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Revista Mercado Edição 52 - julho 2012

Fuja do sedentarismo e dê um basta à obesidade

Por Aline Morais e Anderson Tissa

Para acabar com o excesso de peso e evitar as várias doenças causadas pelo acúmulo de gordura no organismo, especialistas recomendam a reeducação alimentar aliada à prática de exercícios físicos regulares.
A receita é simples, mas pouca gente segue

A população brasileira está cada vez mais sedentária, e com isso os números da obesidade crescem e junto a preocupação dos profissionais da saúde em combater esse mal capaz de provocar diversas doenças e até a morte. Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, quase metade da nossa população está acima do peso. O percentual de “gordinhos” no Brasil passou de 42,7% em 2006 para 48,5% em 2011. No mesmo período, a proporção de obesos subiu de 11,4% para 15,8%. Para os especialistas, são índices que poderiam ser diminuídos de formas simples, com mudanças de hábitos alimentares e a prática de atividade física. Porém existe mais um agravante, uma outra pesquisa da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mostra que 49% da nossa população não faz exercícios físicos, ou seja, praticamente metade dos brasileiros são sedentários. “Hoje o sedentarismo é a maior causa de morte, estando ligado diretamente à obesidade, à pressão alta, ao diabetes tipo 2, a problemas cardíacos, a colesterol alto e a um número enorme de outras doenças”, alerta o educador físico e especialista em Nutrição Márcio Atalla.

O educador físico Márcio Atalla esteve em Uberlândia recentemente proferindo palestras sobre o sedentarismo e a importância da atividade física na vida das pessoas

Márcio Atalla foi apresentador do Programa Bem Estar do canal GNT, e ganhou destaque nacional no Programa Fantástico (Rede Globo), no comando do quadro “Medida Certa”, que contou com a participação dos apresentadores Zeca Camargo e Renata Ceribelli. Segundo Atalla, uma pessoa ativa vive com mais qualidade do que uma sedentária. Ele chama atenção para o avanço da obesidade entre as crianças, que aumentou 400% nos últimos 30 anos no Brasil, o que é ainda mais perigoso. “O adulto tem a consciência. Você propõe a atividade e ele tem a responsabilidade. Para a criança, você tem que colocar de forma lúdica, se ele não gostar, ele não vai continuar. Tem que conquistar”, explica. Entretanto, para ele é mais fácil mudar o hábito de uma criança.
Para o endocrinologista Joel Rogério H. Filho, os problemas provocados pelo sedentarismo estão geralmente ligados à hipertensão arterial e às doenças cardiovasculares. “O sedentarismo por si só aumenta as chances de desenvolver doenças cardiovasculares, como infarto do coração e derrame cerebral, além, é claro, de levar à obesidade. Existem várias razões para isso. Quando a pessoa se exercita, ocorre um aumento do gasto calórico, contribuindo para a perda de peso, o aumento da captação de glicose pelas células e uma ação antiinflamatória, além da liberação de certas substâncias, como endorfinas, que melhoram o bem-estar, a disposição e o sono. Ou seja, o exercício contribui de forma direta para a redução do risco de várias doenças”, afirma o médico.

O endocrinologista Joel Rogério Filho: “Cerca de 60% dos pacientes que atendo hoje estão com sobrepeso ou obesos, e destes, a grande maioria é sedentária”

Uma dúvida frequente está relacionada à escolha do tipo de exercício físico. De acordo com o especialista, a atividade ideal é aquela que traz sensação de prazer e bem-estar. As mais eficazes e indicadas pelo endocrinologista são: “aeróbica (caminhadas, ciclismo, corrida, natação, dança, entre outras). O exercício de resistência (musculação) também é eficaz, pois aumenta a massa magra (músculo), evita lesões e, consequentemente, aumenta o gasto calórico”. Porém, antes de iniciar qualquer atividade física, o mais indicado é consultar antes um médico e depois a orientação de um profissional em educação física.
Já para os pacientes que estão no grau de sobrepeso ou obesidade, o recomendado é que se mude o estilo de vida de forma gradual. “Cerca de 60% dos pacientes que atendo hoje estão com sobrepeso ou obesos e, destes, a grande maioria é sedentária. O recomendado é que se faça a reeducação alimentar com um cardápio variado, equilibrado e hipocalórico, além de exercício físico de 3 a 5 vezes por semana, com duração de 30 a 60 minutos regularmente”, afirma Joel Filho.

Tempo para se exercitar

Com a rotina cada vez mais corrida e cansativa, as pessoas estão deixando a saúde em segundo plano. De acordo com o Ministério da Saúde, o sedentarismo aumenta com a idade. Em homens entre 18 e 24 anos, 60,1% praticam exercícios. Esse percentual se reduz para menos da metade aos 65 anos (27,5%). Entre mulheres de 25 a 45 anos, 24,6% se exercitam regularmente. A proporção é de apenas 18,9% entre mulheres com mais de 65 anos.
O mínimo de atividade física recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) é de 150 minutos de atividade aeróbica divididos em cinco dias, ou seja, 30 minutos diários. E ainda mais duas vezes por semana para algum trabalho de massa muscular.
Alguns até conseguem cumprir a recomendação da OMS, mas muitas pessoas desistem da atividade física por falta de motivação. O educador físico Márcio Atalla, que atualmente participa do quadro Medidinha Certa, no programa Fantástico, explica as reações do nosso corpo quando começamos uma atividade física. “Nosso corpo é geneticamente preparado para se mover. Ele vai funcionar melhor com o movimento. E o que acontece? Há 40 anos as pessoas tinham um gasto calórico maior, cerca de 500 calorias a mais. Atualmente não é assim. Então, quando um sedentário busca o movimento, o corpo reage contra, o que dificulta o processo’’, ilustra.
Mas nem tudo está perdido. “Meu conselho é a consciência. A pessoa deve colocar na cabeça que precisa de 30 minutos diários de atividade física. Esse é o primeiro passo. A partir daí, os três primeiros meses são os mais difíceis, porque o corpo está se adaptando. Após esse período, o corpo começa a aceitar”, afirma Atalla.

A estudante Fernanda Zei quis e conseguiu: ela perdeu quase 12,5 kg em pouco mais de quatro meses, após haver se submetido a uma dieta alimentar complementada com atividade física (na foto, a estudante antes, com 74,5 kg, e depois, com 62 kg)

A estudante Fernanda Gullo Zei, de 20 anos, sabe bem o que é isso. Depois de brigar com a balança que insistia em apontar 74,5 kg, resolveu tomar uma atitude. Entrou para um grupo de reeducação alimentar e começou a praticar exercícios. Em alguns meses perdeu quase 12,5 kg e conseguiu atingir sua meta. Fernanda conta o segredo para se manter motivada. “Primeiro, a minha disponibilidade interna de tentar e encontrar um plano de alimentação adequado, sem restrições. No grupo, pude ouvir depoimentos de pessoas em situações mais difíceis. Então, logo pensava que se eu parasse de me cuidar seria muito pior’’, conta a estudante.

Mude os hábitos e alimente-se bem

Uma alimentação saudável é baseada no consumo de frutas, verduras e legumes, cereais, carnes magras, entre outros alimentos. Mas não basta ter uma alimentação composta por esses alimentos, eles também devem ser bem distribuídos ao longo do dia, além de estarem em quantidades adequadas segundo o ciclo da vida.
Mas e os doces, o sorvete, o salgadinho da festinha ou o sanduíche? A nutricionista Ana Cristina Tomaz Araújo explica que esses alimentos não estão proibidos na alimentação equilibrada, mas devem ser consumidos com moderação e eventualmente. “É importante entendermos que esses alimentos, muitas vezes considerados como ‘proibidos’, são ricos em açúcar e em gorduras, principalmente saturada e/ou hidrogenada e/ou poliinsaturada (w6). Esses nutrientes devem ser consumidos em baixa quantidade, já que o excesso é prejudicial à saúde. Essa alimentação inadequada não traz para a população somente o excesso de peso, mas também as carências nutricionais, como as anemias por deficiência de ferro e/ou por deficiência de vitamina do complexo B, além de sinais e sintomas de estresse, como perda da memória, fadiga e queda de cabelos”, explica.
Um dos fatores que justifica o aumento do excesso de peso e da obesidade no Brasil é a alimentação desequilibrada, tanto pelo alto consumo de calorias como pelo excesso de alimentos ricos em gordura. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde revelam que 34,6% dos brasileiros comem em excesso carnes com gordura, e 29,8% consomem refrigerantes pelo menos cinco vezes por semana.
Já quando o assunto é alimentação saudável, os números são bem inferiores – apenas 20,2% ingere a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de cinco ou mais porções por dia de frutas e hortaliças. A pesquisa revela que as mulheres comem mais frutas e hortaliças, enquanto os homens comem mais carne com excesso de gordura.

A nutricionista Ana Cristina Tomaz informa que a alimentação balanceada não restringe alimentos, apenas exige moderação

Mas para quem quer perder peso somente com uma alimentação equilibrada, a nutricionista afirma que é possível, desde que o tratamento do excesso de peso e da obesidade seja baseado na mudança de hábitos, incluindo, além da dieta saudável, a prática de atividade física regular.
Para Ana Cristina, a alimentação saudável deve ser uma preocupação constante. “Alimentar-se bem é o primeiro passo para ter uma vida saudável. O principal ponto que devemos aprender é que a reeducação alimentar não consiste em deixar de comer tudo o que se gosta e passar a comer somente frutas, verduras, legumes e alimentos light. Muito pelo contrário, é aprender que você pode comer de tudo, mas sem exageros e de forma equilibrada. As escolhas corretas, associadas a intervalos de 2 a 3 horas, são mais interessantes para a perda de peso do que passar longos períodos do dia em jejum”, afirma.
A maioria das pessoas, quando quer emagrecer, recorre a dietas que vê em revistas ou à recomendação de terceiros. Mas o importante é procurar ajuda profissional para que a sua alimentação seja adaptada. “Cada pessoa tem um metabolismo diferente, por isso a dieta deve ser personalizada. O nutricionista é um profissional que, além de avaliar a condição nutricional, prescreve dietas e suplementos quando necessário, o que poderá auxiliar em dicas práticas para a dieta do dia a dia de cada um, como fazer as compras do supermercado, como armazenar os alimentos e prepará-los de maneira mais saudável”, afirma a nutricionista, que ainda recomenda: exercite-se mais e alimente-se melhor.

Alimentação saudável e balanceada: apenas 20,2% da população ingere a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde, de cinco ou mais porções por dia de frutas e hortaliças

Emagrecendo a cabeça do obeso

A psicóloga Alessandra Mattar explica que aceitar a obesidade e tratá-la não é uma tarefa fácil. Em muitos casos é preciso até um acompanhamento psicológico

A obesidade é resultado de vários fatores, por isso seu tratamento deve contar também com uma equipe multidisciplinar. Entre eles, o psicólogo, que vai tratar das questões afetivas, sociais e também da reformulação dos hábitos do obeso. “Com a ajuda do psicólogo, o paciente vai refletir não apenas sobre as questões orgânicas do seu problema, mas também sobre a parte afetiva. O indivíduo tem que aprender a lidar com as dificuldades, controlar os conflitos emocionais para não buscar refúgio na comida, o que só aumentará o sentimento de descontrole e culpa em relação à sua alimentação”, explica a psicóloga de obesidade, Alessandra Mattar.
A terapia, segundo a psicóloga, visa fazer o paciente perceber que existe um pensamento automático que o induz a comer em determinadas situações, como de stress e ansiedade, por exemplo. “Se o paciente percebe esse pensamento automático, ele consegue mudar seu comportamento. E o psicólogo vai trabalhar maneiras que podem fazê-lo encarar uma situação de ansiedade sem ser comendo, por exemplo. Se não houver esse acompanhamento psicológico, o paciente vai repetir o mesmo comportamento com as outras dietas que falharam”, conta.

Atenção tem que começar cedo

“A genética é um fator importante na obesidade das crianças, porém não existe obesidade se não houver um desequilíbrio entre a ingestão alimentar e o gasto energético”

Há algum tempo, criança “gordinha” era sinônimo de saúde. Hoje, o conceito não é bem esse. A obesidade infantil está sendo tratada como uma epidemia, muito em função das mudanças nos hábitos alimentares das crianças e da população em geral. De acordo como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a genética é um fator importante na obesidade das crianças, porém não existe obesidade se não houver um desequilíbrio entre a ingestão alimentar e o gasto energético.
No caso das crianças, Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) no ano de 2008-2009, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, revela que 36,6% das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos estão acima do peso. Os índices de obesidade também estão num patamar elevado, crescendo muito nos últimos 35 anos. Em 1974, apenas 1,4% das crianças eram obesas, saltando para 16,6% em 2009. Verificou-se, ainda, o seguinte padrão: há mais crianças obesas nas localidades urbanas e na região sudeste do Brasil.
O sedentarismo e a alimentação inadequada são os grandes responsáveis. “Os alimentos industrializados são muito calóricos, e os mais frequentes nos lanches dessas crianças, e as refeições são feitas de qualquer forma, até mesmo em frente à televisão. As crianças de hoje praticam também menos atividades físicas. Os jogos antes eram na rua, na praça, as crianças gastavam muita energia. Hoje, as brincadeiras são em frente à televisão ou ao computador, com todos sentados”, diz Alessandra Mattar.
Na alimentação, a nutricionista Ana Cristina recomenda a preferência por alimentos mais frescos e com baixo teor de açúcar e gordura. “Quanto aos refrescos, substitua os artificiais e os refrigerantes por sucos naturais de frutas, diminua o consumo de alimentos de “fast food”, dando sempre preferência aos alimentos frescos e naturais. Siga os horários corretos das refeições, consumindo frutas e/ou bebidas lácteas nos intervalos das principais refeições. Outro ponto importante é o local onde a criança faz as refeições: evite que as crianças se alimentem em frente à TV. Esse comportamento faz com que a criança fique sem atenção, favorecendo o maior consumo de comida”, afirma a nutricionista, que recomenda: “é importante comer bem e se exercitar desde a infância para ter uma vida saudável”.

Como se classifica a obesidade

Inicialmente, faz-se o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC), que apesar de não ser o método mais fidedigno de classificação da obesidade, é bastante simples e pode servir de orientação. O IMC foi criado para uma melhor orientação do público sobre o seu peso em relação à sua altura, resumindo, permite saber se a pessoa está gorda ou magra. O IMC é uma formula matemática com objetivo de sinalizar a magreza excessiva, a obesidade ou a obesidade mórbida.
O cálculo do IMC é simples: o seu peso (em quilos) dividido pela sua altura ao quadrado (altura vezes altura). Depois, aplica-se o resultado numa tabela de referência.

Equação para cálculo do IMC

Peso (kg)
IMC = ———————
Altura² (m²)

Exemplo: Considerando uma pessoa com peso de 120 kg e altura 1,65 m

120 (kg)
IMC = ————————- = 44,1Kg/m²
1,65 x 1,65 (m²)

Ou seja, a pessoa com o peso e altura exemplificados acima apresenta um quadro de obesidade mórbida (confirme na tabela abaixo)

Tabela de referência
IMC Classificação
Abaixo de 18,5 Subnutrido ou abaixo do peso
18,6 a 24,9 Peso normal
25,0 a 29,9 Sobrepeso
30,0 a 34,9 Obesidade Grau I
35,0 a 39,9 Obesidade Grau II
40,0 e acima Obesidade mórbida

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