, que resulta depois de se remunerar bem os funcionários, preservar o meio ambiente, cumprir as obrigações com fornecedores, governo, propiciar condições dignas de trabalho, possibilidade de desenvolvimento das pessoas, tudo com extremo cuidado e zelo pelo ser humano”, explica.

Grupo Asamar: pioneirismo desde sempre

Segundo consta, a história do Grupo Asamar começou em 1932, ano em que foi fundado pelos engenheiros Alberto Woods Soares, Amynthas Jacques de Moraes e Antônio Faria Ribeiro. A denominação ‘ASAMAR’ deriva das iniciais desses três empreendedores, e o Grupo tinha como objetivo inicial atuar no segmento de construção pesada de obras públicas.

Da esquerda para a direita, os fundadores do Grupo Asamar: Antônio Faria Ribeiro, Alberto Woods Soares e Amynthas Jacques de Moraes; e abaixo, a matriarca da família, a Dona Miluca

Mais tarde, em meados da década de 1950, ainda sob o comando da primeira geração da família e reforçado com a juventude da segunda geração, o Grupo diversificou suas atividades expandindo seus negócios para a área de mineração, equipamentos para a construção, energia elétrica, telefonia, indústria têxtil, siderurgia e metalurgia.
Anos depois, na década de 1960 e já sob a liderança da segunda geração, as principais atividades do grupo passaram a ser cimento, concreto pré-misturado, transporte rodoviário de carga, produção de álcool (a definição etanol ainda não estava em voga), reflorestamento, produção de madeira e carvão vegetal, agricultura e pecuária.
Atualmente, agora sob o comando e a responsabilidade da terceira geração da família, que tem à frente Sérgio Cavalieri, o Grupo Asamar atua nas áreas de distribuição de combustíveis líquidos, asfalto e lubrificantes, incorporação e construção imobiliária, operação de imóveis e hotelaria, construção em aço, exploração e produção de petróleo, reflorestamento e produtos de madeira e tecnologia da informação.
Com atuação nacional, o Grupo Asamar gera 4.000 empregos diretos e cerca de 20 mil indiretos, por atuação das nove empresas que integram a holding. São elas: AleSat Combustíveis, Alvorada Petróleo, Ativas Data Center, Codeme Engenharia, Metasa, MASB Desenvolvimento Imobiliário, Metform, Nova Esperança S/A e Touro Serviços Rurais Ltda. Juntas, essas empresas rendem ao grupo R$ 10 bilhões por ano.

Uma a uma, as empresas que integram o Grupo Asamar

Um dos poços pertencentes à Alvorada, empresa do Grupo Asamar que explora petróleo no Recôncavo Baiano

Alvorada Petróleo S/A – Essa empresa foi criada com o objetivo de investir no mercado de exploração e produção de petróleo e gás natural. Para tanto, adquiriu em 2005 três campos maduros na 7ª Rodada de Licitação, patrocinada pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em 2007, a Alvorada adquiriu mais 11 blocos exploratórios na Bacia do Recôncavo Baiano, na 9ª Rodada da ANP.
Codeme Engenharia S/A – Fundada em 1980, a Codeme conta hoje com mais de 2 mil obras edificadas em todo o Brasil e também no exterior. Esse extenso portfólio de negócios é resultado de contínuos investimentos na formação de pessoas e em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias. Isso – aliado a um amplo domínio das etapas construtivas e de suas interfaces, por meio da atuação direta no cálculo, detalhamento, fabricação e montagem das construções em aço – faz com que a Codeme seja reconhecida no mercado como uma empresa de vanguarda, capaz de oferecer as mais avançadas soluções de engenharia e proporcionar inúmeros diferenciais competitivos a seus clientes. O know how de integração de processos, aliado a uma engenharia de ponta e à alta tecnologia de fabricação, resulta em soluções racionalizadas, que a Codeme disponibiliza ao mercado em quatro segmentos distintos: Prédios Industriais (Mineração, Siderurgia, Metalurgia, Cimentos e outros); Galpões Comerciais e Industriais; Sistemas de Cobertura (Centros de Distribuição, Hipermercados e outros); Edifícios de Andares Múltiplos (Shopping Centers, Escolas, Hospitais, Hotéis, Escritórios Comerciais e outros).
Ativas Data Center S/A – A Ativas, o primeiro Data Center Tier 3 de Minas Gerais, tem como um de seus princípios a busca de agregação de valor e a construção de relacionamentos duradouros e sustentáveis com os clientes e parceiros, sendo um marco no desenvolvimento do mercado de TI do estado. É uma empresa de abrangência nacional e representa uma oportunidade, com diferenciais competitivos, para empresas mineiras terceirizarem a hospedagem da sua base de informações, bem como uma nova opção para aquelas que já utilizam os benefícios do outsourcing em outros locais do Brasil. A Ativas, que custou ao grupo o investimento de R$ 50 milhões, ocupa o espaço de 6.000 m² de uma área total de 30 mil m², na região metropolitana de Belo Horizonte.

Sede da Ativas, empresa que custou ao Grupo Asamar o investimento de R$ 50 milhões. Foi o primeiro Data Center Tier 3 de Minas Gerais

Metform S/A – A Metform é uma empresa voltada ao mercado de produtos de aço para construção, apresentando uma linha completa de produtos, tais como, telhas, steel deck e perfis formados a frio de alta performance. Na produção dos perfis de aço, a Metform faz uso exclusivo de sua própria tecnologia, que permite redução do peso da obra, vãos de até 15 metros entre tesouras e redução no prazo de construção. A Metform oferece ainda assistência técnica integral na aplicação de seus produtos, softwares para cálculo e dimensionamento de perfis atestados pela UFMG e USP – São Carlos. Para assegurar qualidade e custos reduzidos, a Metform investe permanentemente no desenvolvimento de produtos, processos e nos sistemas mais avançados de construção em aço.
Masb Desenvolvimento Imobiliário S/A – Fundada em 2007, a Masb Desenvolvimento Imobiliário foi criada para suceder e ampliar as atividades até então empreendidas pela Metro, empresa pertencente ao Grupo Asamar desde 1997. Com atuação no Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, a Masb é uma das maiores empresas do setor, atuando nos segmentos residencial multifamiliar, comercial, condomínios, loteamentos, hotéis e resorts.
Nova Esperança S/A e Touro Serviços Rurais Ltda – A produção e a comercialização de produtos de madeira a partir do eucalipto é uma atividade exercida por essas duas empresas do Grupo Asamar – Nova Esperança e Touro Serviços Rurais. Para isso, o grupo possui uma propriedade com 21.000 ha de terras no norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha, plantados com Eucalyptus cloeziana. A finalidade é a produção de madeira tratada para atender a construção civil urbana e rural, a construção de cercas, galpões e postes para eletrificação. No caso da Touro, o processo usado no tratamento de madeira garante, por 15 anos, durabilidade e proteção contra fungos, furadores marinhos, brocas e cupins. Já a Nova esperança, a partir de 2010, iniciou também a produção de chips (cavaco) de madeira de eucalipto, para abastecimento de empresas que utilizam esse produto para geração de energia em substituição ao óleo combustível.
Metasa S/A – O Grupo Asamar é sócio no capital dessa indústria de metalurgia gaúcha, que é considerada uma das maiores companhias do segmento de estruturas metálicas do país. A Metasa possui fábricas em Marau (RS) e Santo André (SP), fábricas essas que, juntas, produzem cerca de 4,5 mil toneladas por mês, atuando nas áreas de óleo e gás. E é uma das indústrias do Rio Grande do Sul mais beneficiadas pelo polo naval de Rio Grande, já que fornece produtos para as plataformas da Petrobras.

Cultivo de eucaliptos no norte de Minas para atender a demanda das empresas Nova Esperança e Touro Serviços Rurais

Em faturamento, a maior empresa do Grupo Asamar

Base da ALE, em Betim, maior empresa do Grupo Asamar. Em números: R$ 8 bilhões por ano de faturamento, 1.800 postos em 22 estados brasileiros, 18 mil empregos diretos e indiretos, 5 bilhões de litros de combustíveis comercializados

Umas das nove empresas que integram o Grupo Asamar, a AleSat S/A, foi fundada em 1996 e em pouco tempo conquistou uma importante fatia no mercado distribuidor de combustíveis brasileiro. Hoje, a ALE, como é mais conhecida, já é a quarta maior distribuidora de combustíveis do Brasil. Regularmente filiada ao Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), essa empresa possui uma rede de cerca de 1.800 postos em 22 estados brasileiros. Em 2011, a companhia faturou R$ 8 bilhões e prevê para este ano atingir a cifra de R$ 9 bilhões em faturamento, para isso, acrescentando à sua rede distribuidora 200 novos postos revendedores. Conforme o último balanço, A ALE gera 18 mil empregos diretos e indiretos, comercializa e distribui quase 5 bilhões de litros de combustíveis para 5 mil clientes.
Em 2012, pelo 10º ano consecutivo, a ALE recebeu o Prêmio Consumidor Moderno de Excelência em Serviços ao Cliente na categoria Petróleo. Essa premiação, organizada pelo Grupo Padrão, identifica e difunde as melhores práticas em serviços ao cliente no Brasil e reconhece as empresas que privilegiam a excelência no atendimento, não só conquistando novos consumidores, mas, principalmente, mantendo alto índice de satisfação e fidelidade. Isso implica dizer que a conquista do prêmio está relacionada ao fato de a companhia entender como estratégicas as ações de relacionamento com o cliente. Intrinsecamente, essa conquista tem a ver com a valorização das pessoas, aquilo que disse anteriormente o presidente do Grupo Asamar, que a holding que administra trabalha orientada para as pessoas, entre as quais, além de funcionários, fornecedores e comunidade, também os clientes.
A Revista MERCADO conversou com Sérgio Cavalieri para saber um pouco mais sobre o Grupo Asamar, como começou e como é a sua história dentro da holding e o seu jeito de administrar. Confira!

MERCADO: Como foi o seu início no Grupo Asamar?
Sérgio Cavalieri: Entrei para o Grupo Asamar logo após me formar em Engenharia Civil, em São Paulo, convidado por um tio. Comecei a trabalhar como engenheiro de obras, na expansão da Fábrica de Cimento Montes Claros, que na época pertencia à família. Isso foi no início de 1977. Fui o primeiro membro da terceira geração a ingressar no Grupo Asamar.
MERCADO: Quem foram os seus antecessores na direção do grupo Asamar? Diretamente, herdou de quem a presidência do grupo?
Cavalieri: O Grupo Asamar foi fundado pelo meu avô com dois cunhados em 1932. Eles permaneceram no comando até a década de 1960, quando então assumiram os seus filhos de maneira bastante natural. Na época, o principal negócio era a construção de obras públicas, e a segunda geração, constituída na sua maioria por engenheiros, foi ingressando para trabalhar nas frentes de serviço nos canteiros de obras espalhados pelo Brasil. A passagem para a terceira geração foi planejada por mais de dez anos, com o apoio de consultores e especialistas nesse assunto. Fato determinante nessa transição foi a venda de importantes negócios do Grupo em 1996 para a multinacional francesa Lafarge. A partir daí, os acionistas da segunda geração assumiram o papel de conselheiros da holding e nós, da terceira geração, a posição de diretores da holding e conselheiros das empresas nas quais investimos.
MERCADO: O senhor prega a valorização das pessoas antes do lucro na sua administração, enfim, qual a sua visão de negócio?
Cavalieri: Tenho uma formação católica muito forte e herdei da minha família os valores cristãos que dizem respeito em primeiro lugar a amar a Deus e ao próximo. Procuro seguir esse mandamento que, no dia a dia das empresas, significa respeito pelas pessoas. Minha visão é que, independente do negócio e das circunstâncias, o ser humano vem em primeiro lugar. Sou presidente em Minas e no Brasil da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa, e a principal bandeira da entidade é empreender com ética baseada nos valores cristãos. Isso significa que o dirigente deve se relacionar com as pessoas com transparência, verdade, justiça, solidariedade, humildade, e aqui me refiro a todas as pessoas que interagem com a empresa, não só funcionários. Existem inúmeros casos que comprovam que as empresas administradas dessa forma têm mais sucesso, são mais perenes e sustentáveis.

“Minha visão é que, independente do negócio e das circunstâncias, o ser humano vem em primeiro lugar”

MERCADO: Existe segredo para o seu sucesso e, consequentemente, do grupo Asamar?
Cavalieri: É meio arriscado passar uma receita de sucesso, pois cada caso é um caso. Alguns ingredientes são fundamentais, como planejamento, equipe, processos, bons produtos e serviços, controle, rigor com as finanças, tecnologia, inovação, mas eu diria que, acima de tudo, vem a ética e o compromisso com as pessoas, e muita disposição para o trabalho.
MERCADO: O senhor valoriza tanto as pessoas, então como lida com os seus subordinados?
Cavalieri: Essa é a parte que me dá mais prazer no trabalho, o relacionamento com as pessoas. Gosto de estar junto da equipe, saber diretamente das pessoas como as coisas estão progredindo, os problemas e as iniciativas que tiveram para superar os desafios, procuro saber como empresas e funcionários podem colaborar para sermos mais competitivos e alcançarmos resultados superiores. Além do mais, gosto de conversar com eles para sentir como está o ambiente de trabalho, se estão felizes, e como estão suas famílias. Diria que é uma relação muito fraterna, transparente, verdadeira, muito mais de amizade que de superior e subordinado. Logicamente que isso não quer dizer que não haja metas, muita cobrança, disciplina e até demissões, mas sempre com muito respeito.
MERCADO: Como é administrar um grupo com o tamanho e a receita do Asamar, e ainda encontrar tempo para cumprir compromissos sociais, como o que o trouxe a Uberlândia, que foi proferir palestra em defesa da sustentabilidade nas empresas?
Cavalieri: O Grupo Asamar é composto de um grande número de empresas como você mencionou, mas nos posicionamos como investidores na maior parte dessas empresas, ou seja, os donos dessas empresas são os acionistas da família Asamar, em conjunto com acionistas externos à família. Cada empresa tem estrutura societária diferente da outra, de maneira que cada uma tem sua própria gestão. Nós, da Asamar, participamos do conselho de administração dessas empresas, mas não estamos no dia a dia dos negócios, que são conduzidos por executivos de mercado. Além do mais, somos uma equipe de seis pessoas da terceira geração que acompanha os negócios. Esse arranjo acaba possibilitando que eu me envolva em um bom número de atividades paralelas, como Fiemg, CNI, ADCE, Uniapac, PUC Minas, entre outras. É verdade, essas atribuições consomem tempo e representam um sacrifício adicional, mas sempre arrumo um tempo para contribuir para um mundo melhor por amor ao próximo. Algo dentro de mim me impulsiona para esse trabalho voluntário, sem dúvida tem a ver com a minha formação católica, é uma forma de retribuir tudo o que recebi da sociedade gratuitamente. Eu me sinto muito bem fazendo isso, mesmo que represente mais cansaço, menos horas de sono e privação da própria família e de momentos de lazer. Confesso que minha esposa é uma “santa”, pois não paro de inventar atividades. Tenho muita dificuldade de negar ajuda para quem me procura e dizer não para esse tipo de trabalho.

“Quem quiser sobreviver empresarialmente no mundo atual, tem de entender e administrar as relações do seu negócio com os vários públicos com que interage”

MERCADO: Como é defender a sustentabilidade, se tem negócios fundamentados em empresas consideradas nocivas ao meio ambiente, que exploram atividades como mineração (cimento, como foi no passado) e a produção de petróleo e a distribuição de combustíveis?
Cavalieri: Para mim, é um grande desafio e ao mesmo tempo uma grande motivação, pois sou obrigado a fazer na prática o que defendo em teoria nas palestras, como esta que proferi aqui na Fiemg em Uberlândia. Não somente eu, mas todos nós, do Grupo Asamar, e as equipes das empresas que investimos somos obcecados pelo tema da responsabilidade social e da sustentabilidade. Quem quiser sobreviver empresarialmente no mundo atual, tem de entender e administrar as relações do seu negócio com os vários públicos com que interage. É preciso um monitoramento permanente e atitudes diárias para minimizar os impactos negativos na sociedade e ampliar os impactos positivos. Isso só é possível mediante um olhar para dentro e para fora da empresa, uma visão humanizada, com sensibilidade que vai além da análise fria dos números e resultados financeiros. Essa foi a mensagem que deixamos também nesta visita à Uberlândia, em um encontro que tivemos com cerca de 70 empresários convidados pelo Bispo Dom Paulo Francisco Machado, para apresentar a ADCE e fundarmos uma regional da entidade aqui na cidade. Administrar hoje em dia é uma tarefa mais complexa e que requer mais dos gestores. É preciso criar de forma sustentada valor econômico e social, construir empresas que sejam administradas por pessoas e para as pessoas, que sejam admiradas e relevantes para a sociedade. Empresas que sejam altamente produtivas, plenamente humanas e socialmente responsáveis, comprometidas com o hoje e com o amanhã.
MERCADO: O senhor defende a tese de que o dinheiro não é tudo e de que o capitalismo no molde que foi criado está com os dias contados, ou já era. Explique melhor isso.
Cavalieri: Quando o pensamento social cristão nos ensina que o primeiro objetivo da economia e da empresa é servir ao ser humano, significa que todas as pessoas inseridas nos grupos de interesse que se relacionam com a empresa devem ser convenientemente atendidas. O nosso modelo mental não está preparado para esse novo enfoque. Por exemplo, por que se busca o lucro máximo, pagando o salário mínimo? Essa relação está invertida. O acionista tem o direito de receber uma remuneração de acordo com o capital investido e o risco corrido, mas também tem o dever de fazer com que o funcionário tenha a máxima remuneração possível e seja plenamente atendido não só no aspecto material, mas também mental e espiritual.
Por outro lado, quando afirmo que o capitalismo à moda antiga está vencido, eu me refiro àquele modelo em que o mercado é rei e soberano, tudo quer, tudo pode e tudo deve ser feito em seu nome. Isso não é mais aceito nem é sustentável. O gestor precisa perceber que os desafios do mundo moderno se ampliaram. A empresa deve produzir com a máxima qualidade os produtos e serviços para os seus clientes e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente, pagar a máxima remuneração para os colaboradores, tratar adequadamente seus fornecedores, pagar corretamente os tributos ao governo, tratar lealmente seus concorrentes, cuidar da comunidade que gravita em torno do negócio e gerar dividendos compensatórios para os investidores. Esse é o novo modelo que vai prevalecer no século XXI, um modelo mais inclusivo, mais solidário, um capitalismo menos exacerbado e mais compassivo, em que o social prevalece sobre o financeiro, e os executivos são movidos pelo desejo de construir empresas melhores para um mundo melhor. Só assim, o dirigente e a empresa cumprem seu papel social e garantem a perenidade da organização.
MERCADO: Em sua palestra, o senhor apregoa o cristianismo inter-relacionado com o mundo dos negócios. Explique melhor.
Cavalieri: O Cristianismo prega o amor, e a melhor orientação que se pode dar para um executivo atualmente é gerir com amor. Como o primeiro objetivo de uma empresa deve ser atender ao ser humano, isso só é possível com a prática de uma gestão amorosa. A empresa é um ente sem vida, um CNPJ apenas. O que dá alma para a empresa são os vários CPFs que fazem parte desse ecossistema que interage e depende do mundo externo. Existe uma relação de interdependência entre a empresa e os grupos de pessoas que interagem com ela e, para que esse sistema mantenha um bom equilíbrio, é fundamental que todas essas pessoas estejam bem atendidas, valorizadas e tenham sua dignidade respeitada. Não se trata apenas de uma relação fria de negócios, de números. Antes de qualquer coisa, é uma relação entre pessoas e, para que essa relação seja harmônica e se perenize, é preciso amor.
MERCADO: Quais conselhos daria a um empresário que queira progredir no contexto atual do mundo dos negócios?
Cavalieri: Utilize todas as ferramentas tradicionais que aprendeu nas escolas de administração, nos cursos de formação e especialização de executivos, nos MBAs, e agregue a estas esse conceito novo, que é a revolução na gestão de negócios daqui para frente – coloque verdadeiramente a pessoa no centro do seu negócio e siga no dia a dia a ética baseada nos valores cristãos.

“A empresa é um ente sem vida, um CNPJ apenas. O que dá alma para a empresa são os vários CPFs”

Lembre que sua empresa foi feita para servir, servir aos outros, servir as pessoas. Preste muita atenção se está tratando de forma digna todas as pessoas que interagem com a sua empresa. Elas precisam estar felizes, com sorriso no rosto, brilho nos olhos, gostar de trabalhar para você. Respeite seus clientes para que eles desejem sua marca. Seja leal aos seus fornecedores, que eles vão gostar de se relacionar com sua empresa. Concorra lealmente e os concorrentes vão respeitar a forma como atua e compete. Cumpra suas obrigações com o governo e ele e a comunidade vão reconhecer sua empresa como uma empresa do bem. Afirmo que isso não custa mais caro, não tira a competitividade da empresa, ao contrário, agindo assim são alcançados resultados superiores e será criada uma empresa que cria valor e é perene.