Saúde

Revista Mercado Edição 34 - setembro 2010

Gagueira tem origem neurológica ou genética?

Vanessa Cunha

Nos dias de hoje, algumas pessoas ainda acreditam que a gagueira, um dos distúrbios da fala, tenha origem psicológica. Por conta disso, cientistas e pesquisadores continuam a realizar estudos para detectar a causa do problema. Segundo o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), o problema central da gagueira consiste em uma dificuldade do cérebro para sinalizar o término de um som ou de uma sílaba e passar automaticamente para o próximo. Dessa forma, a pessoa consegue iniciar a palavra, mas fica “presa” em algum som ou sílaba até que o cérebro consiga gerar o comando necessário para dar prosseguimento ao restante da palavra.
“A gagueira é um distúrbio em que acontecem quebras ou rupturas involuntárias no fluxo da fala. Ela é caracterizada por repetições de sons, sílabas, palavras, prolongamentos, bloqueios e pausas. A pessoa que gagueja sabe exatamente o que quer dizer, mas tem dificuldade na automatização e na temporalização dos movimentos da fala”, explica a fonoaudióloga do Grupo Microsom, Clara Rocha.
Segundo a especialista, a pessoa com gagueira não possui nenhum problema na boca ou na língua, nem dificuldade para elaborar o raciocínio, mas uma disfunção no cérebro que torna difícil a percepção de quando começa e quando termina um som. “Dessa forma, a gagueira não está relacionada à inteligência e também não é contagiosa”, ressalta Clara.
Além das causas neurológicas, estudos científicos também indicam que a gagueira é causada por múltiplos fatores, entre eles o genético – em que pessoas da mesma família, de diferentes gerações, carregam o gene responsável pela gagueira, que pode ou não se manifestar, dependendo da interação com os fatores sociais e psicológicos a que a pessoa é exposta. “A gagueira também pode ter como causa fatores orgânicos, como disfunções ou lesões cerebrais”, diz a fonoaudióloga.
De acordo com o professor de Patologia da Fala da Universidade do Colorado (EUA), Peter Ramig, a maioria das pessoas que busca tratamento hoje em dia submete-se a vários tipos de terapia de fala. Algumas ensinam técnicas de fala, como alongar vogais ou falar mais lentamente. Outras enfatizam a redução da ansiedade e do medo de falar. “Adultos podem ser bastante ajudados”, diz o professor, que também gagueja. “Mas é bem pouco comum ver casos documentados de adultos sendo completamente curados pelas terapias de fala”, reconhece.

“É bem pouco comum
ver casos documentados de adultos sendo completamente curados pelas terapias de fala”

Peter Ramig, professor de Patologia da Fala da Universidade do Colorado (EUA)

No entanto, há casos de gagos que foram ajudados por dispositivos eletrônicos, entre os quais o SpeechEasy, que se ajusta à orelha como um aparelho de surdez e faz o usuário escutar a sua própria voz com um leve atraso e numa frequência diferente. É como uma simulação do efeito coral (fenômeno natural e tema de muitas pesquisas há décadas), uma situação em que as pessoas não gaguejam quando estão falando em uníssono com outras. O dispositivo custa entre 5.000 e 6.000 dólares e está à venda desde 2001, de acordo com o fabricante, o Janus Development Group, de Greenville, Carolina do Norte (EUA). Especialistas dizem que o dispositivo ajuda algumas pessoas, mas outras não, e que os efeitos podem desaparecer com o tempo.
O SpeechEasy, por fazer a voz do usuário alcançar o cérebro com um ligeiro atraso e com um tom diferente, fornece a sensação de a pessoa estar falando ao mesmo tempo em que outro indivíduo, desencadeando o tal efeito coro, que reduz a gagueira. O produto favorece a fluência da fala em situações cotidianas, promovendo bem-estar e melhor qualidade de vida ao usuário.
A tecnologia aplicada no SpeechEasy possibilita o aumento da fluência em diversas situações. No entanto, é importante ressaltar que o equipamento não cura, ele é, sim, um auxiliador no tratamento da gagueira.

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostraram que 80% dos usuários se sentem satisfeitos com o uso do equipamento. Mais de 85% dos clientes apresentam como vantagens aumento de confiança, liberdade e autoestima, assim como melhora nos relacionamentos sociais e profissionais. No Brasil, um bom exemplo de quem é usuário do aparelho é o cantor Saulo Roston, vencedor do reality show musical Ídolos 2009. “O aparelho ajuda mesmo. Percebi que não gaguejo nas palavras em que costumava ‘travar’”, afirma o cantor, que utiliza o SpeechEasy desde abril. Saulo apresenta gagueira quando fala, mas não gagueja quando canta. Esse fenômeno ocorre, segundo explicações da Fonoaudiologia, porque durante o canto a pessoa não está produzindo uma fala autoexpressiva, mas sim interpretando um conteúdo já existente. Portanto, a gagueira pode não atrapalhar a carreira que o cantor terá, mas pode interferir na sua qualidade de vida e na sua comunicação ao fornecer entrevistas, por exemplo.
Segundo dados do IBGE, a população brasileira é de 192 milhões de pessoas. Nesse universo, de acordo com o Instituto Brasileiro de Fluência (IBF), a incidência da gagueira é de 5%, ou seja, 9,5 milhões de brasileiros estão passando por um período de gagueira neste momento. Esse número é maior do que a população da cidade do Rio de Janeiro. A prevalência da gagueira é de 1%, isto é, 1,9 milhão de brasileiros gagueja há muitos anos de forma persistente, crônica. Esse número é maior do que a população de Manaus ou Curitiba.

Utilidade pública

O Grupo Microsom é, desde 1994, o distribuidor exclusivo da empresa canadense de aparelhos auditivos Unitron Connect no Brasil. Também, desde 2008, a companhia comercializa em território nacional o SpeechEasy, tido como o único aparelho no mundo para tratamento da gagueira. Conforme anuncia o grupo, o SpeechEasy é um discreto aparelho que promove a fluência em pessoas que gaguejam e que é adaptado a partir da necessidade individual de cada paciente. Para mais detalhes, esse dispositivo está disponível no Youtube, no canal de vídeos http://www.youtube.com/user/GrupoMicrosom. Para tornar-se seguidor do SpeechEasy no Twitter, acesse: twitter.com/speecheasybr.